quinta-feira, 18 de julho de 2019

Teatro no ABC Paulista - Levantamento audio-video-bibliográfico - Parte I




Para Sônia Guedes


O desenvolvimento da arte não se faz apenas com a produção estética. É necessário que o pensamento acompanhe o fazer artístico, que reflita a seu respeito, critique, analise, dedique-se ao registro de processos. Com o objetivo de compreender o caminho percorrido pelo teatro no ABC paulista, empreendi uma pesquisa do material áudio-video-bibliográfico disponível. Que seu estudo possa iluminar nosso presente e apontar caminhos futuros.


Dentre os materiais videográficos, podemos destacar:

- "Imagens e narrativas do teatro no ABC paulista de 1950 a 1980 é parte de uma pesquisa desenvolvida desde 2003 no Memórias do ABC - Núcleo de Pesquisas e Laboratório de Produções Midiáticas da USCS. Contou com apoio CNPq para produção em vídeo desse resultado de pesquisa que parte de narrativas orais de artistas do ABC".

Programa 1

Programa 2



Programa 5


- Outra fonte videográfica é 


- Programa "Persona em foco":





* * *
                                                                         

Dentre os materiais bibliográficos levantados até o momento, destacam-se:


Livros:

ASSUMPÇÃO, Paschoalino.  O teatro amador em santo André: a Sociedade de Cultura Artística (SCASA) e o Teatro de Alumínio. Santo André: Alpharrabio, 2000.

GARCIA, Silvana. Teatro da militância. São Paulo: Perspectiva/Editora da
Universidade de São Paulo, 1990.

GRUPO DE TEATRO FORJA DO SINDICATO DOS METALÚGICOS DE SÃO BERNARDO DO CAMPO E DIADEMA. Pensão Liberdade./ Pesadelo. São Paulo: Hucitec, 1981/1982.

IANNI, Octavio. Teatro operário. In: Ensaios de sociologia da cultura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.

KHOURY, Simon. Bastidores. Vol. 19: Ney Latorraca, Sonia Guedes, Rogério Fróes. Rio de Janeiro: Frederico de Lima Brandão.

MATE, Alexandre. (Org.) Reminiscências dos 20 anos da Escola Livre de Teatro de Santo André por seus fazedores. Santo Andrá: Fundo Municipal de Cultura, 2010.

PEIXOTO, Fernando. Quando o povo assiste e faz teatro. In: GRUPO DE TEATRO FORJA DO SINDICATO DOS METALÚRGICOS DE SÃO BERNARDO DO CAMPO E DIADEMA. Pensão Liberdade./ Pesadelo. São Paulo: Hucitec, 1982.

PERAZZO, Priscila F., LEMOS, Vilma. (Org.)  Memórias do teatro no ABC Paulista: expressões de cultura e resistência. Acesso aqui.

PEREIRA, Cleiton. Antes que a margem vire beira (20 anos do Grupo Contadores de Mentira). Proac SP.

RODRIGUES, Leôncio Martins. Trabalhadores, sindicatos e industrialização. São Paulo: Brasiliense, 1974.

SADER, Eder. Quando novos personagens entraram em cena. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

SILVA, José Armando P. da. Escola de Teatro da Fundação das artes de São Caetano do Sul 1969-1982.  Santo André: Alpharrabio.
______. O teatro em Santo André 1944-1978. Santo André: PUBLIC, 1991.
______. Província e vanguarda: apontamentos e memória de influências culturais 1954-1964. Santo André: Fundo de Cultura do município de Santo André, 2000.

URBINATTI. Tin. Peões em cena: Grupo de Teatro Forja. São Paulo: Hucitec.
______. Pesadelo: um processo de dramaturgia. GRUPO DE TEATRO FORJA DO SINDICATO DOS METALÚRGICOS DE SÃO BERNARDO DO CAMPO E DIADEMA. Pensão Liberdade/Pesadelo. São Paulo: Hucitec. 1982.



- Biografias disponíveis na rede

Até a última sílaba: o teatro de Luís Alberto de Abreu

Sônia Guedes: Chá das cinco

Antonio Petrin: Ser ator


          
Dissertações e teses disponíveis na rede








Podcast:


Na segunda postagem da série, traremos o levantamento de artigos, dramaturgia, blogs, sites e outros materiais. Caso a leitora ou o leitor conheçam outras referências, por favor, entrem em contato nos comentários.


Adélia Nicolete






domingo, 16 de junho de 2019

Prefácio do livro "Entrelinhas, sinais e sentidos", de Renata Fonseca



Em 2016 teve início a primeira turma da Pós-Graduação em Artes-Manuais para a Educação, coordenada pela Profª Drª. Nina Veiga, em São Paulo. Depois de um ano e meio de curso, foram apresentados os trabalhos de conclusão e eu participei da banca de alguns, dentre os quais "Entrelinhas, sinais e sentidos", defendido por Renata Fonseca. Numa iniciativa inédita, todos os textos foram publicados em uma coleção e eu tive o prazer de prefaciar o livro de Renata - linhas que compartilho a seguir.





“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento,
o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota
em que seu pai o levou para conhecer o gelo.
Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara,
construídas à margem de um rio de águas diáfanas
que se precipitavam por um leito de pedras polidas,
brancas e enormes como ovos pré-históricos.
O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome
e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo.”

Cem anos de solidão
(Gabriel García Márquez)


Desde suas primeiras linhas, Cem anos de solidão é anunciado como um relato memorialístico. Ao longo de mais de trezentas páginas, García Márquez, por meio de seu narrador, nos levará a conhecer a família Buendía, o povoado de Macondo e, num fluxo subterrâneo de águas ora diáfanas ora lodosas, a história da Colômbia e, por extensão, da América Latina. Um romance que marcou toda uma geração de leitores e influenciou a literatura subsequente a ponto de reconhecermos sua presença em um sem número de obras, não só da ficção como também da academia – caso do presente livro de Renata Gladcheff Fonseca, fruto de sua Pós-Graduação em Artes-Manuais para a Educação.

Nossa epígrafe avisa que no tempo em que Macondo era apenas uma aldeia, “o mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo” – tal foi a motivação inicial da autora para sua pesquisa: a jovem mãe de um menino com dificuldades de audição em um contexto que não estava preparado para lidar com isso. Seria preciso muito empenho, muita procura e, principalmente, muito amor para “inventar nomes” e modos de proceder. E foi isso que ela e seu marido fizeram: saíram em busca de escolas que pudessem atender o menino.

Décadas depois, o filho crescido, casado e pai – o mundo já minimamente nomeado –, a agora pesquisadora refaz parte da trajetória a fim de verificar o panorama de “Macondo” e, por extensão, o nacional. Como estavam o Brasil e o mundo naquele período? Como estão hoje? Em que medida o tratamento dado aos alunos com dificuldades auditivas e às artes-manuais reflete a passagem do tempo?
Enquanto reflete sobre esses temas, a narradora viaja, conhece outros artistas, encontra um talentoso rapaz em seu estágio - continua a buscar ou a criar novos sentidos e trata de compartilhá-los conosco.

Conforme pede a narrativa memorialística documental, Renata parte de uma inquietação do presente para empreender buscas no território da recordação. Para conferir um distanciamento crítico ao falar de si, propõe uma narrativa em terceira pessoa, o que se mostra ao longo do texto um recurso ora crítico, ora poético, mas sempre atento ao ir e vir da memória. Como no crochê, a narradora lança a agulha por dentro do ponto já feito (uma situação do passado) e puxa o fio que, por sua vez, trama um novo ponto. Assim, ela fala da jovem que se recusou a aprender crochê com a avó, mas que agora se vê a recuperar o tempo “perdido”; volta à escola em que seu filho estudou, hoje como pesquisadora a traçar paralelos entre os modos de ensino-aprendizagem das artes-manuais. Logo adiante, volta ao livro que leu na juventude e faz outro ponto.

Não à toa Renata se propôs o desafio de desenvolver um tapete de crochê, ele mesmo um duplo artístico de seu texto: as dúvidas, os impasses, as questões da escrita, enfim, encontravam seu reflexo no “faz e desmancha” do tapete, nas pausas criativas, por exemplo. Diga-se de passagem, a memória trabalha igualmente com o “faz e desmancha”: a depender de como estamos no momento, olhamos para o passado de uma forma. Se alguém interfere numa lembrança, traz outro ponto de vista, uma informação desconhecida, desmanchamos a imagem para reconstruí-la de um outro modo.

Sob esse ângulo, Entrelinhas sinais e sentidos é uma bela conjugação de fundamentação teórica, da memória, da pesquisa empírica, da criação manual e da vida vivida. Um relato tecido com cheiros, sabores, músicas, texturas diversas, mas também com o bom humor e a ironia característicos da autora, assim como sua delicadeza. Daí tornar-se fácil a identificação.

Identificamo-nos com a jovem rebelde e mochileira, que se recusou a aprender crochê. Com a leitora atenta de García Márquez, mais tarde incansável mãe, com a profissional da enfermagem a usar as mãos nos cuidados do outro. Nos envolvemos com a avó amorosa, com a viajante, com a artista-manual redescoberta, com a estudante de pós e com a mulher aposentada que, finalmente, poderá realizar todos os sonhos que deixou à espera.

Ao final da leitura, a imagem que guardo da autora é a da eterna jovem destemida e aventureira. Na mochila agora lãs e linhas, agulhas e livros, papel e caneta – ou quem sabe um notebook – para os infinitos modos de registro. Porque há um mundo a se fazer e é preciso compreender os seus sinais, nomeá-lo e, quem sabe, atribuir sentidos a ele.


Adélia Nicolete



FONSECA, Elizabeth Renata Gladcheff. Entrelinhas, sinais e sentidos. Org. de Ana Lygia Vieira Schil da Veiga. São Paulo: Círculo das Artes, 2018. (Coleção ARTES-MANUAIS PARA A EDUCAÇÃO: aprendizagem e processos de singularização; vol. 14)

sexta-feira, 24 de maio de 2019

III Ciclo de Estudos da Dramaturgia Contemporânea



Em 2016, reuniram-se representantes de coletivos teatrais do ABC paulista para a formação de um Fórum. A pouca oferta de cursos aliada à relativa proximidade da capital, faz com que muites artistas locais tomem o rumo de São Paulo em busca de aperfeiçoamento. Por isso nosso especial interesse em promover ciclos de estudo, encontros e bate-papos na região. Entre outras deliberações do Fórum, ficou decidido que periodicamente haveria partilhas de saberes a serem conduzidas pelos próprios filiados em espaços teatrais da comunidade. 

No ano seguinte teve lugar no espaço da Escola Livre de Teatro de Santo André, o II Ciclo de Estudos da Dramaturgia Contemporânea, tendo como foco peças brasileiras. Em 2018, na sede da Cia do Nó de Teatro na mesma cidade, foi a vez do Ateliê de Transcriação Teatral e em 2019, outra vez na Cia do Nó e com produção executiva do NED – Núcleo de Experimentos em Dramaturgia – , ocorreu o III Ciclo de Estudos, cujo recorte foram os solos teatrais brasileiros. 

O projeto, seus antecedentes e objetivos, podem ser acessados nesse link. Deixo para esta postagem um registro dos encontros.




Parte do grupo durante a discussão do primeiro módulo:
biografia, autobiografia, subjetividades - solos e autoescrita performativa.
Foram estudados "Conversas com meu pai", de Janaína Leite e Alexandre Dal Farra;
"Tripas", de Pedro Kosovski e "Sonhos para vestir", de Sara Antunes,
além de textos teóricos e materiais paralelos.



No segundo módulo foram analisados solos criados a partir da literatura:
obras literárias, escritoras e escritores como base de criação.
Foram analisados  "Oe", interpretado por Eduardo Okamoto, "Alice - retrato de mulher que cozinha ao fundo", escrito pela andreense Marina Corazza e
 "Negrinha", de Sara Antunes.









(Foto: Claudia Jordão)
O terceiro módulo 
abordou solos e pesquisa :
motivações estéticas, sociais, históricas, entre outros disparadores
de pesquisa e criação.
Foram estudados "BR-Trans" de Silvero Pereira, "Eldorado", de Eduardo Okamoto e "Peixes", de Ana Régis

















No quarto e último módulo tratamos de solos e performance:
o corpo, a voz, o espaço, a relação com o público, a performatividade como elementos determinantes da criação
Na ocasião, analisamos "Farinha com açúcar - ou sobre a sustança de meninos e homens", idealizado, dirigido e interpretado por Jé Oliveira, que esteve presente
na discussão.



O quinto e último encontro foi dedicado á avaliação geral
do III Ciclo e ao compartilhamento de projetos.
Em cena a atriz Cristiane Layher Takeda
faz leitura de texto de William Costa Lima.




























Agradeço à equipe do NED e à Cia do Nó pela viabilização do Ciclo, a todes artistas que gentilmente cederam as peças, os vídeos e materiais paralelos, bem como ao diretor-dramaturgo-ator Jé Oliveira pela presença no encontro de encerramento. Obrigada a todes participantes que confiaram na proposta e “se jogaram” no estudo dos solos de modo tão vertical. 
Até o próximo!

Celebração da presença do mauaense Jé Oliveira


Adélia Nicolete

quinta-feira, 4 de abril de 2019

"O infinito é logo ali" - exposição de Mauro Yamaguti


Entre os dias 11 de março e 31 de julho as Artes Visuais do ABC paulista têm lugar de destaque no SESC São Caetano. Nesse período estará em cartaz o projeto Impulsiona, cujo objetivo é dar visibilidade a artistas da região ao propor que ocupem visualmente alguns espaços da Unidade com diferentes formas e técnicas. 

Painel de Mauro Yamaguti


O convidado para essa edição é Mauro Yamaguti. Artista plástico com atuação pedagógica também em Artes Cênicas – sua formação universitária – Mauro conjuga aspectos dessas duas linguagens na medida em que se vale de elementos da performance art na execução de seus trabalhos. Especialista em Arte-Educação, exerce atividades continuadas em escolas públicas e privadas, institutos e projetos governamentais. Desde 2006 participa de coletivas diversas em salões e pinacotecas no ABC paulista e em São Paulo. Na Mostra de Artes e Cultura, realizada em 2014 na cidade de Diadema, conquistou o 1º Lugar na categoria Artes Visuais. Em 2018, Pedaços de mim, sua primeira exposição individual, foi aberta ao público na Pinacoteca de São Bernardo do Campo.

Execução de pintura do painel externo do SESC São Caetano
por Mauro Yamaguti

A exposição denominada “O infinito é logo ali” conta com painéis em grandes dimensões criados por Mauro ao longo de vários dias, sempre à frente do público. Como sua ex-professora do curso superior, tive a grata surpresa de ser convidada a escrever o texto curatorial, compartilhado a seguir. Que seja um estímulo à visita e à apreciação do trabalho desse nosso artista. 

Mauro Yamaguti em ação na pintura do painel externo


"Ao longo dos anos, a região do ABC paulista tem se mostrado importante celeiro de Artes Visuais. Mauro Yamaguti frequentou a FAINC (Faculdades Integradas Coração de Jesus), de Santo André, e o contato com a Música e as Artes Cênicas durante o curso foi determinante para o trabalho ora apresentado. Nele Mauro conjuga aos traços ritmo e performance, o que nos remete às ações de Tony Orrico, uma de suas principais referências. 

O impulso gerador dessas obras são os distúrbios a que estamos submetidos no mundo contemporâneo. Causadas, muitas vezes, pela aceleração do tempo, pelo excesso de informação e de compromissos e pelas pressões de todo tipo, a ansiedade, a depressão, a bipolaridade e a insônia são traduzidas pelo artista por meio do movimento contínuo e exaustivo, da ilusão do preto resultante da mistura de vários pigmentos e da busca do branco como efetiva presença e não como vazio. 

Tais angústias encontram no trabalho de Mauro Yamaguti configuração, mas também antídoto, na medida em que tanto processo criativo quanto apreciação estética conduzem ao exercício de concentração e de foco, de atenção ao aqui-agora dos detalhes e nos propõem um verdadeiro convite à contemplação."

Adélia Nicolete




Com o querido e talentoso ex-aluno Mauro Yamaguti

terça-feira, 5 de março de 2019

Prefácio do livro "Artes manuais e seus encontros", de Karla Santori


No final de 2017, tive o prazer de participar da banca de Karla Santori na finalização de sua Pós-Graduação em Artes-Manuais para a Educação. O curso, sob a coordenação da Profª Drª. Nina Veiga teve lugar n'A Casa Tombada em São Paulo e os trabalhos finais resultaram em uma coleção que já é referência no assunto. Para minha alegria, Karla convidou-me também a prefaciar o seu texto, linhas que compartilho logo abaixo.




Encontros notáveis


“Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh Pireneus! Ôh caiçaras!
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!”

(Mário de Andrade)


Dentre as tantas interpretações de Trezentos e cincoenta - o famoso poema de Mario de Andrade – ao menos uma delas conversa de perto com o livro de Karla Santori ora publicado: a busca incessante de si mesmo por parte do narrador. Ao se deparar com uma das faces possíveis, outras são despertadas, dentro de si ou a partir do contato com o Outro, seja próximo, seja no Piauí ou alhures. Talvez o mais importante não seja a descoberta e sim a própria busca.

A partir da criação de uma personagem – Clara (um anagrama de Karla) – a autora empreende uma retrospectiva de sua trajetória sob o ponto de vista das artes-manuais. Numa expedição arqueológica e marcadamente poética, sai em busca de alguns encontros significativos, que muito provavelmente forjaram-na como artista, e dos objetos que os testemunharam. Na medida em que compartilha conosco cada um dos encontros, temos reveladas, por consequência, novas faces da narradora.

O recurso de utilizar-se de uma personagem alter-ego e de um narrador onisciente mostra-se libertador: com ele Karla pode tomar-se como matéria de estudo a fim de se reconhecer, se afirmar e saltar para novas buscas, afinal o livro é resultante da Pós-Graduação em Artes-Manuais para a Educação e espera-se que seja o primeiro de muitos. Além de libertador, o distanciamento narrativo permite que nós, leitoras e leitores, entremos em contato com as ações, com o que a personagem fala, pensa, intui, sonha, questiona e, se não bastasse, com algumas análises e conclusões.

“Abraço no meu leito as milhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!”


O texto de palavras tecido pela autora ao longo de cada capítulo, propõe os encontros como urdidura em que será tramada uma variedade digna de nota: lembranças e relatos; questões, reflexões e sensações; poemas, sonhos, intuições; imagens, rituais, cores, cheiros e sabores e, não bastasse, projetos para o futuro. Em sua aventura pela linguagem, utiliza-se, inclusive, de negrito e diferentes tipos de fontes e suas dimensões. Cada capítulo é uma peça singular, tem unidade, tem força, é um tecido firme e único.

E do que trata cada capítulo? Numa primeira análise, de encontros significativos em torno das artes-manuais. A autora pontua sua trajetória de vida sob a ótica do fazer artístico e nós formamos, ponto por ponto, um quadro de quem é a Karla e de como se deu o contato com as diversas técnicas, por exemplo. Poderia ser isso e a tarefa já estaria cumprida. Porém, ela não se limita a um relatório ou um depoimento. Eu diria que a Antroposofia transparece no seu trabalho na medida em que a trajetória não é abordada tão somente do ponto de vista factual, mas da totalidade que ela abarca, suas implicações mais profundas.

O livro forma, pois, um conjunto harmonioso em função de mais um expediente: os entremeios poéticos – feito aqueles entremeios rendados que servem para decorar uma vestimenta ou um trabalho bordado, mas também para arejar e dar destaque a cada unidade que agrega.


“Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo…
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.”


Falemos, finalmente, dos encontros que dão título ao livro. Conforme comentamos, são lembranças que vêm à tona, suscitadas por uma indagação do presente: quem e o que me formou e me forma como artista? Trata-se de um olhar atento e demorado para o que se viveu em fluxo a fim de se garimpar, de se trazer à luz algo de mais impressionante e compartilhá-lo. O que não for lembrado (a grande escuridão que suporta os lampejos da memória) presta-se a condensar as experiências realmente significativas.

Tais encontros preciosos, ao contrário do que possamos pensar, não se dão necessariamente com pessoas célebres. Sua importância é identificada a partir do nosso olhar de buscadoras e buscadores. O olhar é que atribui a essas pessoas um sentido capaz de completar, preencher, dar sentido à nossa empresa. E vice-versa: o encontro conosco pode igualmente justificar em parte a existência dessas pessoas. Artes-manuais e seus encontros é repleto de exemplos.

Clara tem dificuldade de se relacionar com uma colega de trabalho e, embora tente reconsiderar a aversão, parece que a antipatia é recíproca. Quando desiste de forçar uma aproximação e concentra-se em suas próprias atividades, leva para o escritório um trabalho de ponto-cruz. É o que basta para gerar a empatia da colega, que olha para ela como a uma igual, pois também aprecia as artes-manuais. Ambas iniciam uma nova relação, que cresce fortalecida, baseada no compartilhamento de saberes e fazeres que subjazem ao cotidiano profissional e se instalam na esfera do espírito.

Em outras oportunidades, a protagonista visita uma loja ou se hospeda numa pousada e aprecia o trabalho delicado das artistas-anfitriãs. Essas, por sua vez, encontram sentido em suas criações por meio do olhar da viajante e de seu testemunho. Encontros fortuitos, porém notáveis. Clara vive uma situação parecida com a dessas artistas quando traz uma menina para casa depois de um acidente automobilístico. A pequena admira as caixas encapadas com esmero – por um momento o acidente e a separação da mãe ficam em suspenso em seu coração. Fica fascinada por uma delas em especial e Clara identifica naquele olhar uma valorização inigualável de seu trabalho, tanto que presenteia a menina com a caixinha quando ela parte com o pai.

Nesses quatro exemplos, é pelo olhar do Outro que se atribui um sentido e um valor ao próprio fazer artístico. Um valor incomensurável de reconhecimento do talento e do esforço empreendidos.

As leitoras e os leitores, por sua vez, ao encontrarem o livro de Karla e suas narrativas, poderão, quem sabe, deparar-se consigo mesmos ao rememorarem a própria trajetória. Podem, além disso, sentir-se estimulados a partir pelo mundo em busca de encontros notáveis. Um dia, certamente, toparão consigo mesmos e toda a experiência vivida nos Encontros constituirá o abrigo da alma.


Adélia Nicolete




SANTORI, Karla. Artes-manuais e seus encontros. Org. de Ana Lygia Vieira Schil da Veiga. São Paulo: Círculo das Artes, 2018. (Coleção ARTES-MANUAIS PARA A EDUCAÇÃO: aprendizagem e processos de singularização; vol. 1)