sexta-feira, 13 de março de 2026
“Ínsulas” - o livro-arquipélago de Dalila Teles Veras
Conheci Dalila Teles Veras no início dos anos 1980. O Grupo Livrespaço de Poesia, do qual ela foi uma das fundadoras, promoveu um concurso junto às escolas da região do ABC paulista e eu, que havia cometido alguns poemas, decidi me inscrever. Quis o destino que meu texto fosse classificado e, então, recebi o certificado de participação em uma exposição de poesias do grupo. Foi a primeira vez que tomei contato com “poetas de verdade”, ao vivo, e guardo vívidas na memória aquelas imagens e impressões. O tempo passou e nos tornamos amigas Dalila e eu. O tal poema desapareceu, bem como todos os demais. Não segui pelo caminho da escrita poética, mas persisti no da leitura. É, portanto, como leitora que proponho esta apreciação de “Ínsulas”, a mais recente publicação de Dalila Teles Veras para a coleção “Círculo de poemas”, da editora Fósforo, coordenada por Tarso de Melo.
“Interesso-me por desembrulhar o artefato”
Uma das expectativas mais intensas para mim é a da chegada de um livro. Contei os dias até que o correio me entregasse a plaquete e eu pudesse tê-la nas mãos, porque é nesse primeiro contato que a leitura começa. O formato menor que o convencional; o laranja vivo da capa; a encadernação sem costura (páginas enfeixadas por um elástico solto) a propor um jogo de armar. E o mistério: um buraco de fechadura onde se entrevê trechos de barco e de água. Apesar da sugestão do título, ainda há silêncio. É ao se desdobrarem as capas que se dá o som inaugural: pequenas ondas atiram-se contra o quebra-mar e, ao apurarmos os ouvidos, gaivotas e andorinhas confabulam estridentes ao longe.
Para quem conhece a biografia da autora, os dois registros fotográficos feitos por Luzia Maninha compõem de imediato as primeiras camadas de sentido. O artefato é texto. O artefato é uma ilha.
“Sair da ilha para outra ilha”
O primeiro contato com “Ínsulas”, fez-me lembrar da poesia marginal dos anos 1970 e 1980. Sob a ditadura empresarial-militar, havia uma urgência em circular ideias, gritos, manifestos, sem a intermediação da imprensa ou das editoras. Poetas decidiam sobre conteúdo e forma, encontravam meios acessíveis de reproduzir seus textos e saíam a campo para a distribuição direta ao público - autores-produtores, como idealizou o filósofo Walter Benjamin. Assim, artesania e ativismo compunham a política daquelas publicações, poesias mimeografadas e livretos (plaquetes) entre elas, a democratizar a arte e a contaminar quem dela se aproximasse com o vírus da insurgência.
Embora publicada por uma editora quatro ou cinco décadas depois, a plaquete de Dalila Teles Veras conserva boa parte do espírito daquela época. Além do formato pequeno e leve e de um vestígio de artesania, há uma urgência em cada poema, uma ideia a ser disseminada, uma proposta de reflexão. Tanto que ocupam solitariamente cada página, ilhas a constituir o arquipélago poético indicado pelo título.
“As singularidades imanentes do próprio microcosmo”
Tive com “Ínsulas” três experiências básicas como leitora-viajante: mergulho, voo e contemplação. Em cada uma delas, uma poeta portuguesa a guiar-me na aventura: Irene Lucília Andrade, Ana Hatherly e Maria Gabriela Llansol.
No primeiro trecho, “Ínsulas”, o contato puro e simples com a superfície das ilhas não foi suficiente. Seus mistérios pediam que eu descobrisse o que se escondia sob as águas. Por isso, o vazio deixado sob cada poema representou para mim um espaço-tempo para mergulhar uma, duas, três vezes, cada vez mais fundo, trazendo, ao voltar, uma nova e mais ampla proposta de sentido, sem nunca esgotar-se, porém. Afinal, “Tudo o que sobrevive numa ilha é mistério e silêncio, no poema também.”
Nas “Infusões”, segundo trecho da viagem, o espaço em branco das páginas permitiu-me sair do texto e voar ao encontro das mulheres anfíbias, engenheiras, ambientalistas, ambivalentes, ambidestras que conheço, todas “magas, estrelas-guias de si próprias”, e oferecer-lhes a beberagem poética para que se fortaleçam e se curem de tantos males que nos abatem. Viajei nas imagens criadas pela poeta. Sonhei com outras e melhores ilhas.
Finalmente, no trecho “Faces, fases”, não há em que mergulhar nem para onde ir. Coloco-me no espaço vazio e o que se pede é reverência e contemplação. Leio-escuto a Mulher Vivida, a Poeta e seus processos, “ostra agarrada ao tempo”. Agarro-me, pois, às palavras de Dalila neste livro-arquipélago só possível à beira dos oitenta anos. Resíduos de aluvião de exílio, trabalhos, projetos, relações, lutos, amores e dores, revoluções vitoriosas e sufocadas, golpes, epidemias, pandemias, sonhos, apostas, bandeiras, levantes, livros, livros, livros, livros.
“Pergunto aos comensais sobre as possibilidades do real ser contaminado pelo virtual.”
Fecho a plaquete, desembarco, mas a leitura não termina. Segue noite adentro, vida afora.
O livro-ilha é denso, pesa. Volto a ele várias vezes e há sempre o que se descobrir, como se as frases trocassem de lugar entre si. Ou será eu que volto diferente a cada nova investida? Não há como voltar a ser o que se era depois de visitar a ilha.
É noite. Silenciaram as gaivotas, as andorinhas já se recolheram. Resta o mar, incessante, a quebrar nas margens.
Em algumas horas o sol há de alaranjar novamente o horizonte.
***
Adélia Nicolete - março 2026
“Ínsulas”
Dalila Teles Veras
Editora Fósforo, 2025
Coleção “Círculo de poemas”
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022
"Pavio vermelho fogo" - Prefácio
PAVIO VERMELHO FOGO - Diálogos sobre um laboratório de dramaturgia para mulheres - Editora Giostri - São Paulo
PALAVRA DE MULHER
O ABC
paulista pode ser definido como uma região de passagem. Sua posição estratégica
entre o planalto e o litoral fez dele um corredor, uma via por onde passam
matéria-prima, mercadorias e pessoas, um território “entre”. Tal intermediação
foi facilitada pela inauguração da linha férrea em meados do século 19 e da
rodovia Anchieta, no final dos anos 1940 – as duas igualmente fundamentais para
o adensamento da população regional.
A
primeira leva de imigrantes italianos chega à região no final dos anos 1800 e
encontra tudo por fazer. Outros imigrantes instalam-se, dedicando-se
especialmente à lavoura, às pedreiras, serrarias e olarias – essas já
existentes em São Caetano do Sul desde o século 18 – estabelecendo uma economia
de primeiro setor. E onde estão as mulheres? A que se dedicam nesses tempos? É
certo que trabalham nas chácaras e hortas, bem como nas olarias, embora seja
trabalho pesado. Casam-se, como é de se esperar, e desincumbem-se das tarefas
domésticas, do cuidado com a prole. Deitam-se exaustas assim que o sol se põe
e, antes que ele surja no horizonte, já estão em pé a fazer marmitas para a
jornada. Analfabetas em sua maioria, as mulheres imigrantes que ajudam a
construir o ABC não têm tempo livre para sonhar com o exercício da ficção. As
que conhecem algumas letras usam-nas para anotar receitas, remédios ou para
escrever cartas aos familiares deixados no além-mar.
No
início do século 20 a economia de segundo setor desponta na região com a
instalação de tecelagens, cerâmicas, movelarias e outras indústrias de pequeno
e médio porte. Grande parte das fábricas absorve a mão de obra feminina e
embora já comece a constituir-se uma classe média regional, as famílias ainda
contam com o trabalho da mulher e dos filhos e filhas de menor idade na
complementação do orçamento doméstico. Estudo formal é privilégio da população
mais abastada e, portanto, o pouco que se sabe ler, escrever e fazer algumas
contas deve bastar para as necessidades básicas da existência. A quem não
escreve nem o próprio nome, é suficiente imprimir à tinta o polegar e está
firmado o documento. De quê serviriam literatura, ficção e dramaturgia em tais circunstâncias?
É
somente a partir dos anos 1950 que se insinua alguma alteração no panorama. O
ABC paulista ficará conhecido nacionalmente como região industrial e a mão de
obra será suprida com a chegada de migrantes vindos do Nordeste, de Minas
Gerais e do interior de São Paulo em sua maioria. Assim como os imigrantes,
tais populações deixam seus lugares de origem e lá parte de sua família, de
suas referências culturais e emocionais, parte de seu imaginário. Veio seu
corpo, vieram suas mãos – a memória e o coração ficaram enterrados onde estavam
suas raízes. É certo que buscam melhores condições de vida e assumem o ABC como
seu novo lar, fazendo-o o que é hoje, mas por muito tempo ele permanece como
lugar de passagem, lugar provisório em que se trabalha para juntar dinheiro e
depois voltar – o que de fato aconteceu e ainda acontece com milhares de
migrantes. Nesse contexto, muitas mulheres ocupam postos de trabalho na indústria,
o que se intensifica ao longo das décadas seguintes. Nas famílias em que o
homem é o provedor, cabe à dona de casa – definida como “do lar” no campo da
profissão – os cuidados domésticos gerais, a educação e a saúde das crianças.
A
demanda por escolas aumenta e os migrantes podem realizar um de seus sonhos:
ver os filhos e as filhas estudarem a fim de se dedicarem a profissões ditas
“limpas”, profissões do pensamento tais como secretárias, contadores,
auxiliares administrativos, projetistas, professoras, administradores e assim
por diante. Ocupações em que não se sujem de graxa as mãos ou o macacão do
uniforme. No final dos anos 1960 é instituído em nível nacional o MOBRAL –
Movimento Brasileiro de Alfabetização – calcado no Método Paulo Freire de
alfabetização de adolescentes e adultos. Assim, durante quase duas décadas,
milhares de analfabetos passam a frequentar as salas de aula e adquirir
competências de leitura e de escrita. Dado o acesso ao conhecimento, muitas
mulheres podem ter contato com a literatura e usar a escrita com maior
frequência. É importante lembrar os movimentos sociais e o movimento feminista
que acenavam no horizonte. Durante os anos 1960 e 70, durante a ditadura
civil-militar, o ABC é palco de militância e de intensa luta operária. As
Sociedades Amigos de Bairro e as Comunidades Eclesiais de Base desempenham
importante papel na formação de um olhar crítico sobre o momento histórico e no
fomento a ações efetivas para a inclusão social e as transformações de que a
região necessitava, tanto em nível de infraestrutura quanto de articulação e
representação política. Programas
femininos na televisão, como o de Xênia Bier, confrontam os padrões do
patriarcado e estimulam as mulheres em vários aspectos – o orgasmo, os métodos
contraceptivos e o aborto; o desquite e o divórcio, por exemplo, são discutidos
diariamente no horário vespertino. Se uma revolução feminista não aconteceu
entre as mulheres daquela geração, é certo que tais discussões interferiram no
modo como as filhas foram educadas. E nós, que ora escrevemos e lemos esses
textos em 2019, somos provavelmente as filhas e netas daquelas mulheres.
Dos
anos 1970 em diante podemos pensar em uma escrita feminina na região do ABC
Paulista. Com forte influência da contracultura, diversas manifestações tornam
possível o exercício literário para as jovens: é estimulada a nível mundial a troca de cartas e
de cartões postais – há sessões dedicadas a isso nas revistas infanto-juvenis –
, os diários pessoais voltam a fazer parte do cotidiano adolescente e os clubes
de leitura e de venda de livros multiplicam-se. A poesia alternativa escapa às
editoras e ganha as ruas sob a forma de panfletos mimeografados. O jornal
alternativo “A Cigarra”, criado em 1982 por Jurema Barreto de Souza e Terezinha
Savio, alunas da Fundação Santo André, é um exemplo, assim como o coletivo
Poetas Independentes do ABC e o Grupo Livrespaço de Poesia, criado em 1983 e
que conta com textos de Dalila Teles Veras, Jurema Barreto de Souza, Katsuko
Shishido, Rosana Chrispim, Tônia Ferr, entre outros poetas.
Na
mesma década e na seguinte, o teatro amador ganha força nas associações de
bairro, nos clubes e nas escolas. A criação coletiva permite que se abra mão de
uma peça já pronta em nome de um texto que traduza os anseios do coletivo, o
que permite que mais mulheres assumam a dramaturgia. Os festivais de teatro
amador pelo estado de São Paulo estimulam a troca artística entre os amadores e
fortalece ainda mais o movimento. O fazer teatral perde um pouco do preconceito
que o envolve na medida em que mais e mais mulheres tomam parte dele e podem obter
capacitação como atrizes ou professoras na Fundação das Artes de São Caetano do
Sul e na FATEA (Faculdades Integradas Teresa d’Ávila, futura FAINC). Sem a
possibilidade de uma formação em dramaturgia na região, os pretensos dramaturgos
e dramaturgas são autodidatas ou buscam sua formação em São Paulo. Somente no
final dos anos 1980, com a criação da Escola Livre de Teatro de Santo André, a
região pode contar com um curso voltado à dramaturgia e que, depois de um hiato
de alguns anos, torna-se o principal responsável pela formação dramatúrgica no
ABC, possibilitando a formação continuada de profissionais atuantes na área estética
ou pedagógica. Solange Dias, aluna da primeira turma de dramaturgia da ELT,
coordena por vários anos o curso nos anos 2010. Tais conhecimentos se
multiplicam em cursos e oficinas regionais e em cursos de graduação e
pós-graduação. Pode-se afirmar que o NED - Núcleo de Experimentos em Dramaturgia
é fruto de todas essas experiências, na medida em que suas idealizadoras
participaram de cursos na ELT, em oficinas livres em São Bernardo do Campo e na
FAINC de Santo André. E é nesse momento que se pode falar de uma atuação mais
significativa das mulheres na criação dramatúrgica regional.
O NED representa
um passo além na medida em que se propõe a ser um coletivo de mulheres que
pensa, faz e fomenta a dramaturgia em seu alcance estético e político. Seu projeto
Laboratório de Dramaturgia para Mulheres, transcorrido em 2019, é prova disso. Como
sabemos, o ano de 2019 ficará marcado em nossa História pela ascensão de uma
direita retrógrada ao poder. Grande parcela da sociedade alinhou-se a um
governo que desde a campanha eleitoral demonstrava maior apreço às armas que à educação
e cujas premissas supunham a censura, os cortes de verba e, consequentemente, o
retraimento das artes cênicas e visuais. Mas não só, ameaçados também estão os
direitos constituídos, o meio ambiente, as lutas igualitárias, a população
indígenas, as conquistas com relação aos direitos LGBTQI+ e tantos outros. Igualmente
lamentável foi a nomeação do dramaturgo e diretor Roberto Alvim para o comando
do Centro de Artes Cênicas da FUNARTE – Fundação Nacional de Artes –, pois
implica num projeto conservador e revisionista. No que diz respeito às
mulheres, a eleição do ex-coronel Jair Messias Bolsonaro para a Presidência da
República resultou em uma reforma ministerial que extinguiu a pasta da Cultura,
mas criou uma outra denominada Ministério da Mulher e da Família, sob o comando
da advogada e pastora evangélica Damares Alves, acusada de sequestrar uma
criança indígena para adoção. Tal ministério representa o que há de mais ultrapassado
e preconceituoso com relação ao debate sobre gêneros, com relação à educação
sexual e mesmo à família.
No atual
contexto, o Laboratório de Dramaturgia para Mulheres constituiu-se uma ação
concreta e corajosa. Com suas propostas de reflexão sobre o feminino e sobre a
mulher na literatura e na sociedade, bem como de estudo das formas
contemporâneas de teatro e de dramaturgia, o NED instituiu um espaço de debates
que se estendeu para além da cena e alcançou uma reflexão regional sobre
teatro, arte e sociedade.
Não
que a rotina atual da mulher seja mais favorável à criação, pois continuamos a
exercer muitas funções. O que nos diferencia de nossas antecessoras é a
Consciência. Ela é, por vezes, fonte de muitas dores, mas é também a nossa
salvação: podemos escolher. Podemos deixar o trabalho de lado algumas vezes,
sem culpa. Podemos nos conectar em rede com outras mulheres, podemos contar com
um pouco mais de apoio. Isso nos diferencia. Isso nos engrandece. Isso nos
favorece. A casa continua necessitando de organização, precisamos ainda comer e
nos vestir, precisamos de dinheiro para a educação e para saúde e assim por
diante. Muitas demandas femininas continuam necessárias. O que podemos com
pouco mais de folga – pelo menos em certas camadas da população – é contar com
a ajuda dos parceiros ou parceiras e, quem sabe, educar filhos e filhas para a
vida em comunidade e não para serem servidos e servidas. Se abrimos em nossa
rotina um espaço, por menor que seja, para o exercício da ficção é muitas vezes
em detrimento da limpeza da casa, dos cuidados domésticos e do ideal da dona de
casa perfeita, da mãe perfeita – padrões que a sociedade ainda nos impõe e
parece que com a ascensão da direita voltam com toda força. Mas sabemos que
isso é apenas temporário. Existe uma força maior, um movimento maior que
ninguém poderá impedir. Talvez seja este o nosso papel. Se nossos antepassados
se sacrificaram para que pudéssemos exercer funções e atividades do pensamento,
talvez a nossa missão com relação às futuras gerações seja de assegurar que
esse pensamento seja livre e um direito inalienável. Que nossa Dramaturgia nos
represente para além de nós.
Adélia
Nicolete
Nascida
no ABC, filha de migrantes do interior de São Paulo, estudante de escola
pública. Participou do teatro estudantil e amador da região durante os anos
1980 e 1990. Moradora de Ribeirão Pires há 20 anos, é dramaturga, escritora e
condutora de Ateliês de Escrita. Filha, esposa, mãe, avó, tia, amiga. Em rede.
quarta-feira, 11 de março de 2020
Ateliê de Dramaturgia do Descarte – Sítio Cultural Alsácia
Iniciei
a pesquisa do que denominei Dramaturgia do Descarte em 2015, a partir da
interlocução entre dramaturgia e artes plásticas. A princípio, chamou-me a
atenção o descarte em grandes dimensões e sua apropriação “dramática” por
artistas visuais, como pode ser conferido nessa postagem. A seguir, a
exposição “When the courtain never comes down”, no American Folk Art Museum de
Nova York, levou-me a refletir sobre a apropriação e a reconfiguração de
descartes menores e seus equivalentes numa dramaturgia já constituída, algo que
pode ser visto nas postagens sobre os artistas RockNRoll, Eijiró Miyama e Papa Palmerino, sempre associados a autoras/es de teatro.
A
ideia principal é que, assim como a sociedade do consumo gera um excesso de materiais
descartados a serem reapropriados e ressignificados por artistas plásticos, os inúmeros
descartes da sociedade da informação geram literatura e dramaturgia.
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| Participantes durante intercâmbio de materiais |
Entre setembro e outubro de 2019 conduzi um Ateliê de Dramaturgia do Descarte no Sítio Cultural Alsácia, em Ribeirão Pires. Foram três encontros onde pudemos discutir textos teóricos, ler e analisar textos cuja poética vale-se do arranjo de descartes e, por fim, coletar materiais de fontes diversas e arriscar uma proposta formal com eles.
Dentre
a referências teóricas, tomamos da modernidade pelo olhar de Walter Benjamin a
ideia do historiador como “trapeiro” – aquele que recolhe e junta os
retalhos/acontecimentos e compõe com eles a História. De Jean-Pierre Sarrazac
tomamos o conceito de autor-rapsodo e os estudos de coralidade e de multiplicidade
de vozes no teatro, bem como os recursos compositivos da dramaturgia contemporânea.
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| Usamos a técnica de world café para a partilha de materiais |
A fruição e o estudo de poéticas do descarte contou com exemplos recolhidos em Arthur Azevedo, Ana Cristina César, Clarice Lispector, Bob Perelman, Lívia García-Roza, Tarso de Melo e Manoel de Barros. Na dramaturgia, peças de Peter Handke, Heiner Müller, Ana Luísa Santos e Victor Nóvoa.
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| Participantes do Ateliê |
Foi
proposto como atividade prática que cada participante buscasse no dia-a-dia
descartes de seu interesse nas mais diversas fontes – redes sociais em geral,
transporte coletivo, aplicativos de mensagens, buscas na internet etc – e que
montasse um dossiê.
O
material seria partilhado em grupo e se tornaria de uso comum. A partir de
certos critérios de seleção, ele seria depurado e resultaria em um projeto coletivo de dramaturgia cujos recursos poderiam ser, entre ouros, colagem e montagem, justaposição ou sobreposição, fragmentação, repetição, simultaneidade, sequenciamento.
Durante o Ateliê, compartilhei com o grupo o processo de escrita da peça "Futebol Arte", de minha autoria, cuja premissa é a dramaturgia com descartes pré e pós-eleições de 2018. Na próxima postagem do blog, apresentarei o memorial descritivo da peça, que terá leitura cênica realizada no Sesc São Caetano em 27 de março.
* * *
Agradeço a William Costa Lima e Marc Strasser por acolherem o Ateliê no Sítio mais uma vez e a todes participantes pelas trocas, fundamentais para o desenvolvimento da pesquisa.
Adélia Nicolete
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020
"No palco com Lélia Abramo" - Consultoria Dramatúrgica
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| Cartaz do espetáculo |
"No palco com Lélia Abramo" estreou! Um solo teatral concebido e interpretado por Andréia Barros e digirido por Antonio Januzelli de tanto me orgulho participar como consultora de damaturgia!
Parece que foi ontem que Andréia comentava estar às voltas com Lélia Abramo para um solo orientado pelo Janô, as paredes da copa forradas de cartolina com elementos da dramaturgia. Já naquele momento me interessei pelo trabalho. Andréia me mandou uma primeira versão do texto para ler, eu teci alguns comentários. Isso foi em 2015! E de repente aqui estamos nós com o esptáculo vivo e pulsante, com um livreto tão bem elaborado pelo professor Rodrigo Morais Leite a compartilhar processo e aporte teórico com o público.
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| Andréia Barros em "No palco com Lélia Abramo" (Foto: divulgação) |
Parece que passou muito rápido, mas a gente sabe que não foi bem assim. Sabemos o que aconteceu nesses cinco anos – e eu falo tanto do ponto de vista processual do trabalho, quanto da história desse país. Não foi fácil e não passou depressa. Ao contrário, muitas vezes achamos que não conseguiríamos chegar inteires até esse momento. Por isso é muito bom fazer este registro.
Quando Andréia e Janô escolheram Lélia cinco anos atrás, não faziam ideia do quanto seria importante trazê-la de volta para a cena hoje. Do quanto fazer teatro se mostraria verdadeiramente um ato político. Coragem, constância, perseverança, um ato de resiliência, de re-existência cotidiana – tal como o exemplo que nos foi deixado por Lélia Abramo.
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| Andréia Barros, Antonio Januzelli, Claudio Mendel e eu em uma manhã de ensaios no estúdio de Janô |
Ingressei
oficialmente no projeto bem na reta final como consultora de dramaturgia. Em linhas bastante gerais, a função de uma consultora ou
assessora dramatúrgica é trazer um olhar especializado e, mais que tudo, um
olhar de fora do processo. A partir desse olhar e do exame do material e do caminho
percorrido, faz-se uma análise, um estudo e, por fim, uma ou várias sugestões de caminhos para o trabalho. As decisões são
tomadas pelo coletivo com base nos objetivos da proposta e na experimentação.
Meu
olhar como consultora deu-se sobre várias instâncias: a Companhia Teatro da Cidade, o projeto em si, o pré-texto e as cenas já desenvolvidas. Janô pediu que em vez de uma peça
pronta, eu trouxesse a princípio o que ele chama de mapa-mundi – um planisfério
da ação, onde os elementos pudessem ser flexíveis, recambiáveis.
Conheço cannovaccio ou roteiro de ações e gosto de ter uma visão pictórica das peças antes de escrevê-las. Um mapa-mundi dialogaria com tudo isso e lá eu pude, então, expor minha visão distanciada e ao mesmo tempo muito próxima.
Apresentei um plano estrutural com passagens de tempo, fases da vida, pontos de virada, atmosferas, ritmo, etc. Tudo a partir dos objetivos da atriz e do diretor, do texto enunciado que criaram ao longo dos ensaios, da pesquisa biográfica, da cena, dos comentários e das experiências nos ensaios abertos. Nas imagens abaixo, uma ideia do que apresentei em três camadas superpostas:
Conheço cannovaccio ou roteiro de ações e gosto de ter uma visão pictórica das peças antes de escrevê-las. Um mapa-mundi dialogaria com tudo isso e lá eu pude, então, expor minha visão distanciada e ao mesmo tempo muito próxima.
Apresentei um plano estrutural com passagens de tempo, fases da vida, pontos de virada, atmosferas, ritmo, etc. Tudo a partir dos objetivos da atriz e do diretor, do texto enunciado que criaram ao longo dos ensaios, da pesquisa biográfica, da cena, dos comentários e das experiências nos ensaios abertos. Nas imagens abaixo, uma ideia do que apresentei em três camadas superpostas:
Depois
de aprovado o mapa-mundi, pude seguir com as sugestões para o texto e para a cena,
na forma de uma peça escrita a ser constantemente revista e alterada.
Nesse
sentido, a assessoria ou consultoria dramatúrgica implica em um exercício de
desapego. Diferente de autoria, a consultoria está a serviço do diretor e da
atriz, do projeto. Ela não dispensa a dramaturgia autoral, que pode ocorrer
normalmente: pode haver consultoria dramatúrgica em trabalhos que contem com profissionais
da dramaturgia.
No caso de “No palco com Lélia Abramo”, Andréia e Janô exerceram a chamada “função dramaturgia” (sobre isso ver a postagem "O que é a dramaturgia" - fragmentos de Joseph Danan ). Exerceram também o dramaturgismo – a pesquisa que envolve a produção de uma obra teatral. Minha atuação deu-se no terreno da dramaturgia enquanto especialidade.
No caso de “No palco com Lélia Abramo”, Andréia e Janô exerceram a chamada “função dramaturgia” (sobre isso ver a postagem "O que é a dramaturgia" - fragmentos de Joseph Danan ). Exerceram também o dramaturgismo – a pesquisa que envolve a produção de uma obra teatral. Minha atuação deu-se no terreno da dramaturgia enquanto especialidade.
Em
outras palavras, a partir do eixo temporal – a noite chuvosa que Andréia passou
em casa de Lélia – sugeri uma nova estrutura que, inspirada pela atmosfera da
chuva e do passar das horas, contemplasse a biografia de Lélia Abramo e, em
alguns pontos, tangenciasse a da própria Andréia. Assim, temos um período inicial
mais leve, no final da tarde, da infância e da juventude; uma fase da noite
tempestuosa e da guerra vivida na Itália, e uma terceira, da madrugada e do
estio, que corresponderia ao retorno ao Brasil e à atuação artística e política
de Lélia. Os intervalos seriam marcados por música e alguns objetos e o início
seria trabalhado com poética explícita, ou seja, abordaria o público em sua
chegada e apresentaria o projeto, suas motivações e um pouco do espetáculo a
ser visto.
Durante
todo o tempo as propostas da dramaturgia foram atravessadas pela atriz e pelo
diretor. Fiz o possível para valorizar e tornar confortável a atuação de
Andréia Barros, para compreender e atender às propostas de Janô.
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| Janô e Andréia durante ensaio (Foto: Adélia Nicolete) |
Em dezembro, a Companhia lançou o livreto "No camarim com Lélia Abramo" em São José dos Campos durante um bate-papo com a atriz, o diretor, o crítico Valmir Santos e eu. Recomendo a leitura do trabalho minucioso do professor Rodrigo Morais Leite, que pode ser acessado nesse link.
Num momento como o que vivemos, quando a educação e a cultura são desmerecidos cada dia mais, projetos como esse tornam-se faróis. Estou feliz com a conclusão do processo e com a qualidade do trabalho. Aprendi muito mais do que contribuí. Obrigada, Andréia e Janô. Obrigada Cia Teatro da Cidade de São José dos Campos. Evoé Lélia Abramo!
Adélia Nicolete
quinta-feira, 7 de novembro de 2019
Ateliê de Iniciação à Dramaturgia e ao Roteiro Audiovisual - Teatro Sesc Paulo Autran - Brasília
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| (Foto: Diógenes Tavares Rossi) |
Entre os dias 29 de outubro e 02 de novembro tive a oportunidade de desenvolver um Ateliê de Iniciação à Dramaturgia e ao Roteiro Audiovisual no Teatro Sesc Paulo Autran, em Taguatinga, Brasília.
A decisão por contemplar o roteiro audiovisual
além da dramaturgia para teatro partiu de uma conversa prévia com o gestor da unidade,
Diógenes Tavares Rossi, que identifica na região uma demanda para a área. Formamos um grupo interessado e participativo de 15 pessoas das mais variadas formações.
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| (Foto: Diógenes Tavares Rossi) |
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De posse desse material, a turma foi dividida em três subgrupos de acordo com a área escolhida (dramaturgia para teatro ou para audiovisual). Cada equipe foi motivada a criar uma rapsódia de acordo com o estudo dos materiais, livres para incluir outras linguagens e documentos.
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Os processos foram acompanhados por mim e
incluíram desde a análise dos textos criados, sua seleção por tema e/ou fio
condutor, composição por recorte e colagem, montagem, sobreposição,
sequenciamento, repetição, conforme sugerido por Jean-Pierre Sarrazac e
Jean-Claude Carrière.
Durante o quarto encontro, cada equipe
elaborou o trabalho e preparou sua apresentação ao coletivo.
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| Ensaio de leitura cênica (Foto: Adélia Nicolete) |
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| Jackson, Eva, Wallace e Wladimir testam o áudio de sua proposta (Foto: Adélia Nicolete) |
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| Rossi (de azul) auxilia na edição dos vídeos da turma (Foto: Adélia Nicolete) |
Ao final dos encontros, tivemos uma leitura dramática,
uma leitura cênica e um vídeo curto. Cada trabalho foi analisado e comentado
pelo coletivo. A orientação foi no sentido de direcionar o olhar para o “vir a
ser” de cada proposta, pois que se tratavam de primeiras versões em busca de
aprimoramento.
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| Leitura cênica do texto "E se" Rapsódia criada pelo grupo (Foto: Diógenes Tavares Rossi) |
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| Christofer faz leitura da rapsódia criada pelo grupo (Foto: Adélia Nicolete) |
Espero que o grupo tenha se sentido
estimulado a dar continuidade aos estudos e às criações iniciadas em sala. Agradeço
ao Vicente e ao projeto Sesc Dramaturgias pelo convite, ao Rossi, que cuidou de tudo com atenção e competência
ímpares, e a cada participante pela dedicação. Parabéns pelas produções! Boas escritas! Até a próxima!
Adélia Nicolete
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