terça-feira, 22 de março de 2016

A memória do sal


Janela presente na antiga Fábrica de sal em Ribeirão Pires
Foto: Adélia Nicolete

Muito se fala da memória dos elefantes, forte como eles. Da memória dos peixes também se fala: é curta. Das coisas, as paredes têm ouvidos, dizem, e talvez por isso guardem lembranças além dos rabiscos, marcas diversas, digitais. A tinta, nova ou desbotada, revela. A veia aberta – o trinco – de fora a fora, de cima a baixo, contam dos abalos. As paredes têm ouvidos e memória. Os tijolos.

Quando de barro, os tijolos guardam um pouco de quem os moldou. Assentados, guardam o capricho do mestre ou a distração do moço recém chegado, enamorado, saudoso, morto de cansado. O edifício guarda lembrança de quem o construiu e frequentou.

Bichos, barro, tijolos, parede, gente têm memória, pouca ou muita, do que foram, de quem são. E o sal? Qual a memória salina?

Mais do que penso, compreendo pelo sentir, que a memória do sal existe é fora dele. Na água do mar e depois na pele queimada. Na língua, nos olhos que ardem. Na fervura que cresce. Na hemorragia que estanca, na ferida que seca e já não é mais. A memória do sal está na ferrugem, na corrosão das paredes – num recado sutil, mas absolutamente claro, de que o tempo passa, de que tudo passa, até que nada do que hoje é seja lembrado.

Era uma vez um moinho de sal. 

Vista geral da antiga Fábrica (moinho) de sal
Foto: Adélia Nicolete

Em 22 de março de 2016, por iniciativa do Coletivo Sal da Terra, conduzi um Ateliê de Memórias no Complexo Cultural Ibrahin Alves Lima em Ribeirão Pires. Doze pessoas reuniram-se em mais uma das ações que visam a reconduzir o destino daquele espaço, atualmente ameaçado de demolição, para os trilhos da cultura.


Participantes do Ateliê de Memórias
Foto: Adélia Nicolete


A proposta do Ateliê foi a criação de textos memorialísticos nascidos do contato direto com a arquitetura do local, com ênfase na Fábrica, construída em 1898 e que já abrigou moinhos de farinha e sal, processamento de adubo e salitre, depósito de pólvora, fiação de seda e, no início deste século, uma escola de música.

Que memórias guardam aquelas paredes? As janelas, o que presenciaram? A chaminé, ainda hoje vista desde longe, o que nos conta sobre a cidade nesse mais de um século de prontidão? A neblina, a vida marcada no compasso do trem, do sino da igreja, do apito da fábrica, onde? A fumaça hoje qual é? Os cheiros. A moda, o penteado das moças, as canções?

Que tanto essa fábrica viu e ouviu, mas o sal da nossa pressa corroeu sem deixar sabor? Foi esse o estímulo para a escrita.

Detalhe da parede externa da Fábrica de sal
Foto: Adélia Nicolete

Ver e ouvir as paredes e os tijolos. Interpretar a ferrugem. Dialogar com o medo, com o abandono, disputar espaço com o lixo e as fezes. Compactuar com o verde que brota, teimoso e incauto, rumo à vida – como observou uma das participantes. Rumo à construção de novas memórias.


Trecho do Complexo Educacional visto a partir da ferrugem das janelas
Foto: Adélia Nicolete


Para além de registrar histórias reais de antigos moradores ou funcionários – ação pretendida para breve pelo Coletivo – o Ateliê de Memórias tem a vocação de fabular verdades possíveis porque humanas. Despertar a sensibilidade para o sabor do trabalho, dos conflitos e das paixões que temperaram o espaço fabril. Deixar que as narinas ardam com o vazio, que a saliva e os olhos traduzam em palavras as memórias do sal.

Daí brotaram onze textos nos mais diversos estilos e até uma música. Eles foram compartilhados no grupo, analisados e cada autor teve a oportunidade de ouvir comentários e sugestões que, se considerados, poderão levar a uma reescrita.

A vida que teima em brotar
Foto: Adélia Nicolete

Qual o sentido disso?! Numa cidade de quase 120 mil habitantes, apenas doze (comigo 13 apóstolos) se reunirem pra inventar memórias? Para que? Que diferença faz?!

Mais do que penso, compreendo pelo sentir, que a memória do sal está no que ele preserva. Naquela tarde de 22 de março, nós fomos o sal. E isso deve fazer algum sentido.

                                                   *   *   *

Obrigada ao Coletivo Sal da Terra pelo Encontro, aos funcionários da Biblioteca Municipal pelo ambiente de escrita. Muito obrigada aos participantes pela partilha sensível.



Adélia Nicolete


terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

A dramaturgia barroca de Papa Palmerino


Palmerino Sorgente


Boa parte dos textos dramáticos contemporâneos guardam semelhança com a produção de alguns dos artistas que tenho apresentado no blog. Hoje falarei de Palmerino Sorgente, um artesão cujo requinte equipara-se aos mais dedicados investigadores da linguagem.

Nascido na Itália em 1920, o artista mudou-se para o Canadá em 1954, depois de servir na Segunda Guerra Mundial. Casado e pai de treze filhos, Palmerino ganhava a vida como dono de pizzaria até que, em 1970, um acidente de trabalho forçou-o a uma aposentadoria prematura. Para dar vazão à hiperatividade e tirar proveito de suas habilidades técnicas, converteu uma área de sua casa num bairro proletário em Montreal em oficina de reparos eletrônicos. Tudo caminhava normalmente até o dia em que começou a ouvir vozes. Em uma das ocorrências, Nossa Senhora ordenou-lhe que tomasse para si o anúncio da fé e, a partir desse dia, dedicou-se exclusivamente a tal propósito, vindo a ganhar a alcunha de Papa Palmerino, o Papa de Montreal.

A antiga oficina transformou-se em um genuíno espaço de arte e também em refúgio, já que foram transferidos para lá cama, geladeira, dispensa e objetos pessoais do artista, agora convertido em missionário. Para atrair os visitantes dispunha placas escritas à mão em letras grandes e vermelhas, ora na calçada ora na janela de sua loja. Em pouco tempo tornou-se uma figura urbana popular.


Chapéus criados por Papa Palmerino e expostos no
American Folk Art Museum

“Rosários, cruzes e medalhas; frascos de água benta, imagens de santos, santuários e pingentes se tornaram a matéria bruta para uma idiossincrática e intensa produção artística, em funcionava 24 horas por dia. Com movimentos confiantes e equipado com uma lente de aumento e pinças, Sorgente fez o design de ricas vestimentas desde chapéus de cardeal, tiaras, e coroas, todas moldadas para sua cabeça, a roupas cerimoniais, anéis elaborados, amuletos, pingentes para chaveiros, e pequenos e ornamentados cartões de memória com orações.” *


Diferente dos demais artistas expostos até agora, os únicos descartes utilizados por Palmerino visavam à estruturação das peças. Todos os outros materiais eram novos, preferencialmente os que oferecessem algum tipo de brilho – lantejoulas, miçangas, pedras preciosas, glitter, objetos metálicos, tecidos e fitas – ou que fossem vermelho-sangue: “Cristo vestia vermelho quando foi condenado à morte”.** O efeito pretendido por Sorgente era fazer circular a mensagem de paz e amor de Deus, facilitar o acesso ao divino e encorajar a devoção.

Papa Palmerino em sua loja, em 1999


Mesmo depois do incêndio ocorrido em 2000 em que perdeu tudo, o artista continuou sua missão obstinadamente. Mudou-se para um pequeno apartamento próximo dali onde reproduziu o método anterior: oficina e quarto separados da loja por uma porta com cadeado e a inscrição “Área privada. Proibida a entrada sem permissão”. Ali viveu e trabalhou até sua morte em 2005, deixando um legado de objetos e muitos álbuns com figuras de santos mescladas a pensamentos e retratos seus - “A Nova Santa Bíblia” era o título mais comum.

Chapéu de autoria de Palmerino Sorgente


Quando observo o chapéu acima, identifico nele toda uma construção dramatúrgica que invariavelmente associo a alguns autores contemporâneos. Há nesse objeto um meticuloso trabalho com os materiais, intensificado se pensarmos nas dimensões dos objetos criados por Palmerino, pequenos em sua maioria. Repetição de padrões, predominância de certas tonalidades, alternância calculada de elementos, variedade de texturas e materiais e assim por diante. Embora o todo constitua-se num chapéu, cada setor pode ser apreciado de forma independente, pois carrega uma composição diferente dos demais.

Não houvesse a série de  crucifixos, o acessório poderia ser tomado como profano e desfilado em ocasiões festivas. Assim também o texto dramático contemporâneo pode muitas vezes ser tomado por algo de outra natureza. O fato de ser classificado como teatral pelo seu autor é que conduz a nossa apreciação para a cena. Citei em postagem anterior um fragmento de “Descrição de imagem”, de Heiner Müller. O fragmento abaixo, que encerra Gritos de socorro de Peter Handke pode também ilustrar a reflexão:

“luz!: NÃO. entra!: NÃO. baixo!: NÃO. obrigado!: NÃO. obedeceis!: NÃO. levantar a cabeça!: NÃO. para todos!: NÃO. nome próprio!: NÃO. a partir de hoje!: NÃO. o seguinte!: NÃO. atenção!: NÃO. seguir eles por favor!: NÃO. profissão!: NÃO. nunca!: NÃO. pena!: NÃO. para a ducha!: NÃO. precisa-se!: NÃO. até nova ordem!: NÃO. estrangulado!: NÃO. que venha!: NÃO. a porta!: NÃO. dispa-se!: NÃO. (...) sentado!: NÃO. mãos sobre a mesa!: NÃO. contra a parede!: NÃO. nem mas nem meio mas!: NÃO. nem para a frente nem para trás!: NÃO. sim!: NÃO. agora!: NÃO. depor! NÃO. não prender!: pare!: NÃO. fogo!: NÃO. eu afogo-me!: NÃO. ah!: NÃO. mas!: NÃO. não!: NÃO. olá!: santo!: NÃO. santo, santo, santo!: NÃO. por aqui! NÃO. boca fechada!: NÃO. quente!: NÃO. do ar!: NÃO. içar!: NÃO. água!: NÃO. daí!: NÃO. perigo de vida!: NÃO. nunca mais!: NÃO. perigo de morte!: NÃO. alerta!: NÃO. vermelho!: NÃO. viva!: NÃO. luz!: NÃO. atrás! NÃO. não!: NÃO. lá!: NÃO. aqui!: NÃO. para cima!: NÃO. ali!: NÃO. NÃO. NÃO.
Socorro?: SIM!
Socorro?: SIM!
Socorro?: SIM!

SOCOSIMrroSIMSOCOSIMrroSIMSOCOSIMrroSIMSOCOSIMrroSIMSO- COSIMrroSIMSOCOSIM

rroSIMsocorro.


socorro.” ***



O lúdico proposto por Handke equivale, sob certo ponto de vista, à composição de Sorgente. É inegável o “jogo” simétrico de repetição tanto no texto quanto no chapéu. Inegável também a profusão de elementos capazes de entorpecer os sentidos de quem vê/ouve. Em ambos os casos, me parece, mais do que pretender uma apreensão lógica e racional dos enunciados, a intenção é causar um efeito quase sinérgico no espectador. Os dois artistas operam com o ritmo, com a pausa (vide a conformação gráfica do trecho de Handke), com o excesso. Em outras palavras, é como se a tradução do texto dramático (não necessariamente Gritos de socorro) pudesse ser representada em termos pictóricos pelo chapéu de Papa Palmerino.

Ainda, é como se a uma jaqueta de Rock N Roll, a uma fantasia de Miyama, a um adereço de Borges Falcão ou a um cajado de Logan pudéssemos corresponder e criar uma dramaturgia. Ou ainda: que rico exercício é a identificação de uma composição dramatúrgica nesses objetos, uma tradução para teatro de tais repetições, recortes, sobreposições, variações, etc. Mesmo porque, para todos aqueles artesãos, as criações paramentavam o criador, serviam todas elas a uma performance. Serviam a uma cena.

Adélia Nicolete
 
Papa Palmerino pode ser visto no Youtube. O endereço é:

* ROUSSEAU, Valérie. Palmerino Sorgente. In: AMERICAN FOLK ART MUSEUM. When the curtain never comes down : performance art and the alter ego.  New York: American Folk Art Museum, 2015.  p. 112 (Tradução de Bernardo Abreu)

** Idem. p. 113

*** HANDKE, Peter. Gritos de socorro. In: HANDKE, Peter. Peter Handke: peças faladas. Org. e trad. de Samir Signeu.  São Paulo: Perspectiva, 2015. p. 218 



segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Charlie Logan


Para Cida Ferreira,
artista plástica, cenógrafa e figurinista


Charlie Logan
(Foto: internet)


Retomo nesta postagem sobre Charlie Logan o compartilhamento de minha visita à exposição Quando as cortinas nunca se fecham : a arte da performance e o alter ego, no American Folk Art Museum de Nova York.

Charlie é o quarto artista que apresento no blog. Assim como os anteriores (Rock N Roll, Eijiró Myama e Raimundo Borges Falcão), ele se utiliza de materiais descartados para suas criações e como todos os demais artistas da exposição, foi diagnosticado com algum tipo de distúrbio psicológico. Seu trabalho meticuloso e de apurado senso estético permite que o apreciemos como obra de arte, valendo-nos dos mesmos critérios de que lançamos mão ao apreciar artistas aceitos numa faixa de normalidade, ainda que bastante relativa.

Nascido em 1893 nos Estados Unidos, Charlie Logan viveu a maior parte do tempo na cidade de Alton, no estado de Illinois, banhado pelo rio Mississipi. Era figura familiar na localidade e pouco se sabe sobre ele antes de 1979, quando foi “descoberto” ao acaso por Kenneth e Kate Anderson, casal de colecionadores de arte popular e espontânea (autodidata, sem finalidade expositiva ou comercial). Estavam por ali de passagem e sua atenção foi atraída pelo porte e pelos trajes daquele homem:

“A jaqueta era bordada com bandeiras, listras, ponto-cruz, cores e marcas de maneira elaborada... Sua bengala, sua bolsa e seu chapéu eram tão decorados quanto a jaqueta. Ele parecia enorme. Sua pálpebra direita estava fechada e dela escorriam fluidos. Em uma mão ele segurava uma grande faca de açougueiro e cortava tiras de sua jaqueta. Parecia um pirata caribenho com um olho só, um pequeno cutelo na mão – uma roupa chamativa e botas pretas.” *

A partir dali, Kenneth Anderson dedicou boa parte de seu trabalho ao estudo e à preservação das criações de Logan. Tanto que, nos anos 1990, conseguiu que o Museu de Arte da Filadélfia adquirisse boa parte do acervo (28 peças no total) a fim de exibi-lo ao grande público.

Jaqueta "Saved" (Salvo) criada por Charlie Logan
(Foto: internet)



Depois de cinco anos de amizade com o casal, Logan revelou ter passado um bom tempo na prisão, acusado de falsificar dólares. Ao sair de lá, esposa e filhos já tinham partido e, sem casa nem família, ele passou a contar com uma pensão do governo e alimentando-se graças à ajuda da comunidade, de quem também recebia pouso.

À semelhança de Arthur Bispo do Rosário, Logan aproveitava todo tipo de tecido para a customização de suas roupas. Era com os fios provindos de meias, lençóis e outras peças que recebia ou encontrava que o artista fazia seus bordados. Botões, medalhas, etiquetas e outros adornos eram também material para os apliques. Mas não só isso, boa parte da decoração era feita com dinheiro, já que, para evitar assaltos, ele costurava moedas nas vestimentas e nos assessórios:

“Ele pegava duas moedas de 25 centavos, duas de 10 e duas de 5 centavos, fazia um rolinho e as cobria com uma rede bordada... Os amuletos eram pendurados visivelmente na borda de seus chapéus, mas não eram reconhecíveis como dinheiro e com dez ou doze desses malotes caindo de seu chapéu, estava pronto para um dia fora. Ele podia cortar o que precisasse e comprar algo para comer ou beber." **

Logan também inseria moedas nas bengalas e mochilas, bem como nos relógios, braceletes de pano, broches e anéis – todos feitos ou forrados com pedaços de tecidos e fibras. 

Chapéu criado por Logan e exposto no Museu da Filadélfia
(Foto: internet)
Interior do chapéu
(Foto: internet)

À medida que encontrava novos materiais, Charlie Logan acrescentava-os às peças já criadas, de modo que elas engrossavam e ficavam cada vez mais pesadas - se lembrarmos que ele as expunha em seu próprio corpo, imaginamos o quanto se tornavam difíceis de carregar. No entanto, com a mesma facilidade com que acrescentava elementos, desfazia-se deles, oferecendo pedaços de seu traje a alguém com quem simpatizasse.

Gravata, pingentes, broche  e anéis do acervo de Charlie Logan
(Foto: internet)


Um exame mais atento de suas criações levou alguns pesquisadores a atribuir ao artista algum tipo de conhecimento das tradições africanas. Pelo uso recorrente de símbolos tais como a cruz; o coração, presente na decoração haitiana; o cosmograma do Kongo, representação das fases da existência (nascimento, vida, morte e ressurreição) no mundo ancestral; pelas frases que inscrevia ou mesmo pelo uso cotidiano do bastão, Logan chegou a ser considerado um verdadeiro “xamã” pelos mais entusiasmados.

Conjunto de peças - bastão, chapéu, bolsa e casaco "SIS" - 1978-1984
(Foto: Museu de Arte da Filadélfia)

Perto da morte do artista, ocorrida em 1984, Keneth Anderson pediu ao enfermeiro que guardasse as roupas originais e, para que não o enterrassem com elas, providenciou um terno novo. Embora viesse a se sentir culpado por essa decisão, Anderson considerou que a arte de Charlie Logan deveria ser conhecida por um público cada vez maior.

Bastões customizados por Charlie Logan - observar moedas costuradas no bastão à esquerda
(Foto: internet)


Charlie Logan






Adélia Nicolete



* ROUSSEAU, Valérie. Charlie Logan. In: AMERICAN FOLK ART MUSEUM. When the curtain never comes down : performance art and the alter ego.  New York: American Folk Art Museum, 2015.  p. 64 (Tradução de Bernardo Abreu)

** idem, p. 66



quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Ateliê de Dramaturgia - UDESC - Finalização



Aline prepara sua cena solo
(Foto: Adélia Nicolete)


Os dois últimos encontros do Ateliê de Dramaturgia da UDESC foram dedicados mais especificamente à experimentação cênica dos textos criados e/ou reescritos ao longo dos três encontros anteriores. Os participantes foram distribuídos em grupos e houve também quem preferisse trabalhar individualmente.


A cada uma das equipes coube um conjunto de escritos a ser selecionado, analisado e tratado conforme melhor conviesse, podendo-se lançar mão de recorte, colagem, justaposição, sobreposição, bem como da conjugação com a dramaturgia do espaço, do corpo, da voz e assim por diante.

Dentre os materiais distribuídos pouco havia que fosse convencional ou facilmente transposto para a cena. O desafio foi aceito e vencido e, se mais tempo houvesse, algumas das propostas poderiam vir a ser transformadas em espetáculos.

Marco e Beatriz e sua proposta multimídia
(Foto: Vicente Concílio)





















As relações virtuais contemporâneas foram tratadas por Beatriz e Marco por meio dos textos "Putaria", de Vicente e "Tutorial", de Lucas. A dupla utilizou projeções, bem como sua interação com os atores. A gravação de um tutorial de beleza garantiu a relação da personagem com a câmera e, a partir daí, com os possíveis espectadores desse tipo de vídeo - relações mediadas.


Cena de Renata, Fernanda e Stephan (ao centro)
(Foto: Vicente Concílio)



















Um espaço aparentemente doméstico foi criado por Renata, Fernanda e Stephan para a encenação dos materiais escritos por Gabrielli ("Cyberespaço"), Beatriz ("Autorretrato") e Ohanna ("Descarte") . O público foi convidado a presenciar o que poderia ser a relação entre membros de uma família, as crises e os impasses dessa convivência. Curioso que o grupo transformou a dificuldade com relação aos textos em um "problema" a ser resolvido pelo público - aquilo realmente aconteceu?, se ninguém viu, aconteceu? - utilizando-se de recortes e repetições, entre outros recursos.


Gabrielli, Aline, Schaitel e Vicente ensaiam
(Foto: Adélia Nicolete)




















O corredor foi o espaço escolhido por uma das equipes para tratar, entre outros temas, da solidão em meio ao coletivo. "Na espessura da memória", de Stephan e outros dois textos de autoria de Marco foram experimentados num local de passagem, com os bancos dispostos frente a frente e ao longo das paredes, o que intensificou a sensação de individualismo ainda que se estivesse sentado ao lado de alguém. 

A enunciação dos textos pelos atores - individualmente ou em coro - sem um destinatário definido, bem como uma narrativa gravada e acionada próximo do final da cena traduziram a frieza das relações, culminada com a sentença "não há ninguém perto de você" distribuída sob os assentos e repetida muitas vezes pelos atores.

Aline em sua apresentação solo
(Foto: Vicente Concílio)

Aline (acima) quis experimentar um trabalho solo. Nossa leitura de Sarah Kane foi uma de suas inspirações, além do "Autorretrato" e de um texto baseado em Vivian Maier, ambos de autoria de Marco, para desenvolver uma pesquisa em diálogo com a graduação. 

A participante operou com objetos descartados e adotou sonoridades diversas como fio dramatúrgico paralelo ao texto verbal: instrumento, garrafas, chaves, correntes, palmas, etc. Segundo ela, as paredes descascadas da sala dialogaram igualmente com a ideia de descarte proposta pela cena.

Lucas em um solo ao ar livre
(Foto: Vicente Concílio)


Os materiais textuais "Cápsulas e colapsos", de Marcos e "Descarga", de Schaitel, foram levados à cena por Lucas no pátio interno da unidade. Sua performance teve início com a descrição de sua ação, bem como com a ingestão de uma bebida que, ao descer pelo seu esôfago e cumprir a trajetória devida, foi estímulo para semelhante percurso do ator ao redor de um círculo. Digestão e percurso buscavam mimetizar a forma escolhida por Schaitel para o seu "descarga": um texto contínuo e circular, que parte da área mais ampla da folha de papel e gira até o centro - ralo. 



Ohanna, Audrey e Marcos em cena
(Foto: Vicente Concílio)


A sexta e última apresentação contou com os materiais de Vicente ("Autorretrato"), Stephan ("Como nos outros dias") e de Renata ("Fluox"). O grupo compôs com mastros brancos um espaço exíguo, delimitado, mas perfeitamente devassável pelo olhar do público, que deveria cumprir um percurso até o local e escolher o ponto de vista que melhor lhe conviesse.

Ao chegar, o espectador já encontrava a cena em curso e, depois de uma série de repetições moduladas de forma diferente a cada vez, poderia escolher se retirar, tendo a impressão de que a ação continuaria ad infinitum.

Schaitel durante ensaio da cena
(Foto: Adélia Nicolete)


Chegamos ao último encontro com treze bravos participantes. Se digo bravos é porque se dispuseram a superar toda uma série de circunstâncias adversas, otimistas em encontrar algo que lhes fosse proveitoso em todo o processo.

Encontros mensais mostraram-se até certo ponto contraproducentes, ao menos nos moldes com que o Ateliê de Dramaturgia tem sido trabalhado. Encontros semanais asseguram uma apropriação mais efetiva dos meios criativos e das técnicas de escrita, além de promoverem uma interação mais efetiva do grupo – condutor incluído – o que determina tanto um aprofundamento do processo quanto uma radicalização paulatina das propostas. Encontrar espaço e disponibilidade para o Ateliê em meio ao semestre letivo também foi prova de resistência para todos.

Lucas, Vicente e Renata durante ensaio
(Foto: Adélia Nicolete)













Em todo caso, diversos escrevedores aplicaram em seu estágio ou em suas atividades artísticas alguns dos exercícios desenvolvidos no Ateliê de Dramaturgia ou neles inspirados. Sem dúvida, foram criados materiais textuais significativos, ainda que não tenhamos tido tempo para uma análise mais aprofundada com vistas à reescrita.


Mesmo discordando da condução ou dos rumos tomados pelo processo, todos se dispuseram à experimentação, o que atesta não só a generosidade, mas também a maturidade do grupo. A postura profissional pode ser identificada durante todos os encontros. Sucesso a todos!

Stephan durante ensaio da cena
(Foto: Adélia Nicolete)













Vicente e Marco



















Agradeço novamente aos escrevedores e louvo seu empenho. 
A Stephan e Vicente, queridos, agradeço pelo convite e pela acolhida. 

Recebam todos o meu abraço!

Adélia Nicolete




domingo, 15 de novembro de 2015

Ateliê de Dramaturgia na UDESC – III – Dramaturgia do descarte


Arthur Bispo do Rosário veste uma de suas criações
(Fonte: internet)

Ao dar continuidade às propostas de escrita a partir do contato com as artes plásticas, o terceiro encontro do Ateliê de Dramaturgia na UDESC foi direcionado à temática do descarte. Para tanto, nos valemos da apreciação de alguns artistas performers e também de peças teatrais cujos procedimentos de criação assemelham-se ao das linguagens visuais no sentido de operar com materialidades de origens diversas.

Uma das características mais marcantes da pós-modernidade é a exacerbação do consumo em todos os níveis. Decorre daí um grande volume de material descartado e, em nível filosófico e existencial, a tentativa de lidar com o provisório e o superficial, com o que é passageiro, frágil e de curta validade. O ser humano, em busca permanente de sentido para si e para o que está ao seu redor, debate-se na tentativa de lidar com a sucata, com o dejeto, o resíduo, a sobra, o resto.

Dessas tentativas resultam trabalhos como os do norte-americano RockNRoll, do brasileiro Raimundo Borges Falcão, do japonês Eijiró Miyama – todos já contemplados neste blog – e de Arthur Bispo do Rosário.

Eijiró Miyama vestido com uma de suas criações
(Fonte: internet)


Tais artistas, como tantos outros a lidar com o descarte, partem de um impulso interno de organização e criação, impulso esse que determina o tipo de material a ser colecionado, bem como seu direcionamento a certa resultante. O processo é semelhante na maioria dos casos apreciados e percorre busca, identificação e coleta, seguidas de seleção, composição e formalização.


A técnica compositiva vale-se de seriação, sobreposição e repetição, podendo ocorrer também a justaposição e a fragmentação dos materiais selecionados. Costura, bordado e colagem são procedimentos comuns aos artistas escolhidos para o encontro e, não bastasse a criação dos objetos, eles assumem-se também como performers de sua obra.


Casaco criado pelo artista RockNRoll
(Coleção Lisa Spindler)


No que tange à dramaturgia teatral, analisamos trechos de peças de padrões não mais dramáticos, compostas via intertextualidade, fragmentação, justaposição de imagens, listagem – num paralelo com as obras de arte apreciadas. 

Um dos textos escolhidos para leitura e análise foi “X-WRITE”, de Ana Luísa Santos, dramaturga e performer mineira. O trecho inicial dá uma ideia das estratégias compositivas da autora, que segue na mesma proposta até o final da peça:

EU SOU DE AÇÚCAR
EU QUERIA FAZER UM DIÁLOGO ATÉ DERRETER
MAMÃE PASSOU STÉVIA EM MIM
PAPAI NÃO FALA SOBRE ISSO
VOCÊ SÓ DUBLA
IGUALZINHO COM A GENTE
ACHEI MASSA DO PERFIL_
A CASA DELE É TODA TOSCA_
NÃO TEM NADA DE FEMININO_
ATÉ DÁ MAIS CAMADAS_
É UMA COISA ESTEREOTIPADA MESMO
CRISE SOCIAL_
CRISE SEXUAL_
CÉU SOBRE OS OMBROS_
OLHAR PELA FECHADURA
UMA TRAVESTI QUE ESCREVE_
FAZ PROGRAMA E FAZ MESTRADO
COMO A GENTE É PRECONCEITUOSO
É PORQUE EU NÃO ASSISTO
VIAGEM SOLITÁRIA_
LUTA CONTRA O CORPO
CONFLITOS NORMAIS DO SER HUMANO
-


Ana Luísa Santos vale-se da colagem como técnica principal. Segundo ela, depois de criados e/ou coletados os fragmentos, foram testadas diversas disposições. Chegou-se a utilizar literalmente do recorte em papel de cada um dos itens da lista a fim de experimentar as localizações em nível rítmico, gráfico e temático, por exemplo, o que sugere novas possibilidades de arranjo. Em outras palavras, trata-se de um texto-jogo de infinitas possibilidades.

De certo modo, tais possibilidades ganham quase uma progressão geométrica, na medida em o público participe da elocução e/ou da leitura do texto, o que ocorreu em duas apresentações propostas pela dramaturga-performer. Na primeira, o texto foi distribuído a leitores específicos, que tinham os pés mergulhados em bacias com água, e páginas igualmente distribuídas aos espectadores, que puderam não só acompanhar a enunciação feita por outrem, como também ler em voz alta quando lhes aprouvesse. Tal estratégia foi utilizada quando de nossa leitura no Ateliê de Dramaturgia na UDESC, o que propiciou protagonismos e momentos corais, a propiciar sentidos diversos aos materiais propostos por Ana Luísa.


A segunda encenação feita pela dramaturga contou com um telão onde o texto foi projetado de modo espelhado e outro em que se podia ver o rosto da atriz em tempo real. O público acompanhava a peça pelo telão, enquanto a performer, ao microfone, lia em um teleprompter, mais uma vez com os pés submersos. Comandado por um parceiro “de jogo”, o teleprompter exibia o texto ora num ritmo normal, ora acelerado, ora pausado, obrigando a intérprete a alterar voz, corpo e estados internos.

Ana Luísa Santos em apresentação no evento "Janela de Dramaturgia" - BH
(Foto: Ethel Braga)



Ana Luísa Santos em apresentação no evento "Janela de Dramaturgia" - BH
(Foto: Ethel Braga)


Ana Luísa Santos em apresentação no evento "Janela de Dramaturgia" - BH
(Foto: Ethel Braga)

Sob certo ponto de vista, “X-WRITE” pode ser considerado um texto polifônico na medida em que congrega vozes perceptivelmente diferenciadas. Encontra-se ali a fala das ruas e da sala de estar; a conversa de comadres e o discurso publicitário; a fofoca, a manchete, postagens e comentários das redes sociais; o verso poético e contemplativo, o grito, a angústia. Podem-se ouvir os manifestos das ruas, o noticiário, as reflexões filosóficas e sociológicas, de um sem número de fontes.

Ana Luísa Santos é observadora atenta. Coleciona o que seus olhos e seus ouvidos consideram legenda do mundo contemporâneo e, a partir do material coletado – verdadeiros descartes – cria dramaturgia e cena, na maioria das vezes, com a colaboração do público. 

***

Logo após a análise de alguns trechos de dramaturgia, os participantes do Ateliê foram convidados a relacionar "materiais" descartáveis, ideias e conceitos fora de uso, termos já sucateados ou esvaziados de seu sentido e, a partir da seleção de alguns deles, criar um material textual com base nas estratégias compositivas estudadas anteriormente.



Adélia Nicolete


* Sobre esses artistas e a dramaturgia do descarte, consultar as postagens sobre

Raimundo Borges Falcão

Rock'N'Roll

Eijiró Miyama