Mostrando postagens com marcador ABC paulista. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ABC paulista. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

"Pavio vermelho fogo" - Prefácio


PAVIO VERMELHO FOGO - Diálogos sobre um laboratório de dramaturgia para mulheres - Editora Giostri - São Paulo






PALAVRA DE MULHER



O ABC paulista pode ser definido como uma região de passagem. Sua posição estratégica entre o planalto e o litoral fez dele um corredor, uma via por onde passam matéria-prima, mercadorias e pessoas, um território “entre”. Tal intermediação foi facilitada pela inauguração da linha férrea em meados do século 19 e da rodovia Anchieta, no final dos anos 1940 – as duas igualmente fundamentais para o adensamento da população regional.

A primeira leva de imigrantes italianos chega à região no final dos anos 1800 e encontra tudo por fazer. Outros imigrantes instalam-se, dedicando-se especialmente à lavoura, às pedreiras, serrarias e olarias – essas já existentes em São Caetano do Sul desde o século 18 – estabelecendo uma economia de primeiro setor. E onde estão as mulheres? A que se dedicam nesses tempos? É certo que trabalham nas chácaras e hortas, bem como nas olarias, embora seja trabalho pesado. Casam-se, como é de se esperar, e desincumbem-se das tarefas domésticas, do cuidado com a prole. Deitam-se exaustas assim que o sol se põe e, antes que ele surja no horizonte, já estão em pé a fazer marmitas para a jornada. Analfabetas em sua maioria, as mulheres imigrantes que ajudam a construir o ABC não têm tempo livre para sonhar com o exercício da ficção. As que conhecem algumas letras usam-nas para anotar receitas, remédios ou para escrever cartas aos familiares deixados no além-mar.

No início do século 20 a economia de segundo setor desponta na região com a instalação de tecelagens, cerâmicas, movelarias e outras indústrias de pequeno e médio porte. Grande parte das fábricas absorve a mão de obra feminina e embora já comece a constituir-se uma classe média regional, as famílias ainda contam com o trabalho da mulher e dos filhos e filhas de menor idade na complementação do orçamento doméstico. Estudo formal é privilégio da população mais abastada e, portanto, o pouco que se sabe ler, escrever e fazer algumas contas deve bastar para as necessidades básicas da existência. A quem não escreve nem o próprio nome, é suficiente imprimir à tinta o polegar e está firmado o documento. De quê serviriam literatura, ficção e dramaturgia em tais circunstâncias?

É somente a partir dos anos 1950 que se insinua alguma alteração no panorama. O ABC paulista ficará conhecido nacionalmente como região industrial e a mão de obra será suprida com a chegada de migrantes vindos do Nordeste, de Minas Gerais e do interior de São Paulo em sua maioria. Assim como os imigrantes, tais populações deixam seus lugares de origem e lá parte de sua família, de suas referências culturais e emocionais, parte de seu imaginário. Veio seu corpo, vieram suas mãos – a memória e o coração ficaram enterrados onde estavam suas raízes. É certo que buscam melhores condições de vida e assumem o ABC como seu novo lar, fazendo-o o que é hoje, mas por muito tempo ele permanece como lugar de passagem, lugar provisório em que se trabalha para juntar dinheiro e depois voltar – o que de fato aconteceu e ainda acontece com milhares de migrantes. Nesse contexto, muitas mulheres ocupam postos de trabalho na indústria, o que se intensifica ao longo das décadas seguintes. Nas famílias em que o homem é o provedor, cabe à dona de casa – definida como “do lar” no campo da profissão – os cuidados domésticos gerais, a educação e a saúde das crianças.

A demanda por escolas aumenta e os migrantes podem realizar um de seus sonhos: ver os filhos e as filhas estudarem a fim de se dedicarem a profissões ditas “limpas”, profissões do pensamento tais como secretárias, contadores, auxiliares administrativos, projetistas, professoras, administradores e assim por diante. Ocupações em que não se sujem de graxa as mãos ou o macacão do uniforme. No final dos anos 1960 é instituído em nível nacional o MOBRAL – Movimento Brasileiro de Alfabetização – calcado no Método Paulo Freire de alfabetização de adolescentes e adultos. Assim, durante quase duas décadas, milhares de analfabetos passam a frequentar as salas de aula e adquirir competências de leitura e de escrita. Dado o acesso ao conhecimento, muitas mulheres podem ter contato com a literatura e usar a escrita com maior frequência. É importante lembrar os movimentos sociais e o movimento feminista que acenavam no horizonte. Durante os anos 1960 e 70, durante a ditadura civil-militar, o ABC é palco de militância e de intensa luta operária. As Sociedades Amigos de Bairro e as Comunidades Eclesiais de Base desempenham importante papel na formação de um olhar crítico sobre o momento histórico e no fomento a ações efetivas para a inclusão social e as transformações de que a região necessitava, tanto em nível de infraestrutura quanto de articulação e representação política.  Programas femininos na televisão, como o de Xênia Bier, confrontam os padrões do patriarcado e estimulam as mulheres em vários aspectos – o orgasmo, os métodos contraceptivos e o aborto; o desquite e o divórcio, por exemplo, são discutidos diariamente no horário vespertino. Se uma revolução feminista não aconteceu entre as mulheres daquela geração, é certo que tais discussões interferiram no modo como as filhas foram educadas. E nós, que ora escrevemos e lemos esses textos em 2019, somos provavelmente as filhas e netas daquelas mulheres.

Dos anos 1970 em diante podemos pensar em uma escrita feminina na região do ABC Paulista. Com forte influência da contracultura, diversas manifestações tornam possível o exercício literário para as jovens: é  estimulada a nível mundial a troca de cartas e de cartões postais – há sessões dedicadas a isso nas revistas infanto-juvenis – , os diários pessoais voltam a fazer parte do cotidiano adolescente e os clubes de leitura e de venda de livros multiplicam-se. A poesia alternativa escapa às editoras e ganha as ruas sob a forma de panfletos mimeografados. O jornal alternativo “A Cigarra”, criado em 1982 por Jurema Barreto de Souza e Terezinha Savio, alunas da Fundação Santo André, é um exemplo, assim como o coletivo Poetas Independentes do ABC e o Grupo Livrespaço de Poesia, criado em 1983 e que conta com textos de Dalila Teles Veras, Jurema Barreto de Souza, Katsuko Shishido, Rosana Chrispim, Tônia Ferr, entre outros poetas.

Na mesma década e na seguinte, o teatro amador ganha força nas associações de bairro, nos clubes e nas escolas. A criação coletiva permite que se abra mão de uma peça já pronta em nome de um texto que traduza os anseios do coletivo, o que permite que mais mulheres assumam a dramaturgia. Os festivais de teatro amador pelo estado de São Paulo estimulam a troca artística entre os amadores e fortalece ainda mais o movimento. O fazer teatral perde um pouco do preconceito que o envolve na medida em que mais e mais mulheres tomam parte dele e podem obter capacitação como atrizes ou professoras na Fundação das Artes de São Caetano do Sul e na FATEA (Faculdades Integradas Teresa d’Ávila, futura FAINC). Sem a possibilidade de uma formação em dramaturgia na região, os pretensos dramaturgos e dramaturgas são autodidatas ou buscam sua formação em São Paulo. Somente no final dos anos 1980, com a criação da Escola Livre de Teatro de Santo André, a região pode contar com um curso voltado à dramaturgia e que, depois de um hiato de alguns anos, torna-se o principal responsável pela formação dramatúrgica no ABC, possibilitando a formação continuada de profissionais atuantes na área estética ou pedagógica. Solange Dias, aluna da primeira turma de dramaturgia da ELT, coordena por vários anos o curso nos anos 2010. Tais conhecimentos se multiplicam em cursos e oficinas regionais e em cursos de graduação e pós-graduação. Pode-se afirmar que o NED - Núcleo de Experimentos em Dramaturgia é fruto de todas essas experiências, na medida em que suas idealizadoras participaram de cursos na ELT, em oficinas livres em São Bernardo do Campo e na FAINC de Santo André. E é nesse momento que se pode falar de uma atuação mais significativa das mulheres na criação dramatúrgica regional.

O NED representa um passo além na medida em que se propõe a ser um coletivo de mulheres que pensa, faz e fomenta a dramaturgia em seu alcance estético e político. Seu projeto Laboratório de Dramaturgia para Mulheres, transcorrido em 2019, é prova disso. Como sabemos, o ano de 2019 ficará marcado em nossa História pela ascensão de uma direita retrógrada ao poder. Grande parcela da sociedade alinhou-se a um governo que desde a campanha eleitoral demonstrava maior apreço às armas que à educação e cujas premissas supunham a censura, os cortes de verba e, consequentemente, o retraimento das artes cênicas e visuais. Mas não só, ameaçados também estão os direitos constituídos, o meio ambiente, as lutas igualitárias, a população indígenas, as conquistas com relação aos direitos LGBTQI+ e tantos outros. Igualmente lamentável foi a nomeação do dramaturgo e diretor Roberto Alvim para o comando do Centro de Artes Cênicas da FUNARTE – Fundação Nacional de Artes –, pois implica num projeto conservador e revisionista. No que diz respeito às mulheres, a eleição do ex-coronel Jair Messias Bolsonaro para a Presidência da República resultou em uma reforma ministerial que extinguiu a pasta da Cultura, mas criou uma outra denominada Ministério da Mulher e da Família, sob o comando da advogada e pastora evangélica Damares Alves, acusada de sequestrar uma criança indígena para adoção. Tal ministério representa o que há de mais ultrapassado e preconceituoso com relação ao debate sobre gêneros, com relação à educação sexual e mesmo à família.

No atual contexto, o Laboratório de Dramaturgia para Mulheres constituiu-se uma ação concreta e corajosa. Com suas propostas de reflexão sobre o feminino e sobre a mulher na literatura e na sociedade, bem como de estudo das formas contemporâneas de teatro e de dramaturgia, o NED instituiu um espaço de debates que se estendeu para além da cena e alcançou uma reflexão regional sobre teatro, arte e sociedade.

Não que a rotina atual da mulher seja mais favorável à criação, pois continuamos a exercer muitas funções. O que nos diferencia de nossas antecessoras é a Consciência. Ela é, por vezes, fonte de muitas dores, mas é também a nossa salvação: podemos escolher. Podemos deixar o trabalho de lado algumas vezes, sem culpa. Podemos nos conectar em rede com outras mulheres, podemos contar com um pouco mais de apoio. Isso nos diferencia. Isso nos engrandece. Isso nos favorece. A casa continua necessitando de organização, precisamos ainda comer e nos vestir, precisamos de dinheiro para a educação e para saúde e assim por diante. Muitas demandas femininas continuam necessárias. O que podemos com pouco mais de folga – pelo menos em certas camadas da população – é contar com a ajuda dos parceiros ou parceiras e, quem sabe, educar filhos e filhas para a vida em comunidade e não para serem servidos e servidas. Se abrimos em nossa rotina um espaço, por menor que seja, para o exercício da ficção é muitas vezes em detrimento da limpeza da casa, dos cuidados domésticos e do ideal da dona de casa perfeita, da mãe perfeita – padrões que a sociedade ainda nos impõe e parece que com a ascensão da direita voltam com toda força. Mas sabemos que isso é apenas temporário. Existe uma força maior, um movimento maior que ninguém poderá impedir. Talvez seja este o nosso papel. Se nossos antepassados se sacrificaram para que pudéssemos exercer funções e atividades do pensamento, talvez a nossa missão com relação às futuras gerações seja de assegurar que esse pensamento seja livre e um direito inalienável. Que nossa Dramaturgia nos represente para além de nós.

Adélia Nicolete
Nascida no ABC, filha de migrantes do interior de São Paulo, estudante de escola pública. Participou do teatro estudantil e amador da região durante os anos 1980 e 1990. Moradora de Ribeirão Pires há 20 anos, é dramaturga, escritora e condutora de Ateliês de Escrita. Filha, esposa, mãe, avó, tia, amiga. Em rede.



quinta-feira, 18 de julho de 2019

Teatro no ABC Paulista - Levantamento audio-video-bibliográfico - Parte I




Para Sônia Guedes


O desenvolvimento da arte não se faz apenas com a produção estética. É necessário que o pensamento acompanhe o fazer artístico, que reflita a seu respeito, critique, analise, dedique-se ao registro de processos. Com o objetivo de compreender o caminho percorrido pelo teatro no ABC paulista, empreendi uma pesquisa do material áudio-video-bibliográfico disponível. Que seu estudo possa iluminar nosso presente e apontar caminhos futuros.


Dentre os materiais videográficos, podemos destacar:

- "Imagens e narrativas do teatro no ABC paulista de 1950 a 1980 é parte de uma pesquisa desenvolvida desde 2003 no Memórias do ABC - Núcleo de Pesquisas e Laboratório de Produções Midiáticas da USCS. Contou com apoio CNPq para produção em vídeo desse resultado de pesquisa que parte de narrativas orais de artistas do ABC".

Programa 1

Programa 2



Programa 5


- Outra fonte videográfica é 


- Programa "Persona em foco":





* * *
                                                                         

Dentre os materiais bibliográficos levantados até o momento, destacam-se:


Livros:

ASSUMPÇÃO, Paschoalino.  O teatro amador em santo André: a Sociedade de Cultura Artística (SCASA) e o Teatro de Alumínio. Santo André: Alpharrabio, 2000.

GARCIA, Silvana. Teatro da militância. São Paulo: Perspectiva/Editora da
Universidade de São Paulo, 1990.

GRUPO DE TEATRO FORJA DO SINDICATO DOS METALÚGICOS DE SÃO BERNARDO DO CAMPO E DIADEMA. Pensão Liberdade./ Pesadelo. São Paulo: Hucitec, 1981/1982.

IANNI, Octavio. Teatro operário. In: Ensaios de sociologia da cultura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.

KHOURY, Simon. Bastidores. Vol. 19: Ney Latorraca, Sonia Guedes, Rogério Fróes. Rio de Janeiro: Frederico de Lima Brandão.

MATE, Alexandre. (Org.) Reminiscências dos 20 anos da Escola Livre de Teatro de Santo André por seus fazedores. Santo Andrá: Fundo Municipal de Cultura, 2010.

PEIXOTO, Fernando. Quando o povo assiste e faz teatro. In: GRUPO DE TEATRO FORJA DO SINDICATO DOS METALÚRGICOS DE SÃO BERNARDO DO CAMPO E DIADEMA. Pensão Liberdade./ Pesadelo. São Paulo: Hucitec, 1982.

PERAZZO, Priscila F., LEMOS, Vilma. (Org.)  Memórias do teatro no ABC Paulista: expressões de cultura e resistência. Acesso aqui.

PEREIRA, Cleiton. Antes que a margem vire beira (20 anos do Grupo Contadores de Mentira). Proac SP.

RODRIGUES, Leôncio Martins. Trabalhadores, sindicatos e industrialização. São Paulo: Brasiliense, 1974.

SADER, Eder. Quando novos personagens entraram em cena. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

SILVA, José Armando P. da. Escola de Teatro da Fundação das artes de São Caetano do Sul 1969-1982.  Santo André: Alpharrabio.
______. O teatro em Santo André 1944-1978. Santo André: PUBLIC, 1991.
______. Província e vanguarda: apontamentos e memória de influências culturais 1954-1964. Santo André: Fundo de Cultura do município de Santo André, 2000.

URBINATTI. Tin. Peões em cena: Grupo de Teatro Forja. São Paulo: Hucitec.
______. Pesadelo: um processo de dramaturgia. GRUPO DE TEATRO FORJA DO SINDICATO DOS METALÚRGICOS DE SÃO BERNARDO DO CAMPO E DIADEMA. Pensão Liberdade/Pesadelo. São Paulo: Hucitec. 1982.



- Biografias disponíveis na rede

Até a última sílaba: o teatro de Luís Alberto de Abreu

Sônia Guedes: Chá das cinco

Antonio Petrin: Ser ator


          
Dissertações e teses disponíveis na rede








Podcast:


Na segunda postagem da série, traremos o levantamento de artigos, dramaturgia, blogs, sites e outros materiais. Caso a leitora ou o leitor conheçam outras referências, por favor, entrem em contato nos comentários.


Adélia Nicolete






sexta-feira, 24 de maio de 2019

III Ciclo de Estudos da Dramaturgia Contemporânea



Em 2016, reuniram-se representantes de coletivos teatrais do ABC paulista para a formação de um Fórum. A pouca oferta de cursos aliada à relativa proximidade da capital, faz com que muites artistas locais tomem o rumo de São Paulo em busca de aperfeiçoamento. Por isso nosso especial interesse em promover ciclos de estudo, encontros e bate-papos na região. Entre outras deliberações do Fórum, ficou decidido que periodicamente haveria partilhas de saberes a serem conduzidas pelos próprios filiados em espaços teatrais da comunidade. 

No ano seguinte teve lugar no espaço da Escola Livre de Teatro de Santo André, o II Ciclo de Estudos da Dramaturgia Contemporânea, tendo como foco peças brasileiras. Em 2018, na sede da Cia do Nó de Teatro na mesma cidade, foi a vez do Ateliê de Transcriação Teatral e em 2019, outra vez na Cia do Nó e com produção executiva do NED – Núcleo de Experimentos em Dramaturgia – , ocorreu o III Ciclo de Estudos, cujo recorte foram os solos teatrais brasileiros. 

O projeto, seus antecedentes e objetivos, podem ser acessados nesse link. Deixo para esta postagem um registro dos encontros.




Parte do grupo durante a discussão do primeiro módulo:
biografia, autobiografia, subjetividades - solos e autoescrita performativa.
Foram estudados "Conversas com meu pai", de Janaína Leite e Alexandre Dal Farra;
"Tripas", de Pedro Kosovski e "Sonhos para vestir", de Sara Antunes,
além de textos teóricos e materiais paralelos.



No segundo módulo foram analisados solos criados a partir da literatura:
obras literárias, escritoras e escritores como base de criação.
Foram analisados  "Oe", interpretado por Eduardo Okamoto, "Alice - retrato de mulher que cozinha ao fundo", escrito pela andreense Marina Corazza e
 "Negrinha", de Sara Antunes.









(Foto: Claudia Jordão)
O terceiro módulo 
abordou solos e pesquisa :
motivações estéticas, sociais, históricas, entre outros disparadores
de pesquisa e criação.
Foram estudados "BR-Trans" de Silvero Pereira, "Eldorado", de Eduardo Okamoto e "Peixes", de Ana Régis

















No quarto e último módulo tratamos de solos e performance:
o corpo, a voz, o espaço, a relação com o público, a performatividade como elementos determinantes da criação
Na ocasião, analisamos "Farinha com açúcar - ou sobre a sustança de meninos e homens", idealizado, dirigido e interpretado por Jé Oliveira, que esteve presente
na discussão.



O quinto e último encontro foi dedicado á avaliação geral
do III Ciclo e ao compartilhamento de projetos.
Em cena a atriz Cristiane Layher Takeda
faz leitura de texto de William Costa Lima.




























Agradeço à equipe do NED e à Cia do Nó pela viabilização do Ciclo, a todes artistas que gentilmente cederam as peças, os vídeos e materiais paralelos, bem como ao diretor-dramaturgo-ator Jé Oliveira pela presença no encontro de encerramento. Obrigada a todes participantes que confiaram na proposta e “se jogaram” no estudo dos solos de modo tão vertical. 
Até o próximo!

Celebração da presença do mauaense Jé Oliveira


Adélia Nicolete

quinta-feira, 4 de abril de 2019

"O infinito é logo ali" - exposição de Mauro Yamaguti


Entre os dias 11 de março e 31 de julho as Artes Visuais do ABC paulista têm lugar de destaque no SESC São Caetano. Nesse período estará em cartaz o projeto Impulsiona, cujo objetivo é dar visibilidade a artistas da região ao propor que ocupem visualmente alguns espaços da Unidade com diferentes formas e técnicas. 

Painel de Mauro Yamaguti


O convidado para essa edição é Mauro Yamaguti. Artista plástico com atuação pedagógica também em Artes Cênicas – sua formação universitária – Mauro conjuga aspectos dessas duas linguagens na medida em que se vale de elementos da performance art na execução de seus trabalhos. Especialista em Arte-Educação, exerce atividades continuadas em escolas públicas e privadas, institutos e projetos governamentais. Desde 2006 participa de coletivas diversas em salões e pinacotecas no ABC paulista e em São Paulo. Na Mostra de Artes e Cultura, realizada em 2014 na cidade de Diadema, conquistou o 1º Lugar na categoria Artes Visuais. Em 2018, Pedaços de mim, sua primeira exposição individual, foi aberta ao público na Pinacoteca de São Bernardo do Campo.

Execução de pintura do painel externo do SESC São Caetano
por Mauro Yamaguti

A exposição denominada “O infinito é logo ali” conta com painéis em grandes dimensões criados por Mauro ao longo de vários dias, sempre à frente do público. Como sua ex-professora do curso superior, tive a grata surpresa de ser convidada a escrever o texto curatorial, compartilhado a seguir. Que seja um estímulo à visita e à apreciação do trabalho desse nosso artista. 

Mauro Yamaguti em ação na pintura do painel externo


"Ao longo dos anos, a região do ABC paulista tem se mostrado importante celeiro de Artes Visuais. Mauro Yamaguti frequentou a FAINC (Faculdades Integradas Coração de Jesus), de Santo André, e o contato com a Música e as Artes Cênicas durante o curso foi determinante para o trabalho ora apresentado. Nele Mauro conjuga aos traços ritmo e performance, o que nos remete às ações de Tony Orrico, uma de suas principais referências. 

O impulso gerador dessas obras são os distúrbios a que estamos submetidos no mundo contemporâneo. Causadas, muitas vezes, pela aceleração do tempo, pelo excesso de informação e de compromissos e pelas pressões de todo tipo, a ansiedade, a depressão, a bipolaridade e a insônia são traduzidas pelo artista por meio do movimento contínuo e exaustivo, da ilusão do preto resultante da mistura de vários pigmentos e da busca do branco como efetiva presença e não como vazio. 

Tais angústias encontram no trabalho de Mauro Yamaguti configuração, mas também antídoto, na medida em que tanto processo criativo quanto apreciação estética conduzem ao exercício de concentração e de foco, de atenção ao aqui-agora dos detalhes e nos propõem um verdadeiro convite à contemplação."

Adélia Nicolete




Com o querido e talentoso ex-aluno Mauro Yamaguti

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Rinocerantas


Cenário do espetáculo "Rinocerantas"
criadora: Denise Guilherme



A postagem a seguir é uma apreciação crítica do espetáculo Rinocerantas, da Cia Lona de Retalhos, escrita a convite da organização do projeto “Teatro político no ABC: identidade e resistência”, promovido pelo SESC Santo André de 14 de março a 15 de abril de 2018.


A mais recente edição do Festival de Teatro de Curitiba registrou um episódio emblemático do momento em que vivemos nesse país. Logo no início de um dos espetáculos da mostra oficial, uma espectadora levantou-se e, indignada, vociferou “paguei ingresso para ver teatro e não ouvir sobre política”.  Sua voz é representativa de um grande número de cidadãos que sofreu algumas das consequências mais nefastas do golpe civil-militar de 1964, reforçadas pelo golpe televisionado de 2016: a obsolescência programada da educação (lembremo-nos de Darcy Ribeiro ao denunciar que a crise da educação no Brasil era um projeto), o desábito paulatino do livre pensar e a despolitização generalizada, ainda que sob o disfarce de grandes movimentos sociais, manipulados em sua maioria.

Para ela e para tantos outros “cidadãos de bem”, teatro é lugar de entretenimento, de preferência inócuo, uma extensão de certos conteúdos televisivos. A convivialidade teatral – pressuposto de uma assembleia reunida em torno de um debate comum a todos – passa-lhes despercebida. Em sua opinião, o que une os espectadores e lhes dá a totalidade de um público, é o riso ou o choro atávicos, desprovidos de maiores reflexões. Ao final do espetáculo, retorna cada um à sua mônada e segue-se vivendo, à espera de novos surtos coletivos. Uma plateia de rinocerontes a considerar os artistas meros bobos da corte, sem qualquer “utilidade” ou função que não a de entreter a quem “pagou ingresso” para “se divertir e se emocionar”.

A eficiente metáfora animal quem sugere é o dramaturgo romeno Eugéne Ionesco (1909-1994), consagrado autor de uma linhagem de textos enfeixados na estética do Absurdo. Sua peça “O rinoceronte”, publicada em 1959, ganhou mundo e a ela se recorre sempre que se quer falar do totalitarismo, da intolerância, do desrespeito às diferenças. Nela, “Cidadãos de bem” de uma cidadezinha pacata transformam-se pouco a pouco em feras capazes de grandes destruições. Ao final, resta apenas Bérenger, triste por haver perdido seu amigo Jean, sua amada Dayse, seus colegas de escritório, todos metamorfoseados. Bérenger, uma espécie de Pierrô – melancólico, romântico, sensível, ponderado – estranho às normas férreas, criticado justamente por não se enquadrar, é o único ser humano que sobrevive, não sem antes se questionar sobre as vantagens que teria em ser como todos os demais. Ainda que sozinho, não se renderá.

*

Dado o nosso contexto, a Cia Lona de Retalhos foi buscar, sabiamente, na obra de Ionesco, o material para seu espetáculo "Rinocerantas". Haveria de ser uma releitura contemporânea suficientemente oportuna, não fosse sua adaptação dirigida ao público infantil. A decisão por retomar “O rinoceronte” pela estética clownesca radicalizou a metáfora, aprofundando-a, tornando-a ainda mais potente e alcançando os pequenos na esperança de uma pedagogia da alteridade.

Em sua busca pelo essencial, o grupo reduziu a trama à convivência, ora harmoniosa ora não, de duas figuras que vivem sob o mesmo teto: Berinjela e Joanete. O próprio espaço trata de caracterizá-los: uma casa estilizada, dividida em dois ambientes contrastantes. O da esquerda é organizado, minimalista e quase monocromático, o da direita revela uma certa desordem, a presença de cores e paredes desenhadas. Um armário, um rádio e um cronograma de atividades decoram o primeiro, o segundo é despojado. O comportamento dos personagens desdobra-se na relação com o espaço: hábitos rígidos ou flexíveis; trajetos e trejeitos retilíneos ou desformes; obediência ou descaso para com as regras; sisudez ou airosidade; destreza ou inabilidade e assim por diante. Joanete, como aquela protuberância dolorosa no pé, é sistemática, incomoda-se com os desvios de Berinjela que, como o fruto sugere, é “macia”, curvilínea e presta-se a múltiplas finalidades.

A estética do cartoon é boa aliada na medida em que acentua o tom crítico da abordagem, de modo que a fábula consegue a empatia do público não só com relação ao discurso verbal. Para isso contribuem também o figurino, o teatro de objetos e a trilha sonora, permeada de música erudita, a tecerem uma camada delicada em que situações por vezes conflituosas se desenrolam. É delicioso presenciar a reação das crianças a determinadas cenas e perceber o quanto é possível comunicar de forma lúdica conteúdo tão marcadamente político.

Apresentadas as personagens e as diferenças entre elas, fica-se sabendo da presença dos rinocerontes alhures. Em pouco tempo, acompanhamos a transformação de Joanete e vemos sua intolerância exacerbada. Em suas falas, o grupo evoca muito do que se diz nas ruas e nas redes sociais – o preconceito, o moralismo, o modismo, a segregação, a violência e tudo mais. A figura do animal cinza, gigantesco, com seu chifre e sua rígida carapaça é perfeita para simbolizar certos grupos e seu comportamento. Joanete chega até a se comover com o balé sugerido pela amiga, mas a recordação não é suficientemente forte para retirá-la do transe e ela retoma o peso e a gravidade da fera.

Assim, em pouco tempo, “a peste” cerca Berinjela e transforma o médico, o locutor de futebol e até a dupla sertaneja (aquela que recentemente não se comoveu com o assassinato de uma vereadora carioca) em bestas. Parece restar apenas um espécime ainda original, que se debate em vão na tentativa de se igualar aos demais: Berinjela, que tenta ainda repetir palavras de ordem, mas conclui que não precisa seguir a manada. Ao contrário, pode ser rinoceronte, gato, cachorro, galinha, gente e o que mais quiser. Pode se vestir como quiser, viver como quiser, enfim.

Em menos de 60 minutos, Carina Prestupa e Thaís Póvoa revisitam o clássico de Ionesco, conjugam-no a dois contos infantis e promovem um diálogo muito próximo com o momento presente. O distanciamento e a leveza propostos pela metáfora sugerem reflexões pra lá de políticas, maiores até que muitos espetáculos ditos engajados.

Nesse sentido, a Cia Lona de Retalhos assume o fazer teatral como espaço de entretenimento sem abrir mão de seu propósito de reunir pessoas em torno de uma ideia, sem abrir mão de seu potencial transformador para todos os envolvidos.

*

No mesmo Festival de Curitiba, quatro artistas vilipendiados em 2017 uniram-se para um espetáculo que trata justamente do julgamento público a seus trabalhos e/ou à sua atitude: dois performers, uma atriz e a mãe de uma criança que interagiu em uma performance. Plateia lotada, o público acompanhou os depoimentos e solidarizou-se aos artistas. Nenhum rinoceronte se manifestou, sinal de que ainda há um grande espaço para a discussão coletiva de temas urgentes, em sua maioria políticos.

Daí a importância de projetos como esse “Teatro político no ABC: identidade e resistência”, ora levado pela equipe do SESC Santo André. Catorze espetáculos nas mais diversas abordagens temáticas e estéticas, não por acaso a retomar a vocação teatral do ABC nos anos 1970. Que esta tenha sido apenas a primeira edição e que possamos, juntos, interromper a proliferação de bestas-fera.

Espetáculo assistido em 8 de abril de 2018.

Adélia Nicolete