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quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Mercado de São José - disputa simbólica no velho Recife


Uma das quatro portas de entrada do Mercado de São José
(Foto: Adélia Nicolete)


A todes participantes do
Ateliê de Dramaturgia e Memória do Recife



Um dos mais famosos do Recife, o Mercado de São José ocupa uma grande área próximo ao Cais de Santa Rita, onde realizamos o Ateliê de Dramaturgia e Memória entre agosto e setembro desse ano. São inegáveis seu valor arquitetônico, econômico, social e sua importância histórica como palco de várias disputas simbólicas ao longo do tempo. Por isso, consideramos tomá-lo como "disparador" de um processo criativo que resultou em roteiros de ações, narrativas e um projeto coletivo de dramaturgia. É disso que trataremos em linhas gerais nessa postagem.



"Área fria" do Mercado, destinada aos frutos do mar
(Foto: Adélia Nicolete)


Sua história remonta ao século 19, quando comerciantes se reuniam em frente à igreja de Nossa Senhora da Penha, na chamada Ribeira do Peixe, para distribuir seus produtos sob o sol, longe das condições ideais de higiene e numa atmosfera caótica. Intentava-se naquele momento a substituição dos mercados de rua e do comércio informal e popular por modelos europeus. Isabel C. M. Guillen, nossa principal fonte de pesquisa para o trabalho, informa que

“Durante décadas, investiu-se na imagem de Recife como a Veneza Brasileira, valorizando seu conjunto arquitetônico, a beleza das pontes que atravessam o Capibaribe, as linhas imponentes do Bairro do Recife, as igrejas coloniais.” *


Nessa idealização, as bancas dispostas indiscriminadamente ao ar livre, a mistura de peixe com outros alimentos e mercadorias; os pregões e as cantorias; quituteiras, cordelistas, mágicos e outros ambulantes deveriam ser banidos. 


"Foi com o objetivo de modificar hábitos e costumes arraigados entre a população recifense que a administração pública decidiu construir o Mercado de São José, edifício que, em seu projeto arquitetônico inspirado no mercado de Grenelle, simbolizava e resumia todos os ideais de modernidade, salubridade e civilidade discutidos e aspirados pela elite."

Inaugurado em 1875, não demorou muito para que sua vocação popular transbordasse. Novas barracas foram instaladas à sua volta, num processo incontrolável, gerador de inúmeros conflitos com a polícia e a administração pública. Seu projeto original foi descaracterizado pelos comerciantes na medida de seus interesses e necessidades: subdivisão de box, estreitamento de corredores, etc. 


Corredores da alimentação e do artesanato
(Foto: Adélia Nicolete)



Reformas foram feitas na tentativa de reverter o processo e, como medida para barrar mais e mais alterações, em 1975 - ano do centenário do edifício - o mercado foi tombado como patrimônio arquitônico da cidade. O tombamento, por sua vez, gerou outros tipos de conflito, agravados pelo incêndio ocorrido em 1989.

Modelo de resistência, o Mercado de São José e todo o seu entorno, segue um dos principais centros de abastecimento da cidade. É possível verificar, desde as primeiras horas da manhã, o grande afluxo de consumidores em busca de peixes e frutos do mar, de artesanato e alimentos típicos encontrados no interior do edifício. À volta dele, em carrinhos, barracas e lojas, são vendidos os produtos horti-fruti, roupas, utensílios domésticos,  bem como ervas e outros materiais destinados à fitoterapia e às práticas afrodescentes.

Foi esse o ambiente motivador de nossos estudos históricos e de nossas criações.

(Foto: Adélia Nicolete)




(Foto: Adélia Nicolete)






(Foto: Adélia Nicolete)


O processo teve início na primeira fase do Ateliê, em agosto, quando foram desenvolvidos exercícios de escrita em diversos formatos, estudos teóricos e a leitura de peças teatrais cuja temática envolve a memória. 

Durante o intervalo entre as duas etapas, o grupo se encarregou de pesquisar a respeito do Mercado de São José, de ler e analisar duas peças que viriam a ser discutidas em conjunto no mês de setembro: A moratória, de Jorge Andrade e Caranguejo overdrive, de Pedro Kosovski em colaboração com Aquela Cia. Os dois textos, distantes 60 anos, abordam de maneiras distintas a questão da disputa simbólica e sua análise prestou-se a intensivo estudo formal, registrada na postagem anterior deste blog.

O contato mais detalhado com as duas peças e o paralelo realizado entre elas foram atividades indispensáveis para o desenvolvimento do que veio a se seguir na medida em que abordaram uma série de questões. Como trabalhar com diferentes momentos históricos? Como operar com materialidades de características diversas? Como estruturar uma dramaturgia de múltiplas origens? Em que momentos o diálogo interpessoal é a melhor via de expressão na cena e quando a narrativa e os procedimentos épicos são a melhor solução? Quando abrir mão da dramaturgia verbal em nome de outros discursos tão ou mais potentes?

A próxima etapa foi dirigir-se ao Mercado e integrar-se à sua rotina num exercício de observação ativa. Os pés na calçada do Sesc Santa Rita (abrigo do Ateliê) marcaram o início do passeio. A partir dali, cada participante ativaria todos os sentidos na busca por integrar-se ao ambiente. Cheiros, sons, imagens e falas; objetos, detalhes urbanísticos e arquiteônicos, pessoas e animais; percursos, surpresas, novidades e o já bem conhecido – tudo deveria ser anotado. Conversas não estavam proibidas, tampouco entrevistas. O único delimitador era o tempo: 90 minutos.


Lidiane em observação ativa
(Foto: Adélia Nicolete)


Bruno já na etapa de observação
(Foto: Adélia Nicolete)






















Paulo André anota o que sente, ouve,
observa e conhece, após tantos anos 
como frequentador
do local
(Foto: Adélia Nicolete)





























Ytalo em seu posto de observação
(Foto: Adélia Nicolete)

Períodos de caminhada e movimento foram seguidos de observação mais alentada em um único lugar. Deixar-se contagiar pela vida pulsante do Mercado, integrar-se a ele. Ouvi-lo, compreender suas marcas e seus sinais. Dialogar de corpo e espírito com o espaço. E recolher os tesouros encontrados.


Breno em exercício de observação
(Foto: Adélia Nicolete)



Ao fundo, Anderson anota suas observações
(Foto: Adélia Nicolete)

Em sala, as anotações foram compartilhadas com o grupo e teve início uma discussão sobre possibilidades dramatúrgicas suscitadas pelo estudo histórico, pela arquitetura e pelas observações coletadas. Personagens e trajetórias foram sugeridos – fruto da observação, da pesquisa bibliográfica ou da imaginação. 


Os peixeiros e a "orquestra de facas", 
conforme observou um participante
(Foto: Adélia Nicolete)

A senhora que perambula no Mercado
(Foto: Adélia Nicolete)






O gato que virou narrador
(Foto: Adélia Nicolete)



Na sequência, cada participante decidiu-se por um determinado momento de acirrada disputa simbólica no Mercado, escolheu ou criou dois personagens e tratou de definir-lhes uma pequena trajetória naquele contexto. 

Um roteiro de ações foi criado para cada personagem e, a seguir, uma narrativa em primeira pessoa que transmitisse a experiência imaginada. Para isso, usamos como principal referência as narrativas presentes em Caranguejo overdrive, em especial as do personagem Cosme. Diálogos também estavam previstos na medida em que fossem suscitados pela ação.

Todos esses exercícios de escrita foram devidamente compartilhados e discutidos com os colegas com vistas ao aprimoramento. Sua qualidade, sem dúvida, foi fruto de todas as práticas da primeira fase, das leituras e discussões e da cumplicidade estabelecida entre todos.

A experiência culminou em um projeto coletivo de dramaturgia elaborado por três participantes do Ateliê a partir dos estudos realizados e das narrativas criadas por toda a turma. **


Lidiane, Bruno e Paulo André elaboram projeto de dramaturgia
(Foto: Adélia Nicolete)

O trio foi orientado a examinar todo o material disponível, refletir sobre as possibilidades de sua utilização e estruturar uma dramaturgia que privilegiasse a questão das disputas simbólicas. Foram solicitados o conceito geral e os objetivos do projeto; o espaço cênico e a relação com o público, assim como aspectos relativos à concepção estética, à utilização de hipertextos e de outros recursos e, finalmente, à produção.

Nosso propósito foi motivar os participantes à criação de uma rapsódia com os textos criados. A eles poderiam juntar-se músicas, fragmentos audiovisuais, material teórico, literatura, artes plásticas e tudo mais que concorresse para o tratamento teatral da memória a ser trabalhada.

A elaboração de projetos e sua "defesa" são, cada vez mais, parte integrante do trabalho de dramaturgas e dramaturgos, daí que, no último encontro, Lidiane, Bruno e Paulo André apresentaram e "defenderam" seu projeto a fim de serem arguidos pela turma. 


Equipe apresenta projeto
(Foto: Adélia Nicolete)

Esse e os demais projetos coletivos de dramaturgia criados pelo grupo mostraram-se viáveis e despertaram a vontade de vê-los realizados. Esperamos que os participantes tenham sido fisgades pela Memória como material dramatúrgico. 

Que a Arte em nosso país seja devidamente valorizada e que saia vitoriosa das tantas disputas simbólicas em que se vê envolvida ao longo de nossa História.


Parte da turma do Ateliê de Dramaturgia e Memória
(Foto: Adélia Nicolete)


Adélia Nicolete


* Todas as citações da postagem referem-se a:

GUILLEN, Isabel Cristina Martins. Mercado de São José: contando histórias em um lugar de memória. ANPUH – XXV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – Fortaleza, 2009. 

O artigo pode ser acessado nesse link.

** Outros dois projetos coletivos tiveram como base os textos criados na primeira fase do Ateliê.

Mais informações sobre o Mercado de São José, acessar o site Faces do São José.



quarta-feira, 18 de outubro de 2017

“A moratória” e “Caranguejo overdrive” – dramaturgia e memória social



Para Pedro Kosovski, 
pelo diálogo

“As regras para viver são outras. Regras que não compreendemos nem aceitamos. O mundo, as pessoas, tudo tudo agora é diferente, tudo mudou. Só nós é que não. Estamos apenas morrendo lentamente.” 
(Marcelo, em “A moratória”)

“Me desovaram no Rio de Janeiro, mas a cidade em que nasci era outra, resolvi ir atrás do mangue e dos caranguejos, mas a cidade nova (como chamavam agora) era um corpo doente, um formigueiro de operários zanzando de um lado ao outro, tudo disperso pelos ares como fumaça.” 
(Cosme, em “Caranguejo overdrive”)


Parte da turma do Ateliê - Segunda fase
(Foto: Adélia Nicolete)



Entre agosto de setembro desse ano, conduzi em duas fases um Ateliê de Dramaturgia e Memória no Sesc Santa Rita, em Recife. A fundamentação pedagógica deu-se a partir do eixo conhecer, fruir e criar e um dos principais recursos para estudo e fruição foi o estabelecimento de um dossiê de peças teatrais, todas relacionadas ao tema da memória. 

Tais obras foram utilizadas como exemplo durante os encontros da primeira etapa, mas não foram analisadas em profundidade, dado que não era esse o objetivo da proposta. Na segunda fase, porém, foram escolhidos dois textos para análise – “A moratória”, de Jorge Andrade e “Caranguejo overdrive”, de Pedro Kosovski – com a finalidade de estabelecer um paralelo entre eles que conduzisse à criação de um projeto coletivo de dramaturgia, cujo tema central conjugasse a memória e a disputa simbólica. 

Parte dessa análise poderá ser lida a seguir.


Procedimentos criativos

Para alguns pesquisadores, A moratória, primeiro texto profissional de Jorge Andrade, marca o início do moderno teatro brasileiro. Sua principal motivação foi a memória pessoal do autor – descendente de fazendeiros no interior paulista –, ampliada de modo a abarcar a memória social e dando início ao conjunto de dez textos a que Andrade chamou de Ciclo e que denominou Marta, a árvore e o relógio.

A moratória, encenada em 1955, contempla basicamente duas fases da família do patriarca Joaquim, divididas espacialmente de acordo com indicações do autor: à esquerda, uma ambientação de casa espaçosa de fazenda em 1929, período da crise da bolsa de Nova York e da queda vertiginosa do preço do café, que deixou endividados muitos fazendeiros no Brasil. À direita, três anos depois, a mesma família se encontra em uma casa modesta na cidade. Sabemos que a fazenda foi entregue a estranhos e vemos dissolver-se a esperança de uma moratória – o perdão das dívidas por parte do governo.

As personagens transitam entre um tempo-espaço e outro, levados pela memória ou por referências tais como práticas cotidianas que se mantêm quase inalteradas, por exemplo. É o leitor/espectador quem elabora a composição total do quadro, com base nas ações e nas informações que se dão a ler de modo intercalado e não cronológico.

Cenário criado por Gianni Ratto para
a primeira encenação de A moratória (1955)

Caranguejo overdrive, por sua vez, é dramaturgia criada em processo colaborativo e assinada por Pedro Kosovski em 2015. Faz parte, também ela, de um conjunto de três peças que têm a cidade do Rio de Janeiro e sua História como matéria de reflexão: Cara de cavalo, é a primeira delas, de 2012, e Guanabara canibal, a mais recente, de 2017.

O disparador criativo de Caranguejo overdrive, bem como parte de sua fundamentação, podem ser identificados na rubrica inicial da peça:

“Escrito nos 450 anos do Rio de Janeiro, em meio a disputa de territórios da cidade para realização das olimpíadas de 2016. Nessa peça, o território em disputa é o mangue, cuja extensão vai do Mangal de São Diogo (Rio de Janeiro, Cidade Nova, primeira metade do século 19) ao geógrafo Josué de Castro e o Manguebeat (Recife, décadas de 1960 e 1990).”


A resultante verbal e cênica de tais referências é marcada pela forte presença da polifonia e da polissemia. Cada figura em cena é portadora de um discurso que remonta a épocas, lugares e condições diversos. Se elas dividem o mesmo espaço-tempo cênico isso não significa que haja uma verdadeira interação. Antes, pode-se identificar uma simultaneidade de ações e o espectador (mais que o leitor, nesse caso) escolhe para onde dirigir sua atenção e formar,  não um todo coeso e comum a todos, mas uma composição particular, a depender de sua localização na plateia e mutável a cada vez que participar da experiência.


De modo semelhante, a variedade de linguagens utilizadas possibilita o estabelecimento de um complexo campo de sentidos. Nele estão presentes a música, a performance, a iluminação e seus efeitos, o texto enunciado e escrito, a voz amplificada, a improvisação. Em muitos casos, a proximidade com o público, a penumbra e a execução musical ao vivo criam um ambiente de “promiscuidade” e de “ebulição” típicas do mangue, constituindo, assim, uma outra via de sentido que passa pelo corpo do espectador e não só por sua capacidade de observação olho-cena.


Imagem que mostra o paralelismo de ações presente
no espetáculo Caranguejo overdrive



As duas peças, portanto, contemplam diferentes tempos e espaços e, para isso, valem-se de recursos épicos. Os sessenta anos que distanciam uma obra da outra cuidaram de tornar tais recursos mais complexos, bem como de marcar uma alteração significativa nos modos de fruição de grande parte do público de teatro. 


Características formais

Em A moratória, Jorge Andrade opera os recursos épicos predominantemente de duas maneiras: na manipulação não-cronológica da narrativa que leva, por consequência, à alternância espacial. 

A troca dialógica entre os personagens permanece fiel aos preceitos dramáticos e “leva a ação para a frente” com intensidade e eficiência, ainda que vá e volte no tempo. É possível identificar, ao final, uma linha clara de ação, bem como compreender o contexto a partir da manifestação de personagens definidos em sua personalidade, seus objetivos e sua visão de mundo.

Pedro Kosovski, por sua vez, tenta registrar na dramaturgia verbal de Caranguejo overdrive a simultaneidade de ações (também presente em alguns momentos bastante poéticos de A moratória), mas existe algo que escapa ao registro impresso e que dificulta essa identificação, pois é da ordem da cena. Em outras palavras, a epicização presente na peça carioca não é mais fruto da chamada “carpintaria” do dramaturgo tão somente, mas da criação compartilhada e em processo. Não bastasse, a temática geradora aponta para muitas direções e o grupo decidiu explorar várias delas, o que impossibilita, por exemplo, o fechamento de uma ideia precisa.

Em Caranguejo overdrive o diálogo interpessoal como condutor da ação é substituído pelo jogo de perguntas e respostas entre dominador e dominado – um arremedo de troca dialógica em algumas cenas. Mais que personagens, os emissores representam categorias – o soldado, a prostituta, o cientista, o policia e até o caranguejo –, em narrativas isoladas, verbais ou não, que se alternam em busca de destinatários. Algumas dessas falas não recebem sequer identificação de emissor.

Tais características, somadas às anteriormente expostas, condicionam a leitura de A moratória como próxima a uma ideia de encenação. Jorge Andrade determina espaços, cenários, movimentação e intenções dos personagens detalhadamente, de modo que ouvimos e "vemos"conforme sua orquestração, o que já não ocorre em Caranguejo overdrive. Nesse caso, o texto impresso é tributário da cena, o que dificulta, se não impede, duas encenações semelhantes, tal é o peso performativo da proposta.



Três faixas de leitura - três discursos - nesse detalhe
de Caranguejo overdrive

Em ambas as peças, temos diante de nós as angústias decorrentes da disputa simbólica e o preço social e psicológico pago pelos envolvidos. Na primeira, “a dolorosa passagem do Brasil dos fazendeiros para o Brasil urbano”, como aponta Décio de Almeida Prado, que também assinala:

"A moratória evoca o fim, frequentemente melancólico, desse processo social: divisão e perda das fazendas, com a ascenção de novas classes, facilitada por dois violentos choques: a crise do café e a revolução de trinta (...). Não compreenderá nada do alcance da peça quem nao pressentir, por detrás dos indivíduos e dos episódios particulares que ela narra, a agonia de uma sociedade em vias de transição (...). *

A disputa simbólica em Caranguejo overdrive é predominantemente aquela da mentalidade moderna e "progressista", usada como justificativa para a especulação, para as transformações urbanas em detrimento de questões sociais e ecológicas. Desloca-se a população, aterra-se o mangue, seu sustento; mantém-se uma obra por décadas a fio, a drenar os cofres públicos. 

Por outro lado, uma disputa outra se trava: a do próprio mangue e dos seres que lhe constituem. Eles fervilham sob o concreto e o asfalto, brotam  em forma de música, avisam que quando menos se espera retomarão o lugar que lhes foi tomado.



***

Esses foram apenas alguns dos aspectos analisados na segunda fase do Ateliê de Dramaturgia e Memória. Tais apontamentos nortearam os exercícios criativos, cujo tema foi o Mercado de São José, território de disputa simbólica na cidade do Recife. A esse respeito falaremos na próxima postagem.


Adélia Nicolete


O texto de A moratória pode ser acessado nesse link.

Vídeo do espetáculo Caranguejo overdrive:




PRADO, Décio de Almeida. A moratória". In: ANDRADE, Jorge. Marta, a árvore, o relógio. São Paulo, Perspectiva, 1986.



quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Ateliê de Dramaturgia e Memória - SESC Santa Rita - Recife


Turma reunida no encerramento das atividades

Durante oito encontros, divididos em duas fases entre agosto e setembro de 2017, conduzi um Ateliê de Dramaturgia e Memória no Recife como parte das atividades do programa Sesc Dramaturgias. O que segue é um resumo bem resumido do que foi a grandeza dos Encontros.


***

O objetivo geral da atividade foi trabalhar a memória na dramaturgia a partir dos três pilares da pedagogia das Artes: conhecer, fruir e criar.

Para tanto, formamos um repertório comum de peças teatrais a serem lidas por todos, de preferência previamente ao Ateliê.  Tais obras pertencem a várias fases do teatro brasileiro, apresentam-se em formatos que vão desde o dramático até as propostas menos vinculadas ao drama e têm todas a memória pessoal ou social como motivador, tema ou recurso formal. Ainda que não lidas em sua totalidade para a primeira fase, serviram como referência durante os encontros, citadas ou mencionadas em fragmentos.

Atividade escrita na primeira fase do Ateliê

Durante as sessões os participantes desenvolveram textos a partir dos seguintes princípios: memória pessoal, memória relacionada a outra pessoa, memória relacionada a objetos e, por fim, memória social. Sempre referenciadas pelas peças teatrais do acervo comum, bem como orientadas com relação à forma e a procedimentos em geral, as escritas contemplaram narrativas, depoimentos, relatos, roteiros de ação e cenas dialogadas. 

Pretendeu-se a experimentação de diferentes formatos, todos relacionados às mais diversas fontes memorialísticas, dentre elas, a pesquisa histórica.


Como ocorre em todos os Ateliês, a teoria é suscitada pela prática. Assim, os textos criados em sala são lidos e analisados por todos e as demandas teóricas são supridas de imediato sempre que possível. As orientações que antecedem a escrita dos textos são, em sua maioria, básicos da linguagem: tipos de discurso, tipos de narrador, tempos verbais, formatos, bem como esboço, roteiro de ações, estruturação, etc. Básico também é o entendimento de dramaturgia como tessitura de ações, ou seja, o texto verbal é apenas um dos fios que compõem a escritura cênica e todos os demais precisam ser levados em consideração, até mesmo o que se refere ao público. A ideia de dramaturgia como rapsódia e não apenas como diálogo interpessoal em um fluxo causal foi outro aspecto estudado tanto na análise das peças quanto na prática.


Registro da primeira fase, em agosto


O plano inicial do Ateliê era que, na segunda etapa, cada um desenvolvesse um projeto pessoal. Uma série de ocorrências, porém, motivou a mudança do percurso: muitos trabalhos escolares, outras prioridades e a participação quase maciça no III Usina Teatral promovido pelo SESC e que tinha como tema o Teatro e a Memória. O evento traria mesas de debates, oficinas e espetáculos que, se efetivamente vivenciados, poderiam estabelecer várias conexões com o próprio Ateliê.

Ficou decidido em comum acordo que no intervalo entre os dois momentos haveria participação no máximo de atividades possível do Usina. Decidiu-se igualmente que todos leriam “A moratória” de Jorge Andrade e “Caranguejo overdrive” de Pedro Kosovski a fim de traçarmos um paralelo entre as duas obras do ponto de vista das motivações, dos modos de criação, da forma como conteúdo precipitado, das disputas simbólicas presentes nos diferentes contextos, etc. E, finalmente, que seria lido um material acadêmico sobre o Mercado de São José com o objetivo de dialogar com os dois textos analisados e gerar um projeto coletivo. Assim foi feito.


Mercado de São José - parte da área de pescados

Alguns dos temas levantados na análise das duas peças foram a base para a reflexão coletiva do artigo sobre a história do Mercado. Formamos assim, a base estética e histórica para um de nossos projetos coletivos. Seguimos, então, para a deriva no local a fim de realizar uma apreciação arquitetônica, ambiental e humana: depois das devidas orientações, o grupo percorreu o lugar e realizou observações e anotações individuais, posteriormente compartilhadas com os colegas em sala - atividade que terá uma postagem específica no blog.

Desse conjunto de procedimentos, cada participante selecionou um momento de disputa simbólica relacionada ao Mercado (dentre cinco) e criou ou selecionou duas personagens a serem desenvolvidas. Da seleção resultaram dois roteiros de ações e uma narrativa ou duas, isto é, dois pontos de vista sobre uma mesma ocorrência. A essa altura, reunimos todas as pontas anteriores do Ateliê: escritas individuais em terceira pessoa, em primeira e diálogos – todos envolvendo a memória.

No último encontro, promovemos a vivência de um coletivo de dramaturgia: dividimos a turma em três grupos de acordo com as preferências temáticas dos projetos "Mercado de São José", "Personagem marcante" e "Momentos marcantes" - todos a partir da reunião dos textos individuais da primeira fase e da segunda fase do Ateliê. 

Participantes trabalham na biblioteca da Unidade
a composição da dramaturgia em grupo


Cada uma das equipes tratou de elaborar um projeto com conceito, utilização dos escritos, trilha sonora, hipertexto, definição de espaço de apresentação, entre outros detalhes, e de apresentar ao coletivo no final da sessão. Pediu-se que observassem a si mesmos e aos demais numa situação de coletivo de dramaturgia e que isso também fosse levado em conta na hora do compartilhamento geral.


***

A divisão em duas etapas permitiu que os elementos básicos fossem trabalhados na primeira semana e, amadurecidos, tornassem possíveis exercícios mais complexos na segunda fase. O grupo respondeu muito bem às proposições e espero que os encontros tenham despertado o interesse para futuras leituras, buscas e para o desenvolvimento de projetos individuais e coletivos relacionados à Memória.

Deixo aqui meu agradecimento a toda a equipe Sesc e especialmente a cada participante. A cumplicidade necessária para a formação de um coro de escrevedores esteve presente todo o tempo, o que gerou confiança para o compartilhamento, cuidado e generosidade nos momentos de análise mútua dos textos criados. Num Ateliê de Dramaturgia em que se pressupõe a horizontalidade das relações, o posicionamento ativo do coro é ponto chave para o desenvolvimento individual e coletivo. E mais, num tempo de desmontes da Cultura, saber tanta gente dedicada à reflexão e à criação é um verdadeiro alento.





A todes o meu abraço registrado e juramentado nesse blog. A declaração de amor eu já fiz pessoalmente.

Adélia Nicolete




quinta-feira, 29 de junho de 2017

II Ciclo de Estudos da Dramaturgia Contemporânea - Brasil


Para o professor Stephan Baumgartel
por sua imensa contribuição para o estudo 
da dramaturgia contemporânea brasileira


Quando iniciei minha pesquisa de doutorado em 2009, uma das questões da tese relacionava-se à possibilidade de uma pedagogia da dramaturgia fora dos moldes figurativos/dramáticos. Cumpridas as disciplinas, o primeiro passo foi me debruçar sobre a dramaturgia dita contemporânea e alguns de seus pressupostos. Para tanto, elaborei um Ciclo de Estudos da Dramaturgia Contemporânea e divulguei a amigos e ex-alunos.

Formamos um grupo de 12 pessoas que em onze encontros, de março a junho de 2010, analisamos de Samuel Beckett a Sarah Kane, além de estudar um bom número de teóricos e, não bastasse, criarmos materiais textuais e reflexivos que alimentavam um blog.

Passados sete anos daquela experiência tão gratificante surgiu a vontade de organizar um novo Ciclo, dessa vez centrado na produção contemporânea brasileira. O critério para a seleção dos textos foi bastante claro: como a dramaturgia tem respondido às questões históricas?

Silvero Pereira em cena de "BR-Trans"
Coletivo As Travestidas - Fortaleza
Dramaturgia: Silvero Pereira
Direção: Jezebel de Carli

Foram analisados ao todo seis textos que procuraram abarcar diferentes estados brasileiros; autores de diferentes raças e orientações sexuais, cuja escrita foi individual ou colaborativa. Muitos outros textos seriam possíveis, mas tivemos de nos ater a seis encontros apenas. A dramaturgia foi analisada a partir da conjunção texto escrito-encenação, seja por meio de vídeos, seja na fruição ao vivo, como foi o caso de "Mata teu pai”, de Grace Passô.

O grupo contou em média com dez participantes, que ocuparam uma das salas da Escola Livre de Teatro de Santo André entre abril e junho desse ano. “BR-Trans”, de Silvero Pereira, foi o primeiro trabalho analisado e respondeu aos recordes de violência ligada à homofobia no Brasil.

Procuramos em cada análise refletir sobre os modos como o processo criativo determinou, ainda que em parte, a configuração formal da dramaturgia. Outros aspectos abordados foram a dramaturgia dos demais elementos cênicos, a conjugação texto-cena, bem como os dispositivos e procedimentos identificados na composição.


"Caranguejo overdrive" - Aquela Cia - Rio de Janeiro
Dramaturgia de Pedro Kosovski
Direção de Marco André Nunes

A cada nova dramaturgia, eram estudados também os processos de criação e parte do material que fundamentou cada uma delas. Assim, por exemplo, para a análise de “Caranguejo Overdrive”, foram pesquisados o movimento Mangue Beat, o texto de Josué de Castro “Sobre homens e caranguejos”, o aterramento do mangue na cidade do Rio de Janeiro, críticas e outros materiais gentilmente sugeridos pelo próprio dramaturgo Pedro Kosovski.

O estudo desse trabalho corresponde às inquietações geradas pela urbanização desordenada, pela gentrificação e pela especulação em torno de obras ora justificadas pela Copa do Mundo e pelas Olimpíadas, mas que, na verdade, há séculos drenam o dinheiro público em todo país.

"Abnegação 2 - o começo do fim" - Grupo Tablado de Arruar - São Paulo
Dramaturgia: Alexandre Dal Farra
Direção: Alexandre Dal Farra e Clayton Mariano

“Abnegação 2 – o começo do fim” foi a terceira dramaturgia analisada e falou de perto ao grupo, já que foi baseada no assassinato do ex-prefeito petista Celso Daniel em 2002 e marca, ainda que sem citar nomes ou legendas, a adesão do PT aos esquemas de desvio de verba para campanhas eleitorais e para enriquecimento individual de alguns dos envolvidos.

Em paralelo, além de outros materiais, foi lido o texto “Hamlet S/A”, encenado pela Cia Estrela Dalva, de Santo André e que aborda o mesmo tema.

"Conselho de classe" - Companhia dos Atores - Rio de Janeiro
Dramaturgia: Jô Bilac
Direção: Bel Garcia e Susana Ribeiro


Darcy Ribeiro, pelos idos de 1977, afirmava que a crise da educação brasileira não era propriamente uma crise, mas um projeto. “Conselho de classe”, de Jô Bilac, foi analisada no II Ciclo de Estudos sob essa perspectiva, tendo como texto paralelo de análise “A aurora da minha vida”, de Naum Alves de Souza.

Na sequência, nos debruçamos sobre “Mata teu pai”, em cartaz em São Paulo. Não sem antes retomarmos o percurso da dramaturga e estudarmos o mito de Medeia, a peça de Eurípedes; “Gota d’água” de Chico Buarque e Paulo Pontes; “Medeamaterial”, de Heiner Müller, bem como o filme “Medea” de Lars Von Trier.

A disputa territorial, as guerras e massacres, os movimentos populacionais e o próprio patriarcado vistos sob a ótica feminina motivaram a análise dessa potente dramaturgia.


"Mata teu pai" - Cia OmondÉ - Rio de Janeiro
Dramaturgia: Grace Passô
Direção: Inez Viana

O II Ciclo de Estudos da Dramaturgia Contemporânea – Brasil foi encerrado com a análise de “Maré”, texto autoral de Márcio Abreu, encenado pelo grupo espanca! em 2015, como quarto fragmento do espetáculo “Real”.

À proposição do grupo sobre a criação de um texto que refletisse  um episódio real, Márcio Abreu respondeu de forma poética ao abordar uma família cuja rotina foi drasticamente alterada com a invasão policial do Complexo da Maré em 2013. Dada a configuração singular da dramaturgia verbal, estudamos paralelamente a peça “Sete crianças judias” de Caryl Church.

"Maré" - episódio do espetáculo "Real" - Grupo espanca! - Belo Horizonte
Dramaturgia: Márcio Abreu
Direção: Marcelo Castro

Dessa vez, o Ciclo não rendeu um blog, mas um grupo aberto no facebook onde foram disponibilizados vídeos e outros materiais de estudo. Esse grupo continua no ar e pode ser acessado aqui.

Gostaria de agradecer aos participantes pelos encontros sempre tão produtivos, aos amigos e amigas que mediaram o levantamento de materiais e, finalmente, a Solange Dias, coordenadora pedagógica da ELT pela disponibilização de um espaço.

Durante a avaliação geral do projeto foi sugerido que um III Ciclo de Estudos abordasse a dramaturgia latino-americana. Vamos a ele. Notícias em breve.

Adélia Nicolete