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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

"Pavio vermelho fogo" - Prefácio


PAVIO VERMELHO FOGO - Diálogos sobre um laboratório de dramaturgia para mulheres - Editora Giostri - São Paulo






PALAVRA DE MULHER



O ABC paulista pode ser definido como uma região de passagem. Sua posição estratégica entre o planalto e o litoral fez dele um corredor, uma via por onde passam matéria-prima, mercadorias e pessoas, um território “entre”. Tal intermediação foi facilitada pela inauguração da linha férrea em meados do século 19 e da rodovia Anchieta, no final dos anos 1940 – as duas igualmente fundamentais para o adensamento da população regional.

A primeira leva de imigrantes italianos chega à região no final dos anos 1800 e encontra tudo por fazer. Outros imigrantes instalam-se, dedicando-se especialmente à lavoura, às pedreiras, serrarias e olarias – essas já existentes em São Caetano do Sul desde o século 18 – estabelecendo uma economia de primeiro setor. E onde estão as mulheres? A que se dedicam nesses tempos? É certo que trabalham nas chácaras e hortas, bem como nas olarias, embora seja trabalho pesado. Casam-se, como é de se esperar, e desincumbem-se das tarefas domésticas, do cuidado com a prole. Deitam-se exaustas assim que o sol se põe e, antes que ele surja no horizonte, já estão em pé a fazer marmitas para a jornada. Analfabetas em sua maioria, as mulheres imigrantes que ajudam a construir o ABC não têm tempo livre para sonhar com o exercício da ficção. As que conhecem algumas letras usam-nas para anotar receitas, remédios ou para escrever cartas aos familiares deixados no além-mar.

No início do século 20 a economia de segundo setor desponta na região com a instalação de tecelagens, cerâmicas, movelarias e outras indústrias de pequeno e médio porte. Grande parte das fábricas absorve a mão de obra feminina e embora já comece a constituir-se uma classe média regional, as famílias ainda contam com o trabalho da mulher e dos filhos e filhas de menor idade na complementação do orçamento doméstico. Estudo formal é privilégio da população mais abastada e, portanto, o pouco que se sabe ler, escrever e fazer algumas contas deve bastar para as necessidades básicas da existência. A quem não escreve nem o próprio nome, é suficiente imprimir à tinta o polegar e está firmado o documento. De quê serviriam literatura, ficção e dramaturgia em tais circunstâncias?

É somente a partir dos anos 1950 que se insinua alguma alteração no panorama. O ABC paulista ficará conhecido nacionalmente como região industrial e a mão de obra será suprida com a chegada de migrantes vindos do Nordeste, de Minas Gerais e do interior de São Paulo em sua maioria. Assim como os imigrantes, tais populações deixam seus lugares de origem e lá parte de sua família, de suas referências culturais e emocionais, parte de seu imaginário. Veio seu corpo, vieram suas mãos – a memória e o coração ficaram enterrados onde estavam suas raízes. É certo que buscam melhores condições de vida e assumem o ABC como seu novo lar, fazendo-o o que é hoje, mas por muito tempo ele permanece como lugar de passagem, lugar provisório em que se trabalha para juntar dinheiro e depois voltar – o que de fato aconteceu e ainda acontece com milhares de migrantes. Nesse contexto, muitas mulheres ocupam postos de trabalho na indústria, o que se intensifica ao longo das décadas seguintes. Nas famílias em que o homem é o provedor, cabe à dona de casa – definida como “do lar” no campo da profissão – os cuidados domésticos gerais, a educação e a saúde das crianças.

A demanda por escolas aumenta e os migrantes podem realizar um de seus sonhos: ver os filhos e as filhas estudarem a fim de se dedicarem a profissões ditas “limpas”, profissões do pensamento tais como secretárias, contadores, auxiliares administrativos, projetistas, professoras, administradores e assim por diante. Ocupações em que não se sujem de graxa as mãos ou o macacão do uniforme. No final dos anos 1960 é instituído em nível nacional o MOBRAL – Movimento Brasileiro de Alfabetização – calcado no Método Paulo Freire de alfabetização de adolescentes e adultos. Assim, durante quase duas décadas, milhares de analfabetos passam a frequentar as salas de aula e adquirir competências de leitura e de escrita. Dado o acesso ao conhecimento, muitas mulheres podem ter contato com a literatura e usar a escrita com maior frequência. É importante lembrar os movimentos sociais e o movimento feminista que acenavam no horizonte. Durante os anos 1960 e 70, durante a ditadura civil-militar, o ABC é palco de militância e de intensa luta operária. As Sociedades Amigos de Bairro e as Comunidades Eclesiais de Base desempenham importante papel na formação de um olhar crítico sobre o momento histórico e no fomento a ações efetivas para a inclusão social e as transformações de que a região necessitava, tanto em nível de infraestrutura quanto de articulação e representação política.  Programas femininos na televisão, como o de Xênia Bier, confrontam os padrões do patriarcado e estimulam as mulheres em vários aspectos – o orgasmo, os métodos contraceptivos e o aborto; o desquite e o divórcio, por exemplo, são discutidos diariamente no horário vespertino. Se uma revolução feminista não aconteceu entre as mulheres daquela geração, é certo que tais discussões interferiram no modo como as filhas foram educadas. E nós, que ora escrevemos e lemos esses textos em 2019, somos provavelmente as filhas e netas daquelas mulheres.

Dos anos 1970 em diante podemos pensar em uma escrita feminina na região do ABC Paulista. Com forte influência da contracultura, diversas manifestações tornam possível o exercício literário para as jovens: é  estimulada a nível mundial a troca de cartas e de cartões postais – há sessões dedicadas a isso nas revistas infanto-juvenis – , os diários pessoais voltam a fazer parte do cotidiano adolescente e os clubes de leitura e de venda de livros multiplicam-se. A poesia alternativa escapa às editoras e ganha as ruas sob a forma de panfletos mimeografados. O jornal alternativo “A Cigarra”, criado em 1982 por Jurema Barreto de Souza e Terezinha Savio, alunas da Fundação Santo André, é um exemplo, assim como o coletivo Poetas Independentes do ABC e o Grupo Livrespaço de Poesia, criado em 1983 e que conta com textos de Dalila Teles Veras, Jurema Barreto de Souza, Katsuko Shishido, Rosana Chrispim, Tônia Ferr, entre outros poetas.

Na mesma década e na seguinte, o teatro amador ganha força nas associações de bairro, nos clubes e nas escolas. A criação coletiva permite que se abra mão de uma peça já pronta em nome de um texto que traduza os anseios do coletivo, o que permite que mais mulheres assumam a dramaturgia. Os festivais de teatro amador pelo estado de São Paulo estimulam a troca artística entre os amadores e fortalece ainda mais o movimento. O fazer teatral perde um pouco do preconceito que o envolve na medida em que mais e mais mulheres tomam parte dele e podem obter capacitação como atrizes ou professoras na Fundação das Artes de São Caetano do Sul e na FATEA (Faculdades Integradas Teresa d’Ávila, futura FAINC). Sem a possibilidade de uma formação em dramaturgia na região, os pretensos dramaturgos e dramaturgas são autodidatas ou buscam sua formação em São Paulo. Somente no final dos anos 1980, com a criação da Escola Livre de Teatro de Santo André, a região pode contar com um curso voltado à dramaturgia e que, depois de um hiato de alguns anos, torna-se o principal responsável pela formação dramatúrgica no ABC, possibilitando a formação continuada de profissionais atuantes na área estética ou pedagógica. Solange Dias, aluna da primeira turma de dramaturgia da ELT, coordena por vários anos o curso nos anos 2010. Tais conhecimentos se multiplicam em cursos e oficinas regionais e em cursos de graduação e pós-graduação. Pode-se afirmar que o NED - Núcleo de Experimentos em Dramaturgia é fruto de todas essas experiências, na medida em que suas idealizadoras participaram de cursos na ELT, em oficinas livres em São Bernardo do Campo e na FAINC de Santo André. E é nesse momento que se pode falar de uma atuação mais significativa das mulheres na criação dramatúrgica regional.

O NED representa um passo além na medida em que se propõe a ser um coletivo de mulheres que pensa, faz e fomenta a dramaturgia em seu alcance estético e político. Seu projeto Laboratório de Dramaturgia para Mulheres, transcorrido em 2019, é prova disso. Como sabemos, o ano de 2019 ficará marcado em nossa História pela ascensão de uma direita retrógrada ao poder. Grande parcela da sociedade alinhou-se a um governo que desde a campanha eleitoral demonstrava maior apreço às armas que à educação e cujas premissas supunham a censura, os cortes de verba e, consequentemente, o retraimento das artes cênicas e visuais. Mas não só, ameaçados também estão os direitos constituídos, o meio ambiente, as lutas igualitárias, a população indígenas, as conquistas com relação aos direitos LGBTQI+ e tantos outros. Igualmente lamentável foi a nomeação do dramaturgo e diretor Roberto Alvim para o comando do Centro de Artes Cênicas da FUNARTE – Fundação Nacional de Artes –, pois implica num projeto conservador e revisionista. No que diz respeito às mulheres, a eleição do ex-coronel Jair Messias Bolsonaro para a Presidência da República resultou em uma reforma ministerial que extinguiu a pasta da Cultura, mas criou uma outra denominada Ministério da Mulher e da Família, sob o comando da advogada e pastora evangélica Damares Alves, acusada de sequestrar uma criança indígena para adoção. Tal ministério representa o que há de mais ultrapassado e preconceituoso com relação ao debate sobre gêneros, com relação à educação sexual e mesmo à família.

No atual contexto, o Laboratório de Dramaturgia para Mulheres constituiu-se uma ação concreta e corajosa. Com suas propostas de reflexão sobre o feminino e sobre a mulher na literatura e na sociedade, bem como de estudo das formas contemporâneas de teatro e de dramaturgia, o NED instituiu um espaço de debates que se estendeu para além da cena e alcançou uma reflexão regional sobre teatro, arte e sociedade.

Não que a rotina atual da mulher seja mais favorável à criação, pois continuamos a exercer muitas funções. O que nos diferencia de nossas antecessoras é a Consciência. Ela é, por vezes, fonte de muitas dores, mas é também a nossa salvação: podemos escolher. Podemos deixar o trabalho de lado algumas vezes, sem culpa. Podemos nos conectar em rede com outras mulheres, podemos contar com um pouco mais de apoio. Isso nos diferencia. Isso nos engrandece. Isso nos favorece. A casa continua necessitando de organização, precisamos ainda comer e nos vestir, precisamos de dinheiro para a educação e para saúde e assim por diante. Muitas demandas femininas continuam necessárias. O que podemos com pouco mais de folga – pelo menos em certas camadas da população – é contar com a ajuda dos parceiros ou parceiras e, quem sabe, educar filhos e filhas para a vida em comunidade e não para serem servidos e servidas. Se abrimos em nossa rotina um espaço, por menor que seja, para o exercício da ficção é muitas vezes em detrimento da limpeza da casa, dos cuidados domésticos e do ideal da dona de casa perfeita, da mãe perfeita – padrões que a sociedade ainda nos impõe e parece que com a ascensão da direita voltam com toda força. Mas sabemos que isso é apenas temporário. Existe uma força maior, um movimento maior que ninguém poderá impedir. Talvez seja este o nosso papel. Se nossos antepassados se sacrificaram para que pudéssemos exercer funções e atividades do pensamento, talvez a nossa missão com relação às futuras gerações seja de assegurar que esse pensamento seja livre e um direito inalienável. Que nossa Dramaturgia nos represente para além de nós.

Adélia Nicolete
Nascida no ABC, filha de migrantes do interior de São Paulo, estudante de escola pública. Participou do teatro estudantil e amador da região durante os anos 1980 e 1990. Moradora de Ribeirão Pires há 20 anos, é dramaturga, escritora e condutora de Ateliês de Escrita. Filha, esposa, mãe, avó, tia, amiga. Em rede.



quarta-feira, 11 de março de 2020

Ateliê de Dramaturgia do Descarte – Sítio Cultural Alsácia


Iniciei a pesquisa do que denominei Dramaturgia do Descarte em 2015, a partir da interlocução entre dramaturgia e artes plásticas. A princípio, chamou-me a atenção o descarte em grandes dimensões e sua apropriação “dramática” por artistas visuais, como pode ser conferido nessa postagem. A seguir, a exposição “When the courtain never comes down”, no American Folk Art Museum de Nova York, levou-me a refletir sobre a apropriação e a reconfiguração de descartes menores e seus equivalentes numa dramaturgia já constituída, algo que pode ser visto nas postagens sobre os artistas RockNRoll,  Eijiró Miyama e Papa Palmerino, sempre associados a autoras/es de teatro.


A ideia principal é que, assim como a sociedade do consumo gera um excesso de materiais descartados a serem reapropriados e ressignificados por artistas plásticos, os inúmeros descartes da sociedade da informação geram literatura e dramaturgia.


Participantes durante intercâmbio de materiais 

Entre setembro e outubro de 2019 conduzi um Ateliê de Dramaturgia do Descarte no Sítio Cultural Alsácia, em Ribeirão Pires. Foram três encontros onde pudemos discutir textos teóricos, ler e analisar textos cuja poética vale-se do arranjo de descartes e, por fim, coletar materiais de fontes diversas e arriscar uma proposta formal com eles.

Dentre a referências teóricas, tomamos da modernidade pelo olhar de Walter Benjamin a ideia do historiador como “trapeiro” – aquele que recolhe e junta os retalhos/acontecimentos e compõe com eles a História. De Jean-Pierre Sarrazac tomamos o conceito de autor-rapsodo e os estudos de coralidade e de multiplicidade de vozes no teatro, bem como os recursos compositivos da dramaturgia contemporânea.

Usamos a técnica de world café para a partilha de materiais



A fruição e o estudo de poéticas do descarte contou com exemplos recolhidos em Arthur Azevedo, Ana Cristina César, Clarice Lispector, Bob Perelman, Lívia García-Roza, Tarso de Melo e Manoel de Barros. Na dramaturgia, peças de Peter Handke, Heiner Müller, Ana Luísa Santos e Victor Nóvoa.

Participantes do Ateliê

Foi proposto como atividade prática que cada participante buscasse no dia-a-dia descartes de seu interesse nas mais diversas fontes – redes sociais em geral, transporte coletivo, aplicativos de mensagens, buscas na internet etc – e que montasse um dossiê.


O material seria partilhado em grupo e se tornaria de uso comum. A partir de certos critérios de seleção, ele seria depurado e resultaria em um projeto coletivo de dramaturgia cujos recursos poderiam ser, entre ouros, colagem e montagem, justaposição ou sobreposição, fragmentação, repetição, simultaneidade, sequenciamento.

Durante o Ateliê, compartilhei com o grupo o processo de escrita da peça "Futebol Arte", de minha autoria, cuja premissa é a dramaturgia com descartes pré e pós-eleições de 2018. Na próxima postagem do blog, apresentarei o memorial descritivo da peça, que terá leitura cênica realizada no Sesc São Caetano em 27 de março.

* * *

Agradeço a William Costa Lima e Marc Strasser por acolherem o Ateliê no Sítio mais uma vez e a todes participantes pelas trocas, fundamentais para o desenvolvimento da pesquisa. 

Adélia Nicolete




segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Ateliê de Iniciação à Dramaturgia - FUNARTE SP e Sítio Cultural Alsácia




Ateliê de Iniciação à Dramaturgia - Sítio Cultural Alsácia
Parte do grupo
(Foto: William Costa Lima)


A iniciação de artistas ou estudantes à escrita e, mais especificamente, à Dramaturgia é uma paixão que me acompanha há mais de vinte anos. Em meados de março, recebi um convite da Funarte-SP para desenvolver esse tipo de trabalho em Ribeirão Pires, cidade onde moro. 

O espaço escolhido foi o Sítio Cultural Alsácia, administrado por William Costa Lima e Marc Strasser que, juntos, mantêm um grupo, o Teatro de Torneado, e a Escola Atemporal de Artes, além de oferecer cursos e oficinas os mais diversos. Um local privilegiado em todos os sentidos.

Casa principal - espaço para os cursos
(Foto: Adélia Nicolete)

Primeiro encontro do Ateliê
(Foto: Adélia Nicolete)




Foram cinco encontros, sempre às segundas-feiras. A proposta foi a criação de situações de escrita, reescrita e exercícios de cena, além de estudos teóricos e fruição de literatura dramática. O norteador de todo o processo foi a ideia de dramaturgia como tessitura de ações nos mais diferentes âmbitos da cena e a turma era composta por estudantes e professorxs de Artes Cênicas, músicos, atrizes e atores, contadorxs de histórias, artistas plásticxs, etc.



Processo de escrita do primeiro texto
Dani, William, Cri, Alê e Marc com Genet no colo
(Foto: Adélia Nicolete)


Dani e Karina trocam impressões sobre seus textos
(Foto: Adélia Nicolete)











Matheus e Thiago trocam impressões
sobre seus textos
(Foto: Adélia Nicolete)




















Seria um desperdício não usufruir do contato com a natureza. Assim, a área externa à sala de escrita foi percorrida para o estudo de dramaturgia do espaço. Na composição da rapsódia final, tais cenários poderiam abrigar as apresentações. 


Alameda central
(Foto: Adélia Nicolete)



Teatro ao ar livre
(Foto: Adélia Nicolete)


Bambuzais
(Foto: Adélia Nicolete)


(Foto: Adélia Nicolete)

Área do poço
(Foto: Adélia Nicolete)


(Foto: Adélia Nicolete)


(Foto: Adélia Nicolete)










A tragédia “Antígona” foi foi uma das peças lidas e analisadas e gerou três escrituras individuais, colocadas em jogo no teatro municipal da cidade, em 19 de agosto – tarde em que a fumaça das queimadas escureceu São Paulo.

(Foto: Adélia Nicolete)


(Foto: Adélia Nicolete)




(Foto: Adélia Nicolete)



Três da tarde com as cores do anoitecer
(Foto: Adélia Nicolete)

Foi proposta a composição de uma rapsódia com os textos escritos, com as gravações realizadas em áudio, trechos significativos das peças lidas e outros materiais à escolha de cada equipe. Sugeriu-se que a função dramaturgia fosse assumida por todes, mas que houvesse responsabilidades criativas nas áreas de direção, sonoridades, visualidades e dramaturgia.

Ao final, seriam apresentados os projetos – discussão dos procedimentos envolvidos em cada uma das rapsódias – seguidos ou não da apresentação de cenas. 


Grupo discute a rapsódia
(Foto: Adélia Nicolete)

Grupo discute a rapsódia
(Foto: Adélia Nicolete)

Grupo ensaia(Foto: Adélia Nicolete)

Apresentação(Foto: Adélia Nicolete)

Apresentação
(Foto: Adélia Nicolete)

Apresentação
(Foto: Adélia Nicolete)


Ao final de cinco encontros, somamos discussões e práticas, abordamos a técnica dramatúrgica, fruímos diferentes tipos de textos, analisamos personagens e estruturas. Compartilhamos reflexões acerca do ofício da dramaturgia e do quanto dramaturgas e dramaturgos podem aperfeiçoar o seu trabalho no contato com a cena. 

Haveria muito ainda que dizer e muitas fotos mais a publicar. Guardarei comigo cada instante vivido junto à turma – risos na intimidade conquistada dia a dia; assombros diante das próprias descobertas e criações; cumplicidade e camaradagem; coragem para lançar-se ao risco; leveza para rir de si mesmo/a; alinhamento ideológico, alimento partilhado, ar puro, verde. Encontros da melhor qualidade. Obrigada a todes. 
Até a próxima!


Glória e sua Antígona - sem filtro
(Foto: Adélia Nicolete)


Adélia Nicolete


domingo, 25 de agosto de 2019

Ateliê de Dramaturgia - Núcleo de Dramaturgia do Sesi - Curitiba


Parte do grupo e da equipe do Núcleo de Dramaturgia do SESI - Curitiba
(Foto: Lucca)


Há algum tempo adoto nos Ateliês que conduzo a ideia de Dramaturgia não apenas como produção de texto enunciado, mas como produção de cena. São experiências que visam à quebra de paradigmas, principalmente para o/a próprio/a dramaturgo/a. Alargar os limites de nossa atuação, ainda que seja para continuarmos a assumir a escrita de textos a serem enunciados.

No Ateliê de Dramaturgia do SESC no Recife, há dois anos, por exemplo, foram criados três projetos de Dramaturgia e Memória. Cada grupo fez um pitch* do que pretendia e foi questionado pelos demais, a fim de aprimorar a ideia. O tema foi o Mercado de São José, mas o exercício poderia ser aplicado ao desenvolvimento de quaisquer projetos de dramaturgia. Confiram na postagem Mercado de São José - disputa simbólica no velho Recife.

Nos dias 23 e 24 de agosto estive em Curitiba junto ao Núcleo de Dramaturgia do SESI, coordenado por Lígia Souza Oliveira e Greice Barros. O grupo tem 12 participantes e as atividades já estão em andamento – palestras, oficinas, vivências e acompanhamento de projetos. Tive total liberdade de ação e apenas dois delimitadores: carga horária de nove horas e a América Latina como norteador. Segue uma brevíssima descrição do processo.

Tecelagem andina
 processos de decolonialidade, pertecimento e geração de renda
na região de Cusco - Peru

Os Ateliês que proponho nasceram da conjunção entre Artes Plásticas e Dramaturgia, por isso decidi pelo diálogo com artistas latino-americanos, especialmente por aqueles que estivessem à margem das galerias e museus, fora do mercado. Dentre tantas possibilidades, a escolha recaiu sobre o Centro de Textiles Tradicionales del Cusco, no Peru. É evidente a analogia entre a tecelagem e a tessitura de ações que, no dizer de Eugenio Barba, define dramaturgia.

Do ponto de vista técnico, da tecelagem interessava-nos a compreensão de urdidura e de trama e sua relação com a escrita. Do ponto de vista político, o movimento realizado por um grupo de tecelãs e tecelãos peruanes em busca da recuperação de suas tradições e, consequentemente, de sua identidade. “Quem somos nós?” teria sido a pergunta geradora daquele movimento e também do nosso, agora, na construção de uma cena. 

Por que a tecelagem cusquenha e não outra? Por um dado peculiar à sua herança cultural: moças e moços em idade de noivar, encarregam-se de tecer algumas peças a fim de exibi-las e conquistar um/a parceire. Em festas comunitárias, “performam” suas habilidades técnicas e estéticas garantindo, assim, a perpetuação da atividade têxtil e da própria coletividade. Seduzir não seria também o nosso objetivo quando tecemos e performamos nossas escritas em cena?



Grupo pesquisa ações físicas



















A ideia de buscar “quem somos nós” começou com a pesquisa de ações físicas – o primeiro fio da tessitura cênica. Nela, cada participante foi convidade a identificar seus verbos cotidianos e estabelecer uma trajetória física com eles. Na sequência,  elementos relativos a pensar, sentir e querer foram levantados, de modo a constituir uma série de fios a serem tramados na urdidura da escrita. A eles foram acrescidos outros mais, da esfera da própria linguagem.


Janaína a tramar os fios do texto



Beatriz, Val e Gessé a tecer seus textos




Izabela em escrita
















Sandoval em escrita


A partir desse levantamento e de discussões a respeito, um pequeno texto foi escrito e submetido a um/a colega com vistas à reescrita. 



Alan e Carlos em audição


Duplas em audição - à frente, Janaína e Juliana


Duplas em audição


Outro fio - o do texto enunciado - foi criado: na grande urdidura da cena, tramamos também o fio da voz, na medida em que leram cada um/a o texto de outrem, depois de analisado e ensaiado. Dramaturgxs intérpretes. Restava-nos compor a rapsódia.


Fernando ensaia texto
de Val
Val ensaia texto de Sandoval
Gessé ensaia texto de Alan

À dramaturgia foram acrescidos um figurino e a trilha sonora. Ao final da experiência de escrita/tessitura cênica, corpo, texto enunciado, voz, figurino, sonoridade e espaço constituíram “Quem somos nós”. Em menos de nove horas formatamos  um espetáculo ou performance de 45 minutos num processo prazeroso e carregado de afeto, com a participação de vários não-atores a se aventurarem na cena. Com apenas alguns ensaios mais, teríamos um trabalho digno de exibição ao público e ele seria seduzido pelo que nos dedicamos a tecer.

Predisposição ao risco é essencial à Arte e não faltou ao grupo. Trouxe para casa a alegria de mais um Encontro memorável propiciado pelo Teatro. Só quem já fez é que sabe! Teatro faz bem à alma! 

Lígia, Karina e Lucca - equipe do Núcleo De Dramaturgia do SESI

Agradeço Lígia e Greice pelo convite e recepção, Karina e Lucca pelo suporte e presença. Um abraço apertado em cada participante. Aquelas vozes que ressoaram no palco às escuras moveram mundos.

Até a próxima.

Adélia Nicolete


* Pitch, um termo inglês, é a apresentação de uma ideia ou projeto a fim de convencer o público de suas qualidades.