terça-feira, 10 de junho de 2014

Os fios do texto no teatro


A palavra texto, que estamos habituados a associar à palavra, é da mesma família da textura, da tessitura, do tecido, enfim. Não é à toa que para o povo dogon da África ocidental, a tecelagem, atividade de importância primordial para a comunidade, é assimilada à palavra. Segundo a tradição, a primeira palavra foi a primeira faixa de algodão tecido, que jamais deverá ser cortada.

Para aquele povo, do mesmo modo que a tecelagem é a união de fibras, o ato de falar firma a vida social. Cada instrumento ou etapa da ação de tecer, por exemplo, corresponde a um órgão ligado à palavra. Assim, a polia está associada às cordas vocais – por causa do som, do rangido –, o tecer está associado à boca, a lançadeira à língua, e o pente aos dentes. O tecido é entendido como um conjunto de palavras em que os fios se entrelaçam como os elementos da linguagem, animados pelo ranger da polia, o barulho dos tensores e da lançadeira. O trabalho de tecer evoca um discurso, uma fala cujo sentido é revelado pelos motivos que aparecem no tecido.


Tecelões dogon - 1986-1987 - foto: Hélène Leloup
Museu do Quai Branly - Paris, 2011


É assim também com o texto teatral, entendido aqui como a escritura/tessitura geral do espetáculo e não somente como aquilo que é emitido vocalmente pelos atores. A encenação é a trama de fios diversos, cada um com a cor e a textura que lhes são próprias. Em grande parte dos casos há, sim, o fio da palavra falada. No entanto, a leitura total da obra se dá graças ao entrelaçamento dos fios da luz, das sonoridades e da gestualidade, os fios da configuração cênica, dos cenários e objetos, do visagismo e tantos outros. Não é à toa que em teatro usam-se termos tais como “costurar ou alinhavar as cenas”, “arrematar”, “não deixar fios soltos”, por exemplo.

O momento culminante de qualquer trabalho dessa natureza dá-se no contato com o público. Tal qual um tecelão, cabe ao espectador, no contato com a obra, completar a seu modo o enredo com os fios de sua experiência, de sua formação, de sua memória. Há, inclusive, espetáculos ou perfomances até certo ponto “incompletas”, pois permeáveis à intervenção direta do público no momento da apresentação. Ou seja, o trabalho é tecido a cada sessão de um modo diferente.


(Publicado originalmente com o título "Os fios do texto" em 
http://alinhavandopontos.blogspot.com.br)




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