quinta-feira, 9 de abril de 2026

MEXEU COM UMA, MEXEU COM TODAS - a denúncia poética na Cartografia das Mulheres Feridas, tetralogia literária de Claudia Jordão


“Uma nesga do passado abre uma clareira na memória supostamente soterrada. Estremeço. O palimpsesto inesperado me leva a concordar com o poeta: o esquecimento está cheio de memória."

Dalila Teles Veras



Em janeiro de 2023, a escritora Claudia Jordão realizou uma pesquisa a fim de que mulheres pudessem relatar situações de violência sexual. Recebi o formulário, encaminhei pra várias pessoas, pensei, repensei e decidi não responder. Pra que mexer com o que estava quieto? Vivências soterradas, camada sobre camada, ao longo dos anos. Melhor deixar onde estavam. Escavar aquele terreno seria ressentir incômodos, náuseas, dores, medos. Um pesadelo. Perto de cento e cinquenta formulários retornaram a ela preenchidos com relatos de agressões as mais diversas. 

Não enviei o meu. Em vão. Semanas depois, a violência chegou bem perto. Uma grande amiga pediu o divórcio após 25 anos de agressões e a resposta do ex-marido foi o espancamento. Ouvir sua mensagem pelo whatsapp, perceber seu desespero, imaginar as marcas em seu corpo, tudo isso me abalou profundamente. As memórias soterradas voltaram à superfície. Ressenti cada uma, irmanada à amiga. Estremeci. Foi feito boletim de ocorrência, exames de corpo de delito, foi concedida a medida protetiva. O agressor nunca foi preso. Segue livre como milhares de outros. 

Recentemente ficamos sabendo, por meio de storys de uma amiga nas redes sociais, que o ex-companheiro de sua sobrinha de 22 anos invadira a loja em que ela trabalhava e ali mesmo, diante de funcionárias  e clientes, perpetrou, a facadas, mais um feminicídio, que atinge hoje a marca de quatro por dia no Brasil. Ainda que haja subnotificação, as redes sociais, o noticiário despejam diariamente diante de nossos olhos e ouvidos os crimes cometidos contra a mulher. Estremecemos. Mexeu com uma, mexeu com todas. Doemos todas, morremos todas um pouco. 

Se nesse momento eu pedisse que todas as mulheres que tivessem sofrido violência de gênero ao menos uma vez na vida levantassem a mão, não ficaria uma sequer de mãos abaixadas. E se ficasse, provavelmente seria por não identificar como agressão toda uma série de situações já naturalizadas em casa, na escola, no trabalho, em consultórios médicos ou dentários, em hospitais, cinemas, trens, ônibus, táxis, por homens desconhecidos ou conhecidos. Nem todo homem, mas sempre um homem. De quantos formulários Claudia precisaria?! Quantos?! 





“Elas, mulheres”, o livro mais recente de Claudia Jordão, publicado pela Alpharrabio Edições, integra a tetralogia "Cartografia das Mulheres Feridas", que teve início com “Mulheres que me habitam" (já em segunda edição), e seguido por “Eu, tu elas”, “Elas, meninas”. Todos nascidos daqueles formulários e de pesquisas realizadas por Claudia, de experiências compartilhadas com ela de modo público ou privado - material trabalhado literariamente com o respeito, a delicadeza e o talento necessários para abordar temas tão candentes.

O primeiro livro, "Mulheres que me habitam", nascido da experiência pessoal e familiar da autora, é formado por três textos dramatúrgicos elaborados a partir da violência doméstica caracterizada pelo abuso infantil, relacionamento abusivo e feminicídio. Em "Eu, tu, elas", a autora desenvolve narrativas ligadas ao abuso sexual na infância e suas consequências ao longo da existência das mulheres. No terceiro livro, "Elas, meninas", Claudia retoma o tema da violência sexual na infância e desenvolve 14 contos, baseados em mais de 30 dos formulários recebidos. Finalmente, a tetralogia é formada com "Elas, mulheres", que reúne 25 contos em torno da violência doméstica, elaborados graças a histórias recolhidas em depoimentos, rodas de conversa e relatos lidos ou escutados ao longo de toda a pesquisa.

Os quatro livros são fruto do empenho de uma artista em constante aperfeiçoamento e com o foco no coletivo - tanto do ponto de vista das publicações quanto das trocas realizadas em escolas, grupos de apoio e outros espaços e também do estímulo à escrita de si em cursos e oficinas para mulheres. Não sem motivo obteve subsídios públicos para o seu desenvolvimento.

Trata-se de um mapeamento poético do nosso momento histórico, uma espécie de inventário daquilo que nos estremece dia após dia, há séculos, sob o patriarcado. Traduções sensíveis das vivências que tentamos manter submersas com as âncoras mais pesadas, e que, no entanto, voltam à superfície a cada relato, a cada imagem, a cada violência que se repete conosco e com nossas iguais. Aqui perto, em outros estados do país, ao redor do mundo. Se juntássemos tudo, poderiam cobrir o planeta. 


SAPATOS EM MARCHA 

Sapatos marcharam do México até a Praça Santa Filomena, ao lado de minha casa. 
Ouvi o tec tec do salto agulha da Verônica e corri para a janela. 
Logo depois, o solado da bota da Jéssica bateu forte. 
O tênis da Amanda mal tocava o chão. 
Os chinelos da dona Francisca avançavam em passos arrastados. 
As sapatilhas da Priscila vinham afiadas. 

 Pelo caminho, outros sapatos somaram-se à marcha. 
Na Guatemala, juntaram-se os tênis de Claudina Velásquez. 
Em El Salvador, o mocassim de salto reto de Karla Turcios. 
Em Honduras, as sandálias de Berta Cáceres. Na Nicarágua, as sapatilhas de Dina Carrion. 
Na Costa Rica, chegou a vez de Eva Morera. Do Panamá, veio Wallen Sandra. 
Da Colômbia, os sapatinhos de Yuliana Samboní. 
Do Equador, o salto quadrado de Maria Belém Bernal. 
Do Peru, as solas manchadas de fuligem de Eyvi Ágreda. 
Da Bolívia, os sapatos de Eslenca Quispe. 

 Ao cruzar a América Latina, a marcha aumentava onze pares por dia, todos os dias. 
Só em solo brasileiro, quatro. Sempre mais quatro. 

 Da janela, vi a Praça Santa Filomena desaparecer sob a imensidão de calçados. 
Estavam espalhados pelas ruas, nas casas vizinhas, nos prédios ao redor, nas calçadas, nas vielas, 
em todos os lugares, até a vista acabar. 
Um mar de sapatos foi se acomodando em filas, abrindo veios pelas ruas. 
Quando dei por mim, tudo estava vermelho em absoluto silêncio, 
e definitivamente vazio. 

 Submersa, senti meus pés nos chinelos. Até quando? 

 Claudia Jordão - “Elas, mulheres”

sexta-feira, 13 de março de 2026

“Ínsulas” - o livro-arquipélago de Dalila Teles Veras



Conheci Dalila Teles Veras no início dos anos 1980. O Grupo Livrespaço de Poesia, do qual ela foi uma das fundadoras, promoveu um concurso junto às escolas da região do ABC paulista e eu, que havia cometido alguns poemas, decidi me inscrever. Quis o destino que meu texto fosse classificado e, então, recebi o certificado de participação em uma exposição de poesias do grupo. Foi a primeira vez que tomei contato com “poetas de verdade”, ao vivo, e guardo vívidas na memória aquelas imagens e impressões. O tempo passou e nos tornamos amigas Dalila e eu. O tal poema desapareceu, bem como todos os demais. Não segui pelo caminho da escrita poética, mas persisti no da leitura. É, portanto, como leitora que proponho esta apreciação de “Ínsulas”, a mais recente publicação de Dalila Teles Veras para a coleção “Círculo de poemas”, da editora Fósforo, coordenada por Tarso de Melo.


“Interesso-me por desembrulhar o artefato”

Uma das expectativas mais intensas para mim é a da chegada de um livro. Contei os dias até que o correio me entregasse a plaquete e eu pudesse tê-la nas mãos, porque é nesse primeiro contato que a leitura começa. O formato menor que o convencional; o laranja vivo da capa; a encadernação sem costura (páginas enfeixadas por um elástico solto) a propor um jogo de armar. E o mistério: um buraco de fechadura onde se entrevê trechos de barco e de água. Apesar da sugestão do título, ainda há silêncio. É ao se desdobrarem as capas que se dá o som inaugural: pequenas ondas atiram-se contra o quebra-mar e, ao apurarmos os ouvidos, gaivotas e andorinhas confabulam estridentes ao longe.

Para quem conhece a biografia da autora, os dois registros fotográficos feitos por Luzia Maninha compõem de imediato as primeiras camadas de sentido. O artefato é texto. O artefato é uma ilha.


“Sair da ilha para outra ilha”

O primeiro contato com “Ínsulas”, fez-me lembrar da poesia marginal dos anos 1970 e 1980. Sob a ditadura empresarial-militar, havia uma urgência em circular ideias, gritos, manifestos, sem a intermediação da imprensa ou das editoras. Poetas decidiam sobre conteúdo e forma, encontravam meios acessíveis de reproduzir seus textos e saíam a campo para a distribuição direta ao público - autores-produtores, como idealizou o filósofo Walter Benjamin. Assim, artesania e ativismo compunham a política daquelas publicações, poesias mimeografadas e livretos (plaquetes) entre elas, a democratizar a arte e a contaminar quem dela se aproximasse com o vírus da insurgência.

Embora publicada por uma editora quatro ou cinco décadas depois, a plaquete de Dalila Teles Veras conserva boa parte do espírito daquela época. Além do formato pequeno e leve e de um vestígio de artesania, há uma urgência em cada poema, uma ideia a ser disseminada, uma proposta de reflexão. Tanto que ocupam solitariamente cada página, ilhas a constituir o arquipélago poético indicado pelo título.


“As singularidades imanentes do próprio microcosmo”

Tive com “Ínsulas” três experiências básicas como leitora-viajante: mergulho, voo e contemplação. Em cada uma delas, uma poeta portuguesa a guiar-me na aventura: Irene Lucília Andrade, Ana Hatherly e Maria Gabriela Llansol.

No primeiro trecho, “Ínsulas”, o contato puro e simples com a superfície das ilhas não foi suficiente. Seus mistérios pediam que eu descobrisse o que se escondia sob as águas. Por isso, o vazio deixado sob cada poema representou para mim um espaço-tempo para mergulhar uma, duas, três vezes, cada vez mais fundo, trazendo, ao voltar, uma nova e mais ampla proposta de sentido, sem nunca esgotar-se, porém. Afinal, “Tudo o que sobrevive numa ilha é mistério e silêncio, no poema também.”

Nas “Infusões”, segundo trecho da viagem, o espaço em branco das páginas permitiu-me sair do texto e voar ao encontro das mulheres anfíbias, engenheiras, ambientalistas, ambivalentes, ambidestras que conheço, todas “magas, estrelas-guias de si próprias”, e oferecer-lhes a beberagem poética para que se fortaleçam e se curem de tantos males que nos abatem. Viajei nas imagens criadas pela poeta. Sonhei com outras e melhores ilhas.

Finalmente, no trecho “Faces, fases”, não há em que mergulhar nem para onde ir. Coloco-me no espaço vazio e o que se pede é reverência e contemplação. Leio-escuto a Mulher Vivida, a Poeta e seus processos, “ostra agarrada ao tempo”. Agarro-me, pois, às palavras de Dalila neste livro-arquipélago só possível à beira dos oitenta anos. Resíduos de aluvião de exílio, trabalhos, projetos, relações, lutos, amores e dores, revoluções vitoriosas e sufocadas, golpes, epidemias, pandemias, sonhos, apostas, bandeiras, levantes, livros, livros, livros, livros.


“Pergunto aos comensais sobre as possibilidades do real ser contaminado pelo virtual.”

Fecho a plaquete, desembarco, mas a leitura não termina. Segue noite adentro, vida afora.

O livro-ilha é denso, pesa. Volto a ele várias vezes e há sempre o que se descobrir, como se as frases trocassem de lugar entre si. Ou será eu que volto diferente a cada nova investida? Não há como voltar a ser o que se era depois de visitar a ilha.

É noite. Silenciaram as gaivotas, as andorinhas já se recolheram. Resta o mar, incessante, a quebrar nas margens.

Em algumas horas o sol há de alaranjar novamente o horizonte.


***

Adélia Nicolete - março 2026


“Ínsulas”
Dalila Teles Veras
Editora Fósforo, 2025
Coleção “Círculo de poemas”