sexta-feira, 13 de março de 2026
“Ínsulas” - o livro-arquipélago de Dalila Teles Veras
Conheci Dalila Teles Veras no início dos anos 1980. O Grupo Livrespaço de Poesia, do qual ela foi uma das fundadoras, promoveu um concurso junto às escolas da região do ABC paulista e eu, que havia cometido alguns poemas, decidi me inscrever. Quis o destino que meu texto fosse classificado e, então, recebi o certificado de participação em uma exposição de poesias do grupo. Foi a primeira vez que tomei contato com “poetas de verdade”, ao vivo, e guardo vívidas na memória aquelas imagens e impressões. O tempo passou e nos tornamos amigas Dalila e eu. O tal poema desapareceu, bem como todos os demais. Não segui pelo caminho da escrita poética, mas persisti no da leitura. É, portanto, como leitora que proponho esta apreciação de “Ínsulas”, a mais recente publicação de Dalila Teles Veras para a coleção “Círculo de poemas”, da editora Fósforo, coordenada por Tarso de Melo.
“Interesso-me por desembrulhar o artefato”
Uma das expectativas mais intensas para mim é a da chegada de um livro. Contei os dias até que o correio me entregasse a plaquete e eu pudesse tê-la nas mãos, porque é nesse primeiro contato que a leitura começa. O formato menor que o convencional; o laranja vivo da capa; a encadernação sem costura (páginas enfeixadas por um elástico solto) a propor um jogo de armar. E o mistério: um buraco de fechadura onde se entrevê trechos de barco e de água. Apesar da sugestão do título, ainda há silêncio. É ao se desdobrarem as capas que se dá o som inaugural: pequenas ondas atiram-se contra o quebra-mar e, ao apurarmos os ouvidos, gaivotas e andorinhas confabulam estridentes ao longe.
Para quem conhece a biografia da autora, os dois registros fotográficos feitos por Luzia Maninha compõem de imediato as primeiras camadas de sentido. O artefato é texto. O artefato é uma ilha.
“Sair da ilha para outra ilha”
O primeiro contato com “Ínsulas”, fez-me lembrar da poesia marginal dos anos 1970 e 1980. Sob a ditadura empresarial-militar, havia uma urgência em circular ideias, gritos, manifestos, sem a intermediação da imprensa ou das editoras. Poetas decidiam sobre conteúdo e forma, encontravam meios acessíveis de reproduzir seus textos e saíam a campo para a distribuição direta ao público - autores-produtores, como idealizou o filósofo Walter Benjamin. Assim, artesania e ativismo compunham a política daquelas publicações, poesias mimeografadas e livretos (plaquetes) entre elas, a democratizar a arte e a contaminar quem dela se aproximasse com o vírus da insurgência.
Embora publicada por uma editora quatro ou cinco décadas depois, a plaquete de Dalila Teles Veras conserva boa parte do espírito daquela época. Além do formato pequeno e leve e de um vestígio de artesania, há uma urgência em cada poema, uma ideia a ser disseminada, uma proposta de reflexão. Tanto que ocupam solitariamente cada página, ilhas a constituir o arquipélago poético indicado pelo título.
“As singularidades imanentes do próprio microcosmo”
Tive com “Ínsulas” três experiências básicas como leitora-viajante: mergulho, voo e contemplação. Em cada uma delas, uma poeta portuguesa a guiar-me na aventura: Irene Lucília Andrade, Ana Hatherly e Maria Gabriela Llansol.
No primeiro trecho, “Ínsulas”, o contato puro e simples com a superfície das ilhas não foi suficiente. Seus mistérios pediam que eu descobrisse o que se escondia sob as águas. Por isso, o vazio deixado sob cada poema representou para mim um espaço-tempo para mergulhar uma, duas, três vezes, cada vez mais fundo, trazendo, ao voltar, uma nova e mais ampla proposta de sentido, sem nunca esgotar-se, porém. Afinal, “Tudo o que sobrevive numa ilha é mistério e silêncio, no poema também.”
Nas “Infusões”, segundo trecho da viagem, o espaço em branco das páginas permitiu-me sair do texto e voar ao encontro das mulheres anfíbias, engenheiras, ambientalistas, ambivalentes, ambidestras que conheço, todas “magas, estrelas-guias de si próprias”, e oferecer-lhes a beberagem poética para que se fortaleçam e se curem de tantos males que nos abatem. Viajei nas imagens criadas pela poeta. Sonhei com outras e melhores ilhas.
Finalmente, no trecho “Faces, fases”, não há em que mergulhar nem para onde ir. Coloco-me no espaço vazio e o que se pede é reverência e contemplação. Leio-escuto a Mulher Vivida, a Poeta e seus processos, “ostra agarrada ao tempo”. Agarro-me, pois, às palavras de Dalila neste livro-arquipélago só possível à beira dos oitenta anos. Resíduos de aluvião de exílio, trabalhos, projetos, relações, lutos, amores e dores, revoluções vitoriosas e sufocadas, golpes, epidemias, pandemias, sonhos, apostas, bandeiras, levantes, livros, livros, livros, livros.
“Pergunto aos comensais sobre as possibilidades do real ser contaminado pelo virtual.”
Fecho a plaquete, desembarco, mas a leitura não termina. Segue noite adentro, vida afora.
O livro-ilha é denso, pesa. Volto a ele várias vezes e há sempre o que se descobrir, como se as frases trocassem de lugar entre si. Ou será eu que volto diferente a cada nova investida? Não há como voltar a ser o que se era depois de visitar a ilha.
É noite. Silenciaram as gaivotas, as andorinhas já se recolheram. Resta o mar, incessante, a quebrar nas margens.
Em algumas horas o sol há de alaranjar novamente o horizonte.
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Adélia Nicolete - março 2026
“Ínsulas”
Dalila Teles Veras
Editora Fósforo, 2025
Coleção “Círculo de poemas”
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