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sexta-feira, 28 de setembro de 2018

"Se essa rua fosse minha" - questões de gênero e abuso no teatro para a infância





Será que existe mesmo brincadeira só de menina ou de menino? E profissão de homem e de mulher tem muita diferença? Em casa, quem sai para trabalhar fora e quem faz o trabalho doméstico? Tais perguntas povoam cada dia mais o nosso cotidiano, assim como outras do tipo Quem pode tocar o corpo de uma criança? A quem ela pode recorrer no caso de se sentir desrespeitada?

No ano de 2007 fui convidada pela dramaturga e diretora Solange Dias a integrar, junto ao Teatro da Conspiração, um projeto vinculado à Secretaria de Saúde do município de Diadema, na Grande São Paulo. O objetivo era abordar alguns temas por meio do teatro e, com isso, despertar o interesse da população para discussões e ações a curto e médio prazo. Um dos temas era o abuso infantil, bastante presente naquela cidade. A equipe pretendia que, ao assistirem a encenação e depois conversarem a respeito com professoras e professores, as crianças encontrassem neles uma figura de apoio e referência.

No texto escrito por mim para fins didáticos e levado à cena pelo Teatro da Conspiração naquele mesmo ano, três crianças passam a tarde em brincadeiras: oportunidade para que venham à tona preconceitos, questões de gênero e, muito sutilmente, o abuso infantil – sua ocorrência, as tentativas de silenciamento e as opções de denúncia. De acordo com o perfil do grupo, os papeis podem ser desdobrados ou, em certos casos, interpretados por várias atrizes e atores, por alunas e alunos, entre outras adequações/apropriações. Penso que o mais importante são as questões geradas no processo de montagem e, sem dúvida, com o público após as apresentações.

“Se essa rua fosse minha” encontra-se disponível nesse link para download gratuito. Caso haja interesse na encenação, basta entrar em contato com a autora. Os direitos estão liberados para apresentações em escolas ou quaisquer propostas sem fins lucrativos.

Adélia Nicolete

domingo, 18 de junho de 2017

Processo colaborativo - I Colóquio Trupé de Pesquisa




Adélia Nicolete, Débora Brenga e Marcelo Lazzaratto
I Colóquio Trupé de Pesquisa - Sesc Sorocaba - junho de 2016
(Foto: Adriano Sobral)



A¨retomada dos trabalhos junto ao Núcleo de Dramaturgia da Trupé de Teatro de Sorocaba, suscita o registro de mais uma reflexão compartilhada no I Colóquio Trupé de Pesquisa realizado há cerca de um ano. O primeiro registro, “O centésimo espetáculo ou O teatro contemporâneo à luz da ressonância mórfica”, pode ser lido aquiNa postagem de hoje, minha intenção é abordar o processo colaborativo numa perspectiva política.

* * *

Quando comecei a fazer teatro, no final dos anos 1970, o teatro político há pouco chegara à região do ABC. Os grupos operários, em especial o Grupo Forja de São Bernardo do Campo, sob a direção de Tin Urbinatti, propunham um novo modo de se pensar e de se construir a cena, intimamente relacionado à oposição ao regime ditatorial do período.

As Comunidades Eclesiais de Base ligadas à ala progressista da igreja católica, por sua vez, fomentavam nos centros comunitários uma série de dinâmicas com vistas à discussão e à conscientização não só dos problemas locais, como também da esfera nacional e internacional. O teatro, especialmente aquele ligado à juventude, era um dos recursos mais eficientes.

Não foram poucos os grupos amadores que nasceram desses dois contextos e seguiram, com maior ou menor intensidade, o mesmo ideário. Participantes ou egressos desses grupos, muitas vezes, atuavam nas escolas como diretores ou atores, ocasião em que disseminavam não só a reflexão e a ação teatral como também materiais teóricos e dramaturgia.

Desse modo, em pouco tempo praticamente todos discutiam, encenavam ou ao menos tinham conhecimento da existência de Brecht, Piscator, Teatro de Arena e Oficina, Boal, Guarnieri, Vianinha, Buenaventura, Dragún, em sua maioria através de textos mimeografados.


Enrique Buenaventura (1925-2003)
Diretor, dramaturgo, autor colombiano - referência latino-americana
para os processo de criação coletiva


A criação coletiva dava seus primeiros passos numa região em que o teatro amador fora sedimentado em bases intuitivas e, portanto, carecia de técnica suficiente para uma ação propositiva dos atores. Por isso, embora houvesse intenções políticas libertárias, interesse genuíno por textos de elevado teor revolucionário, bem como o desejo de democratizar as discussões por meio dos famigerados bate-papos ao final de cada sessão, a maioria dos trabalhos seguia o padrão da “montagem” tradicional.

Em outras palavras, embora o objetivo fosse a conscientização – de quem faz e de quem frui teatro – o modo de produção era alienado: escolhia-se o texto pelo seu conteúdo, mas na hora de encená-lo, distribuíam-se os papeis por questões práticas, decorava-se o texto, marcava-se a cena e, em pouquíssimo tempo, apresentava-se. A ideia de “linha de montagem” parece adequada para analisar o procedimento: cada um encarregava-se de uma parte do processo, isentando-se da experiência como um todo e, consequentemente, da possibilidade de desenvolver autonomia, ainda que relativa.


Elenco e diretor do espetáculo "Os da mesa 10", de Osvaldo Dragún
Peça subversiva levada à cena em modo alienado de produção
1980


De certa forma, ainda hoje muitos grupos reproduzem modos de criação baseados na autoridade do dramaturgo/diretor; no tratamento diferenciado do elenco, segundo o tempo de grupo ou o status na companhia; na memorização de texto, bem como nos ensaios de marcação e na estreia a curto prazo, mesmo que o conteúdo proposto seja a crítica de um estado de coisas que precisa de urgente revisão.

Herdeiro da criação coletiva e nascido na efervescência dos teatros de grupo dos anos 1990, o processo colaborativo tende a recuperar um modo de fazer mais próximo de uma experiência ao mesmo tempo estética e política. Seu contexto gerador foi o neoliberalismo e a noção de mercado que se espraiou no terreno da cultura e que veio a suscitar um sem número de coletivos criadores, todos à margem da produção convencional em teatro, música, artes plásticas, cinema, literatura, etc. Tais coletivos tinham por meta abarcar todas as esferas da criação, desde a viabilização econômica cooperativada até a divulgação e a comercialização das obras, numa relação direta com o público, sem a mediação de produtores, agentes, curadores, marchands, distribuidores, etc. 

Além do mais, a ideia de um mercado da cultura tenderia a condicionar as obras aos interesses dos patrocinadores, o que não é inédito, vide o mecenato, por exemplo, mas não pode se tornar uma regra. Por isso, naquele mesmo contexto, o Movimento Arte Contra a Barbárie foi de importância fundamental para o estabelecimento de leis de fomento a fim de assegurar a produção de trabalhos dos mais variados perfis, muitos deles, dificilmente “patrocináveis” e criados em uma outra lógica que não a dos prazos exíguos.


A horizontalização de funções permite que a ideia de hierarquia seja substituída pela de responsabilidade criativa, isto é, cada participante, embora interfira criativamente em todas as áreas, responde e assina pela sua. Os conflitos daí resultantes visam à busca de soluções cujo foco é a cena e não a satisfação de uma ou de outra subjetividade. 


"Geração 80"
Teatro da Conspiração - Santo André - 2002
Criação em processo colaborativo


A experiência em diversas instâncias e funções, além de proporcionar uma aquisição de autonomia criativa, garante o exercício permanente da alteridade – cada vez mais necessária em tempos de intensa individualização.

Mesmo quando se opera a partir de um texto teatral ou narrativo de referência, ele é o disparador das pesquisas e das criações e não o centro, como nas encenações em molde tradicional. Esse texto é experimentado, questionado, partido, invertido, complementado ou mesmo substituído por outros textos sejam eles verbais, sejam corporais, vocais, musicais, pictóricos e assim por diante. Ou seja, o princípio da fidelidade, que entende a peça teatral como o ponto para onde convergem todos os esforços, é substituído pelo princípio da equivalência, da proposição de outros textos, seja em paralelo seja em disputa.


Atores e atrizes da Trupé de Teatro de Sorocaba
ensaio do espetáculo "Das guerras de um velho baixo caos" - 2015
Criação em processo colaborativo
(Foto: Adriano Sobral)


Quando o foco é a montagem de uma peça, os esforços se dirigem a ela. Quando o foco é o processo, como no caso do processo colaborativo, constrói-se não só a obra, mas a si mesmo – a obra é também resultado da auto-construção baseada no exercício contínuo de iniciativa, experimentação,  crítica, argumentação; de alteridade, socialidade, questionamento, inquietação, autonomia.

Como anotei nas conclusões de minha dissertação de mestrado *, o processo colaborativo , mais do que um método a ser seguido ou de um ideal a ser alcançado, é busca. A depender do tipo de proposta, do tipo de grupo; das condições econômicas, das circunstâncias espaço-temporais, é sempre uma busca. E é justamente nesse exercício que reside o seu sentido.


Adélia Nicolete



* NICOLETE, Adélia. Da cena ao texto: dramaturgia em projeto colaborativo. Dissertação (Mestrado em Artes) - USP, 2005. O download pode ser feito nessa página.





terça-feira, 22 de julho de 2014

Teatro da Conspiração às portas do 30º aniversário

                                       


Cena do espetáculo "Dassanta" - 2010
Dramaturgia e Direção de Solange Dias
Foto: Felipe Veríssimo


Nossas referências sobre o teatro no ABC muito se devem às pesquisas e publicações de Paschoalino Assumpção e José Armando Pereira da Silva. Foi por meio deles que pudemos entrar em contato com as origens operárias do teatro feito em nossa região, bem como seu desenvolvimento até meados dos anos 1960. O que ocorreu depois disso, e foram muitas e variadas manifestações, ainda carece de registro.

Para ficarmos circunscritos a Santo André, podemos citar os festivais de teatro amador que, retomados nos anos 1980 e encerrados na década seguinte, atendiam a demanda dos grupos que, pouco a pouco, aumentavam em número e, já sob influência do teatro feito em São Paulo, propunham inovações temáticas e formais. Os centros de cultura nos bairros, o trabalho de Augusto Boal com os artistas da cidade, as EMIAS (escolas municipais de iniciação artística), a criação da Escola Livre de Teatro são também algumas das experiências à espera de registro adequado.

Dos grupos amadores surgidos nos anos 1980 dois, nascidos em espaços escolares, geraram o Teatro da Conspiração. Um deles foi o TeHOR Movimento Artístico, formado em 1985 por alunos da FATEA (Faculdades Integradas Teresa D'Ávila, hoje FAINC), o outro foi o Içué de Talhe, formado por alunos do Colégio Singular. Anos depois, alguns componentes dos dois grupos se uniram e formaram um terceiro, o Póstumo e Diluto, que atuou até meados dos anos 1990. Com a dissolução do grupo, uma parte dos artistas formou o Teatro do Abaporu, que passou a atuar tanto na cena quanto em trabalhos pedagógicos junto às comunidades andreenses.

O sonho de ter seu trabalho reconhecido por um maior número de espectadores levou muitos artistas e grupos a migrarem para São Paulo, como, aliás, o fizeram artistas de gerações passadas. Não foi diferente com o Teatro do Abaporu, que desenvolveu espetáculos na capital, mas acabou retornando a Santo André nos anos 1990. Nesse retorno, remanescentes do grupo se uniram a alunos da FATEA, das oficinas culturais e da ELT para a montagem de Partida, de Luís Carlos Leite, dando origem ao Teatro da Conspiração, no ano 2000.

Na atuação do grupo podem ser identificados elementos já presentes nos trabalhos dos anos 1980: dramaturgia autoral e pesquisa formal, agora aliadas à temática  histórica, em Geração 80 e Tito, e social, em Partida e Cantos periféricos. Dois  desses textos já foram publicados. Outros dois foram tema de mestrado na USP e na UNICAMP.

A partir de 2004, o Teatro da Conspiração retoma seu caminho pedagógico e inicia uma segunda vertente de atuação, o Teatro da Transpiração, projeto desenvolvido no Parque Escola de Santo André. O local que antes era dedicado tão somente às atividades botânicas passa a ser frequentado aos domingos por jovens atores que, aos poucos, trazem para este lado da cidade um número cada vez maior de espectadores e inauguram um novo espaço teatral na comunidade.

O grupo chega a 2010 com novas montagens, núcleos independentes e o mesmo espírito que o acompanha desde suas origens, 25 anos atrás: o espírito amador e artesanal. Amador porque realizado sem patrocínio, sem fomento, quase sempre de forma cooperativada. Artesanal porque feito com paixão, sem os ditames do mercado e apesar do pessimismo que volta e meia decreta o fim ou a inviabilidade desse tipo de trabalho.


Um teatro de qualidade que está indissoluvelmente ligado à evolução das artes cênicas na região e ao qual muito me orgulho de também estar indissoluvelmente ligada.        Viva!   



2014 - 10 anos do Teatro da Transpiração
29 anos do Teatro da Conspiração


(Texto publicado originalmente pelo grupo em 2010)

http://teatrodaconspiracao.blogspot.com.br/

maiores informações sobre artistas e grupos  do período podem ser encontradas em
http://aoentretempos.blogspot.com.br/