sábado, 10 de outubro de 2015

Ateliê de Dramaturgia na UDESC – I – Intensivo



Entre junho e setembro de 2015 conduzi encontros mensais no Centro de Artes da Universidade Estadual de Santa Catarina, a convite do professor Stephan Baumgärtel. Os participantes vieram da graduação e da pós graduação, vários deles atuantes no programa de estágio do curso de Artes Cênicas - o PIBID.

Afeita a um padrão de encontros semanais, onde o processo se desenvolve ao longo de dois ou três meses, imaginei para o grupo de Florianópolis o trabalho em unidades, dada a distância entre um encontro e outro. Postarei um registro de cada mês nas próximas edições do blog.



* _ * _ *


A primeira das sessões foi intensiva. Durante as 8 horas, divididas entre a sexta à noite e o sábado pela manhã, os escrevedores vivenciaram o estímulo inicial, a escrita, a análise dos textos, o exercício cênico e sua avaliação. Para tanto, julguei conveniente um trabalho em torno do eu e do personagem.

O disparador inicial foi o levantamento de verbos e substantivos ligados a cada região do corpo. O objetivo foi distribuir os motivadores e as ações do personagem em lugares que não só o pensamento e a emoção. Ao deslocar a motivação da ação pudemos abordar as diversas conformações do personagem no teatro dito contemporâneo - figura, sujeito, enunciador, voz, etc. (1)


A seguir foi proposto o exercício da silhueta, baseado numa das etapas da oficina de dramaturgia Sarah Kane no Royal Court de Londres.


Silhueta - Vicente Concilio
(Foto: Vicente Concilio)

Delineado o corpo de cada participante, foram buscadas e selecionadas imagens em revistas que melhor se relacionassem com cada região do corpo. Sarah Kane desafiava os alunos a escreverem sobre si mesmos no espaço interno da silhueta. Aqui, o desafio foi a criação de um autorretrato feito com a técnica de recorte e colagem. (2)

Espera-se que o processo de criação pictórica atue como uma referência quando da criação escrita, dadas as semelhanças entre os dois tipos de composição. O escritor, tal qual o artista plástico, opera com identificação e seleção de imagens, ideias e palavras, por exemplo. Do mesmo modo, organiza esses materiais de acordo com certos critérios, valendo-se de simetria ou assimetria, ritmo, textura, oposição, contraste e um grande número de outros recursos.

Autorretrato pictórico de Vicente Concilio
(Foto: Vicente Concilio)

Ainda na sexta-feira, após a apreciação coletiva das resultantes, todos foram convidados a elaborar um autorretrato escrito a partir da composição pictórica. Haveria liberdade com relação ao gênero escolhido, mas limitação de tamanho - deveria ser um texto curto.


O exercício da escritura a partir de motivadores externos, tais como a elaboração e a apreciação de obras de artes visuais, tem como principal função o deslocamento do estímulo criativo de dentro para fora do escrevedor. Questionam-se conceitos como os de inspiração e talento e traz-se à tona a ideia de um disparador criativo, de um levantamento de materiais a serem conjugados a fim de se chegar a uma composição escrita.



Momento de escrita do texto
(Foto: Vicente Concilio)

A título de exemplo, um dos autorretratos nascidos no encontro, de autoria de Felipe Schaitel:


Schaitel e seu Duplo

Não gosto de cães. Dizem que sou frio por isso, mas não me importo. Dizem que o cão é o melhor amigo do homem, mas gatos não atacam quando veem alguém caminhando na rua. É por isso que gosto de gatos. Sou leonino e arrogante pra quem não conhece, mas de palavra. Sei honrar um acordo. Honrar o valor do tempo, da família e dos outros. Funcionam como terças e quintas na formação de um acorde, de um acordo. Sou um músico metido que carrega uma bússola no braço, para os outros.


A sexta-feira foi concluída com a leitura de todas as composições e a perspectiva de, na manhã seguinte, levá-las à cena.

Se os autorretratos basearam-se, em linhas gerais, na composição referente ao “eu” de cada escrevedor, a formação de duplas com vistas à cena teve como estímulo a elaboração do retrato de “nós”, a partir dos dois textos e de outros materiais eventualmente trazidos pelos participantes: poemas, canções e trechos literários que lhes fossem significativos.


Cena de Aline e Vicente


Cena de Marcos e Luan
(Foto: Vicente Concilio)


Cada equipe escolheu um espaço cênico que dialogasse com a proposta e, com isso, fornecesse mais um fio à dramaturgia. Um fio a tramar com o material textual escrito por eles, as citações, o corpo, a voz, as silhuetas, os verbos e substantivos, a relação com o público e tudo o mais que pudesse configurar a experiência dramatúrgica como uma tessitura de ações que não só o texto enunciado. (3)


Cena de Lara e Mônica
(Foto: Vicente Concilio)

















Cena de Camila e Stephan
(Foto: Vicente Concilio)

Cena de Gisele e Fernanda
(Foto: Vicente Concilio)


















De modo semelhante ao da criação pictórica e escrita individual, para o processo criativo da cena os participantes lançaram mão de identificação e seleção, recorte e colagem, organização, justaposição, descarte, decomposição e recomposição, edição, etc. Em outras palavras, cada dupla tratou de compor a cena com os mesmos pressupostos das criações anteriores. (4)


Cena de Mariana (foto) e Beatriz
(Foto: Vicente Concilio)


















Cena de Mariana e Beatriz (foto)
(Foto: Vicente Concilio)


















As duplas tiveram 90 minutos para conhecer o material, identificar ou arranjar 
um espaço cênico sugestivo, elaborar o trabalho, ensaiar e apresentar o trabalho ao público constituído pelos colegas de Ateliê.

Cena de Marco e Inês
(Foto: Vicente Concilio)

Cena de Erik e Ohanna
(Foto: Vicente Concilio)


Cena de Renata e Schaitel
(Foto: Vicente Concilio)



















Gostaria de agradecer ao professor Stephan pelo convite e pela interlocução, ao professor Vicente Concilio pela recepção, pela intermediação e pelos registros, e também aos corajosos participantes dessa viagem aparentemente sem rumo que é a prática de um Ateliê. Foram apresentados textos de ótima qualidade já no primeiro encontro, escritos em 20 minutos. As cenas também, sem exceção, já mostraram se não uma configuração pronta – o que seria de se espantar em tão curto prazo de realização – promessas de belos trabalhos a serem desenvolvidos.

Trata-se de uma dinâmica perfeitamente aplicável em sala de aula, tanto que alguns bolsistas apropriaram-se de procedimentos e adaptaram-nos em seu estágio com boas resultantes.

Os muitos méritos, que sejam reputados aos bravos maratonistas. As falhas, que certamente ocorreram, foram minhas e que eu possa desenvolver ainda mais os Ateliês de Dramaturgia tomando-as como baliza.


Adélia Nicolete


(1) Sobre o assunto consultar:
RYNGAERT, Jean-Pierre.  Ler o teatro contemporâneo. Trad. de Andréa S. M. da Silva.  São Paulo: Martins Fontes, 1998.
______, SERMON, Julie.  Le personnage théâtral contemporain: décomposition, recomposicion.  Montreuil-sous-Bois: Éditions Théâtrales, 2006.

(2) Dois exemplos de autorretratos exibidos na ocasião foram dos artistas 
Jean-Michel Basquiat e Leonilson.

(3) Sobre o tema consultar:
BARBA, Eugenio. Dramaturgia. In: BARBA, Eugenio, SAVARESE, Nicola.  A arte secreta do ator: dicionário de antropologia teatral. Tradução de L. O. Burnier et al.  São Paulo-Campinas: Hucitec – Unicamp, 1995

(4)Sobre esse tema consultar:
SARRAZAC, Jean-Pierre. (Org.) Léxico do drama moderno e contemporâneo. Trad. de André Telles.  São Paulo : Cosac e Naify, 2012.



domingo, 27 de setembro de 2015

Ateliê de Memórias – São José dos Campos


Fachada da Casa de Cultura Tim Lopes
(Foto: Adélia Nicolete)


A utilização de recursos literários para a escrita memorialística foi o tema principal do Ateliê de Memórias, conduzido no dia 26 de setembro na Casa de Cultura Tim Lopes, em São José dos Campos.

Todos nós, em alguma circunstância, nos utilizamos da escrita para registros de momentos de nossa vida. Agendas e diários são exemplos clássicos desse tipo de texto. Utilizados como pura forma de expressão ou simples anotações, não objetivam o compartilhamento e, portanto, prescindem de tratamento literário. Ao pretendermos a comunicação desses escritos aos leitores de modo a diverti-los, emocioná-los ou convidá-los a conhecer um pouco mais sobre nossa história (de nossa família, comunidade ou até de um animal de estimação*, etc), faz-se necessária uma série de elementos, todos eles utilizados também na ficção.


Atividade escrita
(Foto: Adélia Nicolete)


É como se, diante do material disponível que é a nossa vida ou uma fatia dela, nos tornássemos um Autor diante de Outro ser, cuja história trataríamos de narrar.** Esse Autor lançaria mão de recursos tais como organização e encadeamento dos fatos e ações; suspense e criação de expectativa em certas ocasiões, metáforas e imagens poéticas em outras. Ele daria um colorido ainda mais cômico a passagens engraçadas e poderia trabalhar um ritmo vertiginoso em trechos de aventura. Fatos excepcionais poderiam ganhar tons que os tornassem mais fantasiosos e o que misterioso fosse, ganharia ares de Filosofia.

Por vezes lembramos de passagens de nossa vida com tantos detalhes, que as recriamos em imagens, sons, cheiros, sabores e outras sensações físicas. O Autor pode transmitir esses e outros detalhes em seu texto, a fim de convidar o leitor para senti-los como nós os sentimos. ***



Atividade escrita
(Foto: Adélia Nicolete)

A pesquisa é outra grande aliada quando se quer tornar o texto memorialístico ainda mais interessante.**** Dados históricos, hábitos e expressões de época, por exemplo, são capazes de provocar grande empatia no público leitor.***** São dados que se prestam, inclusive, a preencher lacunas ou a justificar ações e comportamentos citados na narrativa.

Ao criar um Narrador para a nossa história, o Autor poderia propor a narrativa em primeira pessoa, fechada nas próprias lembranças ou, por que não, um diálogo direto com o leitor, tornado cúmplice.



Jogo de cartas utilizado para a criação dos textos

Logo após a explanação teórica, foi proposto um jogo a fim de estimular a memória, a criatividade e a atividade escrita. A partir do sorteio individual de três cartas, cada uma delas contendo um “quem”, um “quando” e um “o que”, os participantes trataram de lembrar-se de alguma situação de sua vida ou de alguma história conhecida que envolvesse os três disparadores. Em seguida, organizaram e escreveram suas narrativas, levando em conta, se possível, os recursos literários discutidos previamente.

Jogo concluído ao lermos os 30 textos memorialísticos cuja abordagem variou entre a fantasia, a comédia, o erotismo, o romance, o terror, o poético, o nostálgico, alguns deles a mais pura ficção!


Atividade escrita
(Foto: Adélia Nicolete)

Agradeço a todos os escrevedores pela presença e pelas memórias compartilhadas, à Erika, Poliana e Claudiomar da Casa de Cultura pelo convite e pela recepção, e ao Wangy Alves que, mesmo ausente, esteve presente.


* Como exemplo, indicamos a leitura e "Flush - biografia de um cão", de Virginia Woolf

** Sobre o tema, consultar o capítulo sobre Biografias em "Estética da criação verbal", de Mikhail Bakhtin

*** Citamos, nessa altura, "Seis propostas para o próximo milênio", de Ítalo Calvino


**** Citamos como exemplo a pesquisa realizada por José de Souza Martins para a realização de seu livro autobiográfico "Uma arqueologia da memória social"

***** Recomendamos a leitura de "Nu, de botas", relatos da infância de Antonio Prata




Adélia Nicolete

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Eijiró Miyama


Eijiro Miyama, Yokohama, 2013 
(Foto: Nadya Lev)


Nossa quarta postagem sobre artistas que operam com descartes é dedicada a Eijiró Miyama (Japão, 1934), um trabalhador da construção que somente depois de se aposentar começou a dedicar-se às artes plásticas e à performance.



Eijiró Miyama em uma rua de Yokohama - 2014
(Foto: Mario del Curto)


Com um orçamento bastante restrito, Miyama vive em um apartamento minúsculo na periferia de Yokohama. É em seu quarto, que mede cerca de 2m x 4m, que ele armazena cuidadosamente os adereços utilizados em suas apresentações. Uma cadeira reclinável serve de cama, um televisor, de diversão, e o vestíbulo guarda ferramentas e sucatas. Devido à falta de espaço, é na cobertura de seu prédio que o performer ensaia.

Eijiró Miyama no telhado de seu prédio em Yokohama - 2009
(Foto: Mario del Curto)

Tudo começou com os chapéus, feitos a partir de tigelas de macarrão instantâneo decoradas. Aos poucos seu trabalho foi aprimorado e hoje os mais diversos adornos vêm de todos os lugares: doações de amigos e de estranhos, mercados de pulgas ou mesmo do lixo.


Eijiró Miyama
(Foto: internet)

Segundo o fotógrafo e colecionador Mario Del Curto, “Miyama-san tem muito senso de estilo e faz escolhas sofisticadas para seu figurino: tal chapéu combina com tais óculos; tais óculos fazem conjunto com tal vestido, tal flor vai com tal chapéu. Tudo é codificado." - o que toma tempo, mas é o grande  prazer  do artista. *


Eijiró Miyama
(Foto: internet)

Miyama ensaia durante a semana e quase todos os domingos sai, em sua bicicleta, para exibir-se pela região ou em Tóquio. A ação é simples: espalhar mensagens de paz por onde anda – “sua personagem e aparência são como uma pequena pedra no sapato da conformidade.” *

_ “Residentes de Yokohama, residentes do mundo, olhem para mim e aproveitem!” *

Eijiró Miyama
(Foto: internet)

Ao pensarmos em uma possível “dramaturgia” de seu trabalho, seja em termos estéticos seja em termos procedimentais, ocorre-nos alguns textos do ator, diretor e dramaturgo santista Victor Nóvoa, em especial Verniz náutico para tufos de cabelo, escrito em 2014, encenado e publicado em 2016.

Logo na rubrica inicial, Nóvoa apresenta as personagens e situa o leitor no ambiente em que se dará toda a ação, o que, sem dúvida, remete ao universo de Miyama:

“Escuridão total. Sons de um corpo se debatendo no chão e vozes de duas mulheres tentando ajudar. Silêncio total e prolongado. Vê-se apenas uma seringa sendo preparada e aplicada no braço da Mulher Inerte. Aos poucos revela-se uma cozinha abarrotada de utensílios domésticos, todos os tipos, tamanhos e cores de quinquilharias para casa, as duas personagens mal conseguem se mover no meio desta enorme bagunça. A sensação de claustrofobia e dificuldade de movimentação dentro da cena irá se estender por todo o espetáculo. De um lado das quinquilharias está a Cuidadora, ela amarra fitas cor-de-rosa em um cartão com tufos de cabelo. Filha da Mulher está arrumando uma mesa de aniversário e tentando abrir um espaço para colocar cadeiras para os convidados, faz isso enchendo bexigas. Um contrarregra irá colocar mais objetos no decorrer da cena; os objetos devem ser colocados de forma que atrapalhe a movimentação das personagens.” **


Cena do espetáculo Verniz náutico para tufos de cabelo
(Foto: Alécio Cezar)


Ao longo da peça, percebemos que os objetos acumulados no pequeno espaço são o duplo concreto do acúmulo ideológico da personagem Filha da Mulher e, por extensão, do acúmulo a que todos nós estamos submetidos.

O consumo e o ritmo veloz que caracterizam o viver contemporâneo, em especial nas grandes cidades, bem como a imensa variedade de estímulos ao nosso alcance, podem nos impedir de viver em profundidade as experiências de fruição ou mesmo de relação interpessoal. Assim, o que pensamos, sentimos e dizemos é, por vezes, muito mais reativo que ativo, isto é, trazem a chancela do provisório e do descarte:


“Cuidadora procura as bexigas por entre as quinquilharias. Não acha. Silêncio.

CUIDADORA — Está difícil de achar.

FILHA DA MULHER — “A felicidade de encontrar algo é muito maior quando nos esforçamos sozinhos”, Pedro Bial.

Cuidadora continua procurando e seu corpo fica afundado no meio dos objetos, está visivelmente com muita dor.

CUIDADORA — Sabe se tem algum lugar em que possa estar?

FILHA DA MULHER — Oh, meu Deus, estou aqui concentrada nas lembrancinhas, tenta naquele armário.

Cuidadora vai até o armário e abre. Caem muitos objetos dele. Ela acha as bexigas e as entrega à Filha da Mulher.

FILHA DA MULHER — Encha bexigas, duvido que seu dente doa agora. Concentre-se, “Todo ofício leva à metafísica”, Dostoiévski. Esta eu li numa revista especializada em cupcakes.

Cuidadora começa a encher uma bexiga.” **


Se Miyama seleciona, recolhe e estabelece combinações e funções para a sucata encontrada na rua, dando-lhe um sentido artístico, mas ao mesmo tempo crítico, o material recolhido por Nóvoa é de outra ordem. À parte a sucata que se acumula no apto da personagem, são as frases e comportamentos estandardizados o que plasma a dramaturgia da peça - metáforas que se complementam. Em outras palavras, quando tudo passa a ser consumido apenas e não verdadeiramente assimilado e apropriado, o que se tem é o esvaziamento. Segundo Nóvoa, “o discurso se esvazia e ficamos apenas com o verniz, daí que Pedro Bial e Dostoiévski tornam-se a mesma coisa”. Aliás, coisificação parece ser um termo bastante adequado nesse contexto.

Detalhe do cenário do espetáculo Verniz náutico para tufos de cabelo
(Foto: Alécio Cezar)


“FILHA DA MULHER — Então. Todos terão uma lembrança linda e macia da mamãe. Aliás, está na hora de arrumar mamãe pra festa.

A Filha da Mulher procura sua Mãe e remove muitas quinquilharias.

FILHA DA MULHER — Pare de pendurar bexigas e me ajude a procurar mamãe.

Cuidadora a ajuda a procurar e remove muitas quinquilharias sem achar a Mulher Inerte.

FILHA DA MULHER — Sempre deixei minha mãe entre os CDs de axé e as enciclopédias Barsa e Conhecer. Agora vejo os CDs e as enciclopédias e nada de mamãe. Você tirou alguma coisa do lugar?

CUIDADORA — Você pediu para limpar as enciclopédias, mas tomei todo o cuidado de colocar no mesmo lugar.

FILHA DA MULHER — Pelo jeito todo o cuidado que você tomou não foi suficiente, senão minha mãe continuaria entre os CDs e as enciclopédias.

CUIDADORA — Hoje está sendo um dia péssimo, talvez eu...

FILHA DA MULHER — Qual é sua função nesta casa?

CUIDADORA — Cuidar da sua mãe.

FILHA DA MULHER — Então não se meta a limpar as coisas.” **


É como se o que restasse das vivências e dos contatos com o mundo fosse somente a espuma, o que é superficial. Assim, a relação patroa-empregada se desumaniza tanto quanto a relação mãe-filha. Daquela, resta a exploração e a insensibilidade, desta, o verniz de uma comemoração de aniversário sem sentido.

Curiosamente, a ideia original para o texto surgiu de uma situação vivida pelo dramaturgo: na festa de aniversário de uma moribunda, os convidados eram levados a posar com a aniversariante, obrigando-se a um sorriso “envernizado”. A partir dessa potente imagem geradora, Nóvoa recuperou cheiros, sensações e outros estímulos que, “friccionados” entre si, agregados a outros materiais e sujeitos a interferências externas de parceiros, geraram a peça. Um excelente exemplo de dramaturgia do descarte.


"CUIDADORA — Olha... Hoje está sendo um dia péssimo, não consigo me concentrar em nada, cada palavra que você fala fica girando demais antes de eu entender, talvez seja o dente, deixa eu...

FILHA DA MULHER — Achei mamãe.

(Por debaixo de muitos objetos está uma maca de hospital e em cima dela a Mulher Inerte, completamente paralisada, mas com olhos abertos)

FILHA DA MULHER — Vamos deixar a mamãe mais bonita do que já está pra festa. Afinal, ela é a aniversariante. “Cada ano que passa ela fica mais velha”, de quem será esta frase? Tem umas coisas profundas que gritam dentro da gente e ninguém sabe quem criou. Bonito, né? Me ajude a trocá-la. (Silêncio) Me ajude a trocá-la." **

Cena do espetáculo Verniz náutico para tufos de cabelo
(Foto: Alécio Cezar)



Adélia Nicolete



Eijiró Miyama pode ser visto em ação nos endereços abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=3NKVuYaeSUk

https://www.youtube.com/watch?v=Q9OTrJVzdxw



* DEL CURTO, Mario. Eijiró Miyama. In: AMERICAN FOLK ART MUSEUM. When the curtain never comes down : performance art and the alter ego.  New York: American Folk Art Museum, 2015.  p. 81 (Tradução de Bernardo Abreu)

**  NÓVOA, Victor. Verniz náutico para tufos de cabelo. São Paulo: Giostri, 2016.

(Obs: essa postagem foi atualizada em 27 de janeiro de 2017)

sábado, 29 de agosto de 2015

Raimundo Borges Falcão


Raimundo Borges Falcão com a fantasia "Tubarão Azul" - 2000
(Foto: Dimitri Ganzelevitch)


Na sequência de nossas ponderações acerca do descarte nas artes visuais e na dramaturgia, apresentamos hoje o baiano Raimundo Borges Falcão, com nascimento provável no final dos anos 1940 e praticamente desconhecido entre nós.

Analfabeto, até onde se sabe, Raimundo morava sozinho em um barraco de madeira sem janelas, na periferia de Salvador. As sucatas por ele coletadas lotavam sua moradia do chão ao teto e eram utilizadas com uma única finalidade: a confecção de fantasias para o carnaval. Apenas uma vez por ano, aquele homem aparentemente banal destacava-se por força de sua arte. Atravessava o centro histórico da cidade em seus patins artesanais, exibindo orgulhosamente uma fantasia em que, por exemplo,

 “bonecas de plástico tornam-se sereias brilhantes em um exótico chapéu: esculturas de peixes envolvidos em papel alumínio dividem espaço com um cavalo marinho dourado e um polvo cintilante; caranguejos cravejados de lantejoulas estendem suas garras; capa, saia rodada e pulseiras que se parecem com algo pego na rede de pesca de um mágico; e os cetros que lembram os de Orixás, cujas representações em vestes brilhantes seguram bastões e espelhos que simbolizam seus poderes.” *

Raimundo Borges Falcão - Sem título - 1999
Adereço de cabeça de uma fantasia composta de onze partes

À parte dos cordões, blocos e trios elétricos que invadem a cidade durante os festejos, Raimundo preferia realizar uma performance solo, movendo-se em um ritmo particular. Por um lado, a multidão. Por outro, o homem único – um excêntrico em descompasso com a maioria.


Embora suas fantasias tivessem um significado claro apenas para ele, ainda assim podia-se identificar nelas profundas raízes na cultura afro-brasileira. Para Beate Echols, colecionadora de sua obra e estudiosa de seus trabalhos, as criações de Raimundo Borges Falcão parecem um altar a Yemanjá, a “mãe das águas”, venerada no Brasil. São verdadeiras esculturas, onde os objetos de descarte são como oferendas: “seus trabalhos, como de outros tantos criadores da diáspora afro-atlântica, sugerem uma memória coletiva em montes de sucata, que em grande parte da África está nos túmulos ou portais para o reino dos antepassados.” *

Nunca tinha ouvido falar desse artista até uma visita à exposição When the curtain nevers comes down: performance art and the alter ego (Quando as cortinas nunca baixam: a arte da performance e o alter ego, no American Folk Art Museum, de Nova York. A referência brasileira de trabalho com descartes era Arthur Bispo do Rosário – também presente na mostra. Ali pude encontrar não só os dois compatriotas, como diversos outros criadores do mundo todo, que, desde o século 19, dedicaram-se ao reaproveitamento de resíduos em seu trabalho artístico e de reordenação do mundo.

Foram homens e mulheres diagnosticados com algum tipo de distúrbio psicológico, internos em manicômios ou simplesmente vivendo à margem, como foi o caso de Rock N Roll, citado na postagem anterior, ou o de Raimundo Borges Falcão, entre outros. O fato é que todos produziram obras de inegável valor estético e, se não bastasse, exibiam-nas em performances particulares ou públicas.


Raimundo Borges Falcão - Sem título - 1999
Colar de uma fantasia composta de onze partes


Há quem defina esse tipo de trabalho como uma tentativa de organização das próprias estruturas internas que, de outra forma, entrariam em colapso e impediriam a sobrevivência dessas criaturas. Em todo caso, vale indagar se o processo de criação de pessoas tidas como “normais” também não passaria por essa mesma tentativa.

Numa sociedade como a nossa, que prima pelo desejo/consumo em todos os seus níveis, o volume de descarte físico e simbólico é incomensurável. São poucos os que conseguem sair incólumes do bombardeio diário de estímulos, cobranças, pressões externos e internos de que somos alvo. A criação e a fruição artísticas, a meu ver, apresentam-se como uma espécie de bunker, um abrigo para que se mantenha a sanidade mínima em tempos de guerra como os nossos.

Nesse sentido, o trabalho com o lixo contemporâneo é não só uma questão de criação estética, mas de sobrevivência pessoal e social, pois passa pela sua identificação, compreensão, articulação e “devolução” à sociedade como uma espécie de aviso ou de tradução (ainda que, por vezes, enigmática), como uma saída, ou como uma placa a indicar a direção do bunker mais próximo.

Adélia Nicolete


* ECHOLS, Beate. Raimundo Borges Falcão. In: AMERICAN FOLK ART MUSEUM. When the curtain never comes down : performance art and the alter ego.  New York: American Folk Art Museum, 2015.  p. 43 (Tradução de Bernardo Abreu)




domingo, 16 de agosto de 2015

Rock N Roll - um performer do descarte



                                       À turma do Ateliê de Dramaturgia da UDESC,
com quem primeiro dividi Rock N Roll



Dele não sabemos a identidade oficial, apenas que se autodenomina Rock N Roll e que nasceu nos Estados Unidos em 1942.

Assim como o renomado escultor John Chamberlain, de quem falamos nas postagens anteriores, Rock N Roll fez da cidade de Detroit sua morada desde, no mínimo, os anos 1960. É lá que apresenta performances em shows ao ar livre ou em eventos esportivos, com o figurino por ele mesmo confeccionado. Também como Chamberlain, faz da sucata matéria-prima para sua arte.


Rock N Roll - Calças - meados dos anos 1990 - técnica mista
(Coleção Lisa Spindler) 



Artista de rua, totalmente fora do circuito, tornou-se relativamente conhecido após ter sido “descoberto” pela fotógrafa Lisa Spindler: “Conheci Rock N Roll em uma esquina em Detroit em meados dos anos 1990. Ele estava parado, sozinho, reluzindo da cabeça aos pés com as colagens de objetos coloridos, que havia costurado em suas roupas imitando joias. Esse foi o começo de nossa amizade e da minha coleta de seu trabalho.” *


Rock N Roll desenvolveu uma rotina diária de criação no minúsculo apartamento em que mora. O material que recolhe – sucata, doações, descartes – sempre de pequenas dimensões, é cuidadosamente separado e guardado em sacos de papel, eles também de segunda mão. Cada objeto terá um destino específico e poderá ficar por longo tempo à espera, até que o artista encontre uma roupa adequada para recebê-lo. Essa adequação dependerá do show e de sua importância, por exemplo, mas também do tipo de efeito que se queira causar ou do que se desejará dizer com o figurino:

“Olhando suas obras, pode-se facilmente detectar referências a eventos passados e presentes, política, música, cultura pop, fatos memoráveis e históricos. Suas roupas se tornam uma colorida tapeçaria de mensagens em tecido, memórias e histórias – tudo cuidadosamente pensado e costurado com uma intenção.” *


Rock N Roll - Camisa (frente) - início anos 2000 - técnica mista
(Coleção Lisa Spindler) 

As performances de Rock N Roll provocam estímulos sensoriais: música no alto-falante, dança; cores, brilhos e ruídos do figurino. Há interação permanente com o público, à vontade para se aproximar e ver de perto seus trajes, o que estimula conversas sobre memória, música e arte com espectadores de todas as idades. 

À primeira vista, parece que suas composições atraem pelo excesso. De perto, no entanto, elas têm a capacidade de sugar o espectador para outra dimensão – aquela do artesanato, da seleção e da organização meticulosa dos materiais,  da composição quase ritualística não apenas de uma peça, mas de um sistema, com suas regras e seus códigos, e com finalidades determinadas, entre elas, a de provocar encantamento. Faz-me lembrar a relação que Walter Benjamin estabeleceu entre o narrador e o catador de lixo ou sucata, figura miserável que coleta os restos urbanos como forma de sobrevivência, mas também para não deixar que as coisas se percam, que deixem de cumprir o seu destino, reintegradas ao mundo.

Ao contrário de John Chamberlain, que trabalha com sucatas de grandes peso e dimensões, Rock N Roll é o catador de bugigangas, as que pode armazenar em seu quarto/ateliê de subúrbio. Ambos compõem narrativas de grande poder comunicativo,  mas um deles veste suas criações e com o corpo e a voz oferece ainda mais textos à leitura do público.


Rock N Roll - Camisa (frente) - início anos 2000 - técnica mista
(Coleção Lisa Spindler)

Cada uma das peças de Rock N Roll é capaz de me fazer pensar sobre a dramaturgia, sobre o verdadeiro trabalho artesanal que é compor a partir de materiais previamente pesquisados, coletados, selecionados e organizados criteriosamente. O dramaturgo, assim como o artista plástico, opera com materialidades - imagens, dimensões, espacialidade, perspectiva, profundidade. Opera com simetria e assimetria, equilíbrio ou desequilíbrio, luz e sombra, claro ou escuro. Utiliza recorte e colagem, justaposição, sobreposição, repetição; alinhava, enreda, costura, borda, aplica, arremata. Considera tempo e espaço, duração, ritmo, pausas, intensidades, e assim por diante.

Heiner Müller, em "Descrição de imagem", por exemplo, compõe um bloco de escrita - um único parágrafo de seis páginas, verdadeiro suporte em que agrega elementos/imagens os mais diversos. O todo nos causa uma impressão caótica, excessiva. É na aproximação que somos capazes de reconhecer o trabalho meticuloso do dramaturgo, de identificar (ou pelo menos supor) as referências, as simbologias presentes no caudal de palavras/imagens. O trecho inicial dá-nos uma pequena amostra da composição, desafiadora de uma transposição para a cena:

"Uma paisagem entre estepe a savana, o céu de um azul prussiano, duas nuvens imensas flutuando lá dentro, como que unidas por esqueletos de arame, em todo caso de estrutura desconhecida, a maior, da esquerda, poderia ser um animal de borracha de um parque de diversões que se desgarrou de seu guia, ou um pedaço da Antártida em seu voo de regresso, no horizonte uma serra plana, à direita na paisagem uma árvore, num olhar mais preciso são três árvores altas distintas em forma de cogumelo, tronco com tronco, talvez de uma raiz, a casa no primeiro plano mais produto industrial que manual, provavelmente concreto (...)" **


Como bom "dramaturgo", Rock N Roll também escolhe cada elemento em função de seu objetivo, há intencionalidade em suas decisões. O bordado e a costura de cada objeto compõem não só um figurino rapsódico, mas uma narrativa igualmente fragmentada e determinada por texturas, materiais, tamanhos, origens, localização e efeitos diferentes.


Para além dessas reflexões formais, vale abrir um outro campo, a ser explorado oportunamente: quantos e quais têm sido os descartes à disposição do dramaturgo nos dias de hoje, como eles podem ser articulados e com vistas a quais objetivos? Creio que valha a pena uma investigação melhor direcionada a esse tema que, valendo-se de estratégias de composição ligadas a outras linguagens, precipite-se em formas além do drama e nos leve a narrativas reintegradoras.

Adélia Nicolete



*  SPINDLER, Lisa. Rock’n’Roll. In: AMERICAN FOLK ART MUSEUM. When the curtain never comes down : performance art and the alter ego.  New York: American Folk Art Museum, 2015.  p. 104 (Tradução de Bernardo Abreu)

** MÜLLER, Heiner. Descrição de imagem. In: MÜLLER, Heiner.  Medeamaterial e outros textos. Trad. de C. Roehrig e M. Renaux.  São Paulo: Paz e Terra, 1993. p. 153-159