“Uma nesga do passado abre uma clareira na memória supostamente soterrada. Estremeço. O palimpsesto inesperado me leva a concordar com o poeta: o esquecimento está cheio de memória."
Dalila Teles Veras
Em janeiro de 2023, a escritora Claudia Jordão realizou uma pesquisa a fim de que mulheres pudessem relatar situações de violência sexual. Recebi o formulário, encaminhei pra várias pessoas, pensei, repensei e decidi não responder. Pra que mexer com o que estava quieto? Vivências soterradas, camada sobre camada, ao longo dos anos. Melhor deixar onde estavam. Escavar aquele terreno seria ressentir incômodos, náuseas, dores, medos. Um pesadelo. Perto de cento e cinquenta formulários retornaram a ela preenchidos com relatos de agressões as mais diversas.
Não enviei o meu. Em vão. Semanas depois, a violência chegou bem perto. Uma grande amiga pediu o divórcio após 25 anos de agressões e a resposta do ex-marido foi o espancamento. Ouvir sua mensagem pelo whatsapp, perceber seu desespero, imaginar as marcas em seu corpo, tudo isso me abalou profundamente. As memórias soterradas voltaram à superfície. Ressenti cada uma, irmanada à amiga. Estremeci. Foi feito boletim de ocorrência, exames de corpo de delito, foi concedida a medida protetiva. O agressor nunca foi preso. Segue livre como milhares de outros.
Recentemente ficamos sabendo, por meio de storys de uma amiga nas redes sociais, que o ex-companheiro de sua sobrinha de 22 anos invadira a loja em que ela trabalhava e ali mesmo, diante de funcionárias e clientes, perpetrou, a facadas, mais um feminicídio, que atinge hoje a marca de quatro por dia no Brasil. Ainda que haja subnotificação, as redes sociais, o noticiário despejam diariamente diante de nossos olhos e ouvidos os crimes cometidos contra a mulher. Estremecemos. Mexeu com uma, mexeu com todas. Doemos todas, morremos todas um pouco.
Se nesse momento eu pedisse que todas as mulheres que tivessem sofrido violência de gênero ao menos uma vez na vida levantassem a mão, não ficaria uma sequer de mãos abaixadas. E se ficasse, provavelmente seria por não identificar como agressão toda uma série de situações já naturalizadas em casa, na escola, no trabalho, em consultórios médicos ou dentários, em hospitais, cinemas, trens, ônibus, táxis, por homens desconhecidos ou conhecidos. Nem todo homem, mas sempre um homem. De quantos formulários Claudia precisaria?! Quantos?!
“Elas, mulheres”, o livro mais recente de Claudia Jordão, publicado pela Alpharrabio Edições, integra a tetralogia Cartografia das Mulheres Feridas, que teve início com “Mulheres que me habitam" (já em segunda edição), nascido da experiência pessoal e familiar da autora, e foi ampliada a cada nova publicação. Os demais livros, “Eu, tu elas”, “Elas, meninas” e “Elas, mulheres”, nasceram daqueles formulários e de pesquisas realizadas por Claudia, de experiências compartilhadas com ela de modo público ou privado - material trabalhado literariamente com o respeito, a delicadeza e o talento necessários para abordar a violência doméstica, o abuso sexual na infância e outros temas candentes.
Os quatro livros são fruto do empenho de uma artista em constante aperfeiçoamento e com o foco no coletivo - tanto do ponto de vista das publicações quanto das trocas realizadas em escolas, grupos de apoio e outros espaços e também do estímulo à escrita de si em cursos e oficinas para mulheres. Não sem motivo obteve subsídios públicos para o seu desenvolvimento.
Trata-se de um mapeamento poético do nosso momento histórico, uma espécie de inventário daquilo que nos estremece dia após dia, há séculos, sob o patriarcado. Traduções sensíveis das vivências que tentamos manter submersas com as âncoras mais pesadas, e que, no entanto, voltam à superfície a cada relato, a cada imagem, a cada violência que se repete conosco e com nossas iguais. Aqui perto, em outros estados do país, ao redor do mundo. Se juntássemos tudo, poderiam cobrir o planeta.
SAPATOS EM MARCHA
Sapatos marcharam do México até a Praça Santa Filomena, ao lado de minha casa.
Ouvi o tec tec do salto agulha da Verônica e corri para a janela.
Logo depois, o solado da bota da Jéssica bateu forte.
O tênis da Amanda mal tocava o chão.
Os chinelos da dona Francisca avançavam em passos arrastados.
As sapatilhas da Priscila vinham afiadas.
Pelo caminho, outros sapatos somaram-se à marcha.
Na Guatemala, juntaram-se os tênis de Claudina Velásquez.
Em El Salvador, o mocassim de salto reto de Karla Turcios.
Em Honduras, as sandálias de Berta Cáceres. Na Nicarágua, as sapatilhas de Dina Carrion.
Na Costa Rica, chegou a vez de Eva Morera. Do Panamá, veio Wallen Sandra.
Da Colômbia, os sapatinhos de Yuliana Samboní.
Do Equador, o salto quadrado de Maria Belém Bernal.
Do Peru, as solas manchadas de fuligem de Eyvi Ágreda.
Da Bolívia, os sapatos de Eslenca Quispe.
Ao cruzar a América Latina, a marcha aumentava onze pares por dia, todos os dias.
Só em solo brasileiro, quatro. Sempre mais quatro.
Da janela, vi a Praça Santa Filomena desaparecer sob a imensidão de calçados.
Estavam espalhados pelas ruas, nas casas vizinhas, nos prédios ao redor, nas calçadas, nas vielas,
em todos os lugares, até a vista acabar.
Um mar de sapatos foi se acomodando em filas, abrindo veios pelas ruas.
Quando dei por mim, tudo estava vermelho em absoluto silêncio,
e definitivamente vazio.
Submersa, senti meus pés nos chinelos. Até quando?
Claudia Jordão - “Elas, mulheres”


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