terça-feira, 15 de agosto de 2017

A escrita conjura


Leonilson - "Empty man" - 1991
bordado/escrita em preto sobre "red work" familiar
Para Nina Veiga
e todas as autoras do livro
"Artes-manuais: narrativas e memórias afetivas" 


Puxar o fio da memória, alinhavar uma ideia, tecer um raciocínio, arrematar o assunto. Quanto das manualidades habitam o nosso imaginário mesmo se nunca pregamos sequer um botão? Quanto dessas práticas ancestrais escorrem pela nossa língua? “O que você está tramando, menino? Não me enrede na sua conversa! Você não dá ponto sem nó!” Quanto renasce em nossas canções? “É a sua vida que eu quero bordar na minha, como se eu fosse o pano e você fosse a linha?”
Pois foi esse o ponto inicial para a elaboração do Ateliê de Memórias e Escrita Criativa que ministrei na Pós Graduação em Artes-Manuais para a Educação em setembro de 2016. Sempre me fascinou a estreita relação entre a escrita e as manualidades, em especial aquelas ligadas à fiação. A própria palavra texto remete a têxtil, ou seja, tecido. As novelas, algumas delas capazes de parar todo um país, derivam de novelo, aquele fio que se desenrola, no caso da televisão, dia após dia, cheio de nós a serem desatados. Por falar nisso, as boas histórias têm e desenlace e se não for possível narrá-las numa enfiada só, é preciso saber cortá-las no momento certo se quisermos que o ouvinte anseie por retomar a trama.
Do mesmo modo, fascinantes são as narrativas ocultas nas manualidades. A moça que bordava o enxoval fazia conjuras de amor: a letra inicial de seu nome enlaçava-se à do noivo, ambas protegidas por uma guirlanda de flores a propiciar paixão e fertilidade nas roupas de cama. Quantas expectativas ao tecer ou bordar o enxoval da criança esperada? Na escolha dos motivos, dos pontos e das cores o desejo de saúde e sorte, a prece. Novas conjuras. E o que nos diz a mortalha, enfim? Costurada ponto a ponto, pranto a pranto, escrita de saudade e de dor.
Manualidade ancestral é também o livro que agora temos em mãos. Sua origem são peças afetivas garimpadas pelas alunas do curso e trazidas aos olhos e aos ouvidos do grupo. O que tem de especial uma toalha de mesa bordada? O que me contam uma touca, um babador ou um vestido de crochê? A peça decorativa ou utilitária, que segredos ela guarda? Quem teceu? Quem ofertou? Em que momento e por quê?
A preciosa história de cada peça foi narrada a uma colega que, com o cuidado de quem fia a seda, se apropriou do que ouviu e transformou em texto – tecido de letras e de sons. Depois de escritas, as histórias foram lidas para todo o grupo de modo a habitar cada uma das participantes e a formar, a partir delas, novas tramas. A seguir,  um grupo de diligentes editores tratou de tecer uma nova camada narrativa ao dispor graficamente textos e imagens no papel. Com isso, o livro passa a ser uma nova peça a reunir todas as outras, colcha de retalhos, urdidura em que os leitores tecerão suas próprias narrativas e memórias num enredo sem fim.
As memórias ligadas às manualidades unem os fios do presente e do passado a fim de fortalecer os laços com a ancestralidade. Ao reavivarmos nossa relação com esses fazeres ancestrais invocamos as forças que os produziram e nos apropriamos delas para seguir adiante. Que o texto escrito que daí tecemos possa conjurar, por sua vez, a volta das manualidades e todas as suas narrativas singulares ao nosso cotidiano.

Adélia Nicolete

Prefácio do livro "Artes-manuais: narrativas e memórias afetivas" a ser lançado no dia 11 de novembro próximo.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

II Ciclo de Estudos da Dramaturgia Contemporânea - Brasil


Para o professor Stephan Baumgartel
por sua imensa contribuição para o estudo 
da dramaturgia contemporânea brasileira


Quando iniciei minha pesquisa de doutorado em 2009, uma das questões da tese relacionava-se à possibilidade de uma pedagogia da dramaturgia fora dos moldes figurativos/dramáticos. Cumpridas as disciplinas, o primeiro passo foi me debruçar sobre a dramaturgia dita contemporânea e alguns de seus pressupostos. Para tanto, elaborei um Ciclo de Estudos da Dramaturgia Contemporânea e divulguei a amigos e ex-alunos.

Formamos um grupo de 12 pessoas que em onze encontros, de março a junho de 2010, analisamos de Samuel Beckett a Sarah Kane, além de estudar um bom número de teóricos e, não bastasse, criarmos materiais textuais e reflexivos que alimentavam um blog.

Passados sete anos daquela experiência tão gratificante surgiu a vontade de organizar um novo Ciclo, dessa vez centrado na produção contemporânea brasileira. O critério para a seleção dos textos foi bastante claro: como a dramaturgia tem respondido às questões históricas?

Silvero Pereira em cena de "BR-Trans"
Coletivo As Travestidas - Fortaleza
Dramaturgia: Silvero Pereira
Direção: Jezebel de Carli

Foram analisados ao todo seis textos que procuraram abarcar diferentes estados brasileiros; autores de diferentes raças e orientações sexuais, cuja escrita foi individual ou colaborativa. Muitos outros textos seriam possíveis, mas tivemos de nos ater a seis encontros apenas. A dramaturgia foi analisada a partir da conjunção texto escrito-encenação, seja por meio de vídeos, seja na fruição ao vivo, como foi o caso de "Mata teu pai”, de Grace Passô.

O grupo contou em média com dez participantes, que ocuparam uma das salas da Escola Livre de Teatro de Santo André entre abril e junho desse ano. “BR-Trans”, de Silvero Pereira, foi o primeiro trabalho analisado e respondeu aos recordes de violência ligada à homofobia no Brasil.

Procuramos em cada análise refletir sobre os modos como o processo criativo determinou, ainda que em parte, a configuração formal da dramaturgia. Outros aspectos abordados foram a dramaturgia dos demais elementos cênicos, a conjugação texto-cena, bem como os dispositivos e procedimentos identificados na composição.


"Caranguejo overdrive" - Aquela Cia - Rio de Janeiro
Dramaturgia de Pedro Kosovski
Direção de Marco André Nunes

A cada nova dramaturgia, eram estudados também os processos de criação e parte do material que fundamentou cada uma delas. Assim, por exemplo, para a análise de “Caranguejo Overdrive”, foram pesquisados o movimento Mangue Beat, o texto de Josué de Castro “Sobre homens e caranguejos”, o aterramento do mangue na cidade do Rio de Janeiro, críticas e outros materiais gentilmente sugeridos pelo próprio dramaturgo Pedro Kosovski.

O estudo desse trabalho corresponde às inquietações geradas pela urbanização desordenada, pela gentrificação e pela especulação em torno de obras ora justificadas pela Copa do Mundo e pelas Olimpíadas, mas que, na verdade, há séculos drenam o dinheiro público em todo país.

"Abnegação 2 - o começo do fim" - Grupo Tablado de Arruar - São Paulo
Dramaturgia: Alexandre Dal Farra
Direção: Alexandre Dal Farra e Clayton Mariano

“Abnegação 2 – o começo do fim” foi a terceira dramaturgia analisada e falou de perto ao grupo, já que foi baseada no assassinato do ex-prefeito petista Celso Daniel em 2002 e marca, ainda que sem citar nomes ou legendas, a adesão do PT aos esquemas de desvio de verba para campanhas eleitorais e para enriquecimento individual de alguns dos envolvidos.

Em paralelo, além de outros materiais, foi lido o texto “Hamlet S/A”, encenado pela Cia Estrela Dalva, de Santo André e que aborda o mesmo tema.

"Conselho de classe" - Companhia dos Atores - Rio de Janeiro
Dramaturgia: Jô Bilac
Direção: Bel Garcia e Susana Ribeiro


Darcy Ribeiro, pelos idos de 1977, afirmava que a crise da educação brasileira não era propriamente uma crise, mas um projeto. “Conselho de classe”, de Jô Bilac, foi analisada no II Ciclo de Estudos sob essa perspectiva, tendo como texto paralelo de análise “A aurora da minha vida”, de Naum Alves de Souza.

Na sequência, nos debruçamos sobre “Mata teu pai”, em cartaz em São Paulo. Não sem antes retomarmos o percurso da dramaturga e estudarmos o mito de Medeia, a peça de Eurípedes; “Gota d’água” de Chico Buarque e Paulo Pontes; “Medeamaterial”, de Heiner Müller, bem como o filme “Medea” de Lars Von Trier.

A disputa territorial, as guerras e massacres, os movimentos populacionais e o próprio patriarcado vistos sob a ótica feminina motivaram a análise dessa potente dramaturgia.


"Mata teu pai" - Cia OmondÉ - Rio de Janeiro
Dramaturgia: Grace Passô
Direção: Inez Viana

O II Ciclo de Estudos da Dramaturgia Contemporânea – Brasil foi encerrado com a análise de “Maré”, texto autoral de Márcio Abreu, encenado pelo grupo espanca! em 2015, como quarto fragmento do espetáculo “Real”.

À proposição do grupo sobre a criação de um texto que refletisse  um episódio real, Márcio Abreu respondeu de forma poética ao abordar uma família cuja rotina foi drasticamente alterada com a invasão policial do Complexo da Maré em 2013. Dada a configuração singular da dramaturgia verbal, estudamos paralelamente a peça “Sete crianças judias” de Caryl Church.

"Maré" - episódio do espetáculo "Real" - Grupo espanca! - Belo Horizonte
Dramaturgia: Márcio Abreu
Direção: Marcelo Castro

Dessa vez, o Ciclo não rendeu um blog, mas um grupo aberto no facebook onde foram disponibilizados vídeos e outros materiais de estudo. Esse grupo continua no ar e pode ser acessado aqui.

Gostaria de agradecer aos participantes pelos encontros sempre tão produtivos, aos amigos e amigas que mediaram o levantamento de materiais e, finalmente, a Solange Dias, coordenadora pedagógica da ELT pela disponibilização de um espaço.

Durante a avaliação geral do projeto foi sugerido que um III Ciclo de Estudos abordasse a dramaturgia latino-americana. Vamos a ele. Notícias em breve.

Adélia Nicolete



domingo, 18 de junho de 2017

Processo colaborativo - I Colóquio Trupé de Pesquisa




Adélia Nicolete, Débora Brenga e Marcelo Lazzaratto
I Colóquio Trupé de Pesquisa - Sesc Sorocaba - junho de 2016
(Foto: Adriano Sobral)



A¨retomada dos trabalhos junto ao Núcleo de Dramaturgia da Trupé de Teatro de Sorocaba, suscita o registro de mais uma reflexão compartilhada no I Colóquio Trupé de Pesquisa realizado há cerca de um ano. O primeiro registro, “O centésimo espetáculo ou O teatro contemporâneo à luz da ressonância mórfica”, pode ser lido aquiNa postagem de hoje, minha intenção é abordar o processo colaborativo numa perspectiva política.

* * *

Quando comecei a fazer teatro, no final dos anos 1970, o teatro político há pouco chegara à região do ABC. Os grupos operários, em especial o Grupo Forja de São Bernardo do Campo, sob a direção de Tin Urbinatti, propunham um novo modo de se pensar e de se construir a cena, intimamente relacionado à oposição ao regime ditatorial do período.

As Comunidades Eclesiais de Base ligadas à ala progressista da igreja católica, por sua vez, fomentavam nos centros comunitários uma série de dinâmicas com vistas à discussão e à conscientização não só dos problemas locais, como também da esfera nacional e internacional. O teatro, especialmente aquele ligado à juventude, era um dos recursos mais eficientes.

Não foram poucos os grupos amadores que nasceram desses dois contextos e seguiram, com maior ou menor intensidade, o mesmo ideário. Participantes ou egressos desses grupos, muitas vezes, atuavam nas escolas como diretores ou atores, ocasião em que disseminavam não só a reflexão e a ação teatral como também materiais teóricos e dramaturgia.

Desse modo, em pouco tempo praticamente todos discutiam, encenavam ou ao menos tinham conhecimento da existência de Brecht, Piscator, Teatro de Arena e Oficina, Boal, Guarnieri, Vianinha, Buenaventura, Dragún, em sua maioria através de textos mimeografados.


Enrique Buenaventura (1925-2003)
Diretor, dramaturgo, autor colombiano - referência latino-americana
para os processo de criação coletiva


A criação coletiva dava seus primeiros passos numa região em que o teatro amador fora sedimentado em bases intuitivas e, portanto, carecia de técnica suficiente para uma ação propositiva dos atores. Por isso, embora houvesse intenções políticas libertárias, interesse genuíno por textos de elevado teor revolucionário, bem como o desejo de democratizar as discussões por meio dos famigerados bate-papos ao final de cada sessão, a maioria dos trabalhos seguia o padrão da “montagem” tradicional.

Em outras palavras, embora o objetivo fosse a conscientização – de quem faz e de quem frui teatro – o modo de produção era alienado: escolhia-se o texto pelo seu conteúdo, mas na hora de encená-lo, distribuíam-se os papeis por questões práticas, decorava-se o texto, marcava-se a cena e, em pouquíssimo tempo, apresentava-se. A ideia de “linha de montagem” parece adequada para analisar o procedimento: cada um encarregava-se de uma parte do processo, isentando-se da experiência como um todo e, consequentemente, da possibilidade de desenvolver autonomia, ainda que relativa.


Elenco e diretor do espetáculo "Os da mesa 10", de Osvaldo Dragún
Peça subversiva levada à cena em modo alienado de produção
1980


De certa forma, ainda hoje muitos grupos reproduzem modos de criação baseados na autoridade do dramaturgo/diretor; no tratamento diferenciado do elenco, segundo o tempo de grupo ou o status na companhia; na memorização de texto, bem como nos ensaios de marcação e na estreia a curto prazo, mesmo que o conteúdo proposto seja a crítica de um estado de coisas que precisa de urgente revisão.

Herdeiro da criação coletiva e nascido na efervescência dos teatros de grupo dos anos 1990, o processo colaborativo tende a recuperar um modo de fazer mais próximo de uma experiência ao mesmo tempo estética e política. Seu contexto gerador foi o neoliberalismo e a noção de mercado que se espraiou no terreno da cultura e que veio a suscitar um sem número de coletivos criadores, todos à margem da produção convencional em teatro, música, artes plásticas, cinema, literatura, etc. Tais coletivos tinham por meta abarcar todas as esferas da criação, desde a viabilização econômica cooperativada até a divulgação e a comercialização das obras, numa relação direta com o público, sem a mediação de produtores, agentes, curadores, marchands, distribuidores, etc. 

Além do mais, a ideia de um mercado da cultura tenderia a condicionar as obras aos interesses dos patrocinadores, o que não é inédito, vide o mecenato, por exemplo, mas não pode se tornar uma regra. Por isso, naquele mesmo contexto, o Movimento Arte Contra a Barbárie foi de importância fundamental para o estabelecimento de leis de fomento a fim de assegurar a produção de trabalhos dos mais variados perfis, muitos deles, dificilmente “patrocináveis” e criados em uma outra lógica que não a dos prazos exíguos.


A horizontalização de funções permite que a ideia de hierarquia seja substituída pela de responsabilidade criativa, isto é, cada participante, embora interfira criativamente em todas as áreas, responde e assina pela sua. Os conflitos daí resultantes visam à busca de soluções cujo foco é a cena e não a satisfação de uma ou de outra subjetividade. 


"Geração 80"
Teatro da Conspiração - Santo André - 2002
Criação em processo colaborativo


A experiência em diversas instâncias e funções, além de proporcionar uma aquisição de autonomia criativa, garante o exercício permanente da alteridade – cada vez mais necessária em tempos de intensa individualização.

Mesmo quando se opera a partir de um texto teatral ou narrativo de referência, ele é o disparador das pesquisas e das criações e não o centro, como nas encenações em molde tradicional. Esse texto é experimentado, questionado, partido, invertido, complementado ou mesmo substituído por outros textos sejam eles verbais, sejam corporais, vocais, musicais, pictóricos e assim por diante. Ou seja, o princípio da fidelidade, que entende a peça teatral como o ponto para onde convergem todos os esforços, é substituído pelo princípio da equivalência, da proposição de outros textos, seja em paralelo seja em disputa.


Atores e atrizes da Trupé de Teatro de Sorocaba
ensaio do espetáculo "Das guerras de um velho baixo caos" - 2015
Criação em processo colaborativo
(Foto: Adriano Sobral)


Quando o foco é a montagem de uma peça, os esforços se dirigem a ela. Quando o foco é o processo, como no caso do processo colaborativo, constrói-se não só a obra, mas a si mesmo – a obra é também resultado da auto-construção baseada no exercício contínuo de iniciativa, experimentação,  crítica, argumentação; de alteridade, socialidade, questionamento, inquietação, autonomia.

Como anotei nas conclusões de minha dissertação de mestrado *, o processo colaborativo , mais do que um método a ser seguido ou de um ideal a ser alcançado, é busca. A depender do tipo de proposta, do tipo de grupo; das condições econômicas, das circunstâncias espaço-temporais, é sempre uma busca. E é justamente nesse exercício que reside o seu sentido.


Adélia Nicolete



* NICOLETE, Adélia. Da cena ao texto: dramaturgia em projeto colaborativo. Dissertação (Mestrado em Artes) - USP, 2005. O download pode ser feito nessa página.





quarta-feira, 19 de abril de 2017

Dramaturgia contemporânea, Maier e Basquiat



Até bem pouco tempo o que se buscava na criação ou na leitura de uma peça teatral era uma espécie de unidade compreensível composta, dentre outros elementos, por uma fábula de fácil reprodução, desenvolvida por personagens definidos e nomeados, com vontades e força suficientes para colocar uma ação ou mais ações em marcha. Tais vontades deveriam encontrar oposições ou alianças capazes de intensificar a trajetória dos envolvidos por meio de atitudes físicas concretas ou, mais ainda, pelo diálogo interpessoal responsável por mover as ações rumo a um desfecho.  É bom lembrar que tais conflitos poderiam se originar de fatores externos, mas também internos.

Começo, meio e fim definidos e reforçados pelo fluxo causal, ou seja, pela articulação contínua de causas e suas consequências, terminavam por compor uma totalidade que, por sua vez, resultava numa ideia, num ensinamento, numa mensagem que condensava e definia a obra. A maioria dos sentidos vinham já embalados e rotulados, prontos para consumo e a apreciação estética guardava uma experiência de completude que a vida em si não conhece. Algo semelhante ocorria com as artes plásticas e suas obras de caráter figurativo.

Esse tipo de composição correspondia a um tempo de grandes e inquestionáveis verdades - narrativas salvíficas que abarcavam a ideologia política, a economia, a fé, o comportamento, a vida em sociedade e tudo o mais que, assim como o drama, fazia sentido a partir de determinada conformação. Correspondia a um tempo de autoridades e hierarquias definidas e respeitadas, a começar pelo Divino, cada um a cumprir o seu papel num organograma pré-existente e sem grandes chances de alteração.


A Revolução Industrial e as consequentes transformações no mundo do trabalho e da economia, na automação, nas novas configurações de tempo e de espaço, por exemplo, bem como na troca mais veloz de informação entre as diferentes culturas foi uma das grandes responsáveis pelas alterações nos modos de criação e apreciação artísticos. As Grandes Guerras do século seguinte, em especial a Segunda, marcaram uma ruptura ainda maior com os períodos precedentes.

Assim, as artes em geral, e aqui nos interessam especificamente as artes plásticas e a dramaturgia, responderam ao novo contexto com novas formas de expressão e de comunicação. Ambas conservam estratégias compositivas semelhantes e alguns de seus elementos são comuns.

Longe de pretender esgotar o assunto ou mesmo de aprofundá-lo da maneira devida, pois que se trata de um blog, lanço a seguir alguns elementos presentes na fotografia de Vivian Maier e nas obras de Jean-Michel Basquiat e que podem ser encontradas na dramaturgia contemporânea, para além da forma dramática, conforme prometido na postagem anterior.

* * *

Personagem indefinido, pouca ou nenhuma clareza de vontades e propósitos, escassez ou ausência de "foco" correspondentes à cisão interna do homem contemporâneo.

As proposições de Freud e Jung, por exemplo, foram fundamentais para uma nova abordagem da psique humana e, consequentemente, das personagens e figuras a serem retratadas artisticamente.


Vivian Maier - Autorretrato sem data



A totalidade facilmente apreensível da obra figurativa foi, aos poucos, dividindo espaço com proposições mais livres e abertas a interpretações por vezes díspares. Esse e outros trípticos de Basquiat ilustram a independência das formas contemporâneas de um modelo exclusivo de unicidade, que bem pode equivaler ao colapso das grandes metanarrativas estruturadoras.

Assim também a dramaturgia de nosso tempo opera com a fragmentação das ações, a desarticulação tempo-espaço, com a descontinuidade, a liberdade com relação aos cânones, seja do ponto de vista estrutural, seja na utilização/disposição não dogmática dos elementos.

Jean-Michel Basquiat - Sem título - 1982
("History of the black people")













A dramaturgia que escapa aos cânones da forma dramática, tal como esse autorretrato de Vivian Maier ou a tela de Basquiat, compõe-se de múltiplas camadas de sentido, oriundas de fontes diversas e espelha o modo de vida contemporâneo, sua contínua e acelerada produção de informações, dificilmente processadas ou devidamente apropriadas pelo sujeito.

Os espetáculos resultantes desse contexto mostram-se polifônicos, em especial aqueles criados por meio de dinâmicas coletivas e que conservam, em graus variados, a voz dos propositores, e polissêmicos, na medida em que não buscam ocultar a discrepância mais ou menos acentuada dos diversos códigos, recursos ou mesmo linguagens utilizados na encenação.


Vivian Maier - Autorretrato - 1971

Jean-Michel Basquiat - Notary - 1985

A composição dessa multiplicidade de fontes e materiais pode se dar por estratégias diversas tais como reprodução e repetição, colagem, justaposição, sobreposição e montagem de elementos, tanto nas artes plásticas quanto no teatro.


Vivian Maier - Autorretrato



Vivian Maier - Autorretrato




















A tela "Glenn" (1985), de Basquiat, é um belo exemplar desse conjunto de estartégias compositivas, como se pode ver nos detalhes seguintes à obra:


Jean-Michel Basquiat - "Glenn" - 1985
Acrílica, pastel e xerox sobre tela


Desenhos fotocopiados e coloridos com várias técnicas, colados de diferentes modos e em diferentes posições:


Jean-Michel Basquiat - "Glenn" - 1985
Detalhe


Não há preocupação com um acabamento esteticamente impecável. Uma ideia de pressa, de improviso e de urgência perpassa a obra e constitui mais um elemento na composição:


Jean-Michel Basquiat - "Glenn" - 1985
Detalhe
















A presença de texto verbal, não necessariamente concatenado, também propõe uma nova fonte produtora de sentido. Tal e qual em algumas peças e espetáculos atuais, o verbo pode não se aliar ao logos, pode ser acessado pela sua sonoridade, pelo seu ritmo, pela conjugação à voz e ao corpo do intérprete ou mesmo por projeções numa tela, num corpo, num suporte, enfim, ele também, significativo.

Jean-Michel Basquiat - "Glenn" - 1985
Detalhe


Basquiat utiliza-se de outros trabalhos seus nessa composição, numa clara autorreferência, no entanto, lança mão também de citações de obras plásticas ou literárias outras, bem como de conteúdos científicos, de ilustrações de anatomia, operações matemáticas, esboços e rabiscos que remetem à rapsódia característica de boa parte da dramaturgia de nosso tempo.

Jean-Michel Basquiat - "Glenn" - 1985
Detalhe















À camada de reprografias coladas, sobrepõem-se uma pintura que, por sua vez, também recebe novas camadas e interferências. 

A tela pode ser apreciada como um todo, porém, cada fragmento, observado de perto, dá-se a interpretações específicas, de enorme riqueza.


Jean-Michel Basquiat - "Glenn" - 1985
Detalhe

À semelhanças do grande número de autorretratos produzidos por Vivian Maier, uma presença cada vez mais "vísivel" dos criadores pode ser encontrata na dramaturgia contemporânea e suas autoficções, seus depoimentos pessoais, seu teatro-documentário.

Essa presença pode tomar pequenas ou grandes proporções no quadro ficcional, pode ser única ou se desdobrar e, com isso, alterar-se, como nos exemplos abaixo:


Vivian Maier - Autorretrato - 1961

Vivian Maier - Autorretrato - 1979



Vivian Maier - Autorretrato - 1956































E porque é preciso concluir a postagem de algum modo, mesmo sabendo que o assunto dispõe de outras e mais amplas abordagens, recorro a um obra de Basquiat capaz de ilustrar a sensação de incompletude de certas obras plásticas e teatrais.

De grandes proporções, o trabalho abaixo lança vetores de sentido em todas as direções. Lembra um certo tipo de composição realizado por muitas mãos, como num processo colaborativo. Alguns detalhes fazem pensar num prazo que se esgotou, num material que não foi suficiente ou mesmo numa vontade ou energia que se esvaíram antes que a tela pudesse ser devidamente concluída.

Mais uma vez há enunciados de origens diversas, que parecem cumprir uma função de preenchimento do espaço (ou dos espaços), muito mais por um princípio estético visual que por uma ordem pensada e estabelecida previamente.

A despreocupação em recortar simetricamente a margem esquerda do papel antes de fixá-lo na tela, embora não seja suficiente para impedir uma gestalt de unidade, caracterizada pela mancha ocupada pelos grafismos, pode equivaler às estratégias de desvelamento do modus operandi da cena: os atores que permanecem à vista do público, ainda que fora da cena; as luzes e o som operados pelos intérpretes; o efeito coringa; as luzes da plateia acesas; o intervalo operacional "vazio" entre os quadros de um espetáculo e assim por diante.



Jean-Michel Basquiat - Sem título - 1986
Acrílica, colagem e pastel sobre papel sobre tela
239 x 346,5 cm

Há um número gigantesco de exemplos a serem extraídos de Vivian Maier, de Basquiat, e de outros artistas, é claro, a fim de lançar luz sobre aspectos da dramaturgia contemporânea. Tanto essa abordagem me interessa, que a utilizei em minha tese de doutoramento.

Que a presente postagem possa estimular a/o visitante a novas e ainda mais interessantes buscas.


Adélia Nicolete


Algumas referências bibliográficas:

ARNHEIM, Rudolf.  Arte & percepção visual: uma psicologia da visão criadora. 2.ed. Tradução de Ivonne T. De Faria.  São Paulo : Pioneira, 1984.

NICOLETE, Adélia. Ateliês de dramaturgia: práticas de escrita da integração artes plásticas-texto-cena. Tese de doutorado. ECA_USP, 2013.

RYNGAERT, Jean-Pierre.  Ler o teatro contemporâneo. Tradução de Andréa S. M. da Silva. São Paulo : Martins Fontes, 1998.

SARRAZAC, Jean-Pierre.  O futuro do drama. Tradução de de A. M. Da Silva. Porto, Portugal: Campo das Letras, 2002.

UBERSFELD, Anne. Para ler o teatro. Tradução de José S. Almeida Jr et al.  São Paulo : Perspectiva, 2005.


LIPOVETSKY, G. A era do vazio. Lisboa: Relógio d’Água, 1989.