terça-feira, 5 de março de 2019

Prefácio do livro "Artes manuais e seus encontros", de Karla Santori


No final de 2017, tive o prazer de participar da banca de Karla Santori na finalização de sua Pós-Graduação em Artes-Manuais para a Educação. O curso, sob a coordenação da Profª Drª. Nina Veiga teve lugar n'A Casa Tombada em São Paulo e os trabalhos finais resultaram em uma coleção que já é referência no assunto. Para minha alegria, Karla convidou-me também a prefaciar o seu texto, linhas que compartilho logo abaixo.


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Encontros notáveis


“Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh Pireneus! Ôh caiçaras!
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!”

(Mário de Andrade)


Dentre as tantas interpretações de Trezentos e cincoenta - o famoso poema de Mario de Andrade – ao menos uma delas conversa de perto com o livro de Karla Santori ora publicado: a busca incessante de si mesmo por parte do narrador. Ao se deparar com uma das faces possíveis, outras são despertadas, dentro de si ou a partir do contato com o Outro, seja próximo, seja no Piauí ou alhures. Talvez o mais importante não seja a descoberta e sim a própria busca.

A partir da criação de uma personagem – Clara (um anagrama de Karla) – a autora empreende uma retrospectiva de sua trajetória sob o ponto de vista das artes-manuais. Numa expedição arqueológica e marcadamente poética, sai em busca de alguns encontros significativos, que muito provavelmente forjaram-na como artista, e dos objetos que os testemunharam. Na medida em que compartilha conosco cada um dos encontros, temos reveladas, por consequência, novas faces da narradora.

O recurso de utilizar-se de uma personagem alter-ego e de um narrador onisciente mostra-se libertador: com ele Karla pode tomar-se como matéria de estudo a fim de se reconhecer, se afirmar e saltar para novas buscas, afinal o livro é resultante da Pós-Graduação em Artes-Manuais para a Educação e espera-se que seja o primeiro de muitos. Além de libertador, o distanciamento narrativo permite que nós, leitoras e leitores, entremos em contato com as ações, com o que a personagem fala, pensa, intui, sonha, questiona e, se não bastasse, com algumas análises e conclusões.

“Abraço no meu leito as milhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!”


O texto de palavras tecido pela autora ao longo de cada capítulo, propõe os encontros como urdidura em que será tramada uma variedade digna de nota: lembranças e relatos; questões, reflexões e sensações; poemas, sonhos, intuições; imagens, rituais, cores, cheiros e sabores e, não bastasse, projetos para o futuro. Em sua aventura pela linguagem, utiliza-se, inclusive, de negrito e diferentes tipos de fontes e suas dimensões. Cada capítulo é uma peça singular, tem unidade, tem força, é um tecido firme e único.

E do que trata cada capítulo? Numa primeira análise, de encontros significativos em torno das artes-manuais. A autora pontua sua trajetória de vida sob a ótica do fazer artístico e nós formamos, ponto por ponto, um quadro de quem é a Karla e de como se deu o contato com as diversas técnicas, por exemplo. Poderia ser isso e a tarefa já estaria cumprida. Porém, ela não se limita a um relatório ou um depoimento. Eu diria que a Antroposofia transparece no seu trabalho na medida em que a trajetória não é abordada tão somente do ponto de vista factual, mas da totalidade que ela abarca, suas implicações mais profundas.

O livro forma, pois, um conjunto harmonioso em função de mais um expediente: os entremeios poéticos – feito aqueles entremeios rendados que servem para decorar uma vestimenta ou um trabalho bordado, mas também para arejar e dar destaque a cada unidade que agrega.


“Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo…
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.”


Falemos, finalmente, dos encontros que dão título ao livro. Conforme comentamos, são lembranças que vêm à tona, suscitadas por uma indagação do presente: quem e o que me formou e me forma como artista? Trata-se de um olhar atento e demorado para o que se viveu em fluxo a fim de se garimpar, de se trazer à luz algo de mais impressionante e compartilhá-lo. O que não for lembrado (a grande escuridão que suporta os lampejos da memória) presta-se a condensar as experiências realmente significativas.

Tais encontros preciosos, ao contrário do que possamos pensar, não se dão necessariamente com pessoas célebres. Sua importância é identificada a partir do nosso olhar de buscadoras e buscadores. O olhar é que atribui a essas pessoas um sentido capaz de completar, preencher, dar sentido à nossa empresa. E vice-versa: o encontro conosco pode igualmente justificar em parte a existência dessas pessoas. Artes-manuais e seus encontros é repleto de exemplos.

Clara tem dificuldade de se relacionar com uma colega de trabalho e, embora tente reconsiderar a aversão, parece que a antipatia é recíproca. Quando desiste de forçar uma aproximação e concentra-se em suas próprias atividades, leva para o escritório um trabalho de ponto-cruz. É o que basta para gerar a empatia da colega, que olha para ela como a uma igual, pois também aprecia as artes-manuais. Ambas iniciam uma nova relação, que cresce fortalecida, baseada no compartilhamento de saberes e fazeres que subjazem ao cotidiano profissional e se instalam na esfera do espírito.

Em outras oportunidades, a protagonista visita uma loja ou se hospeda numa pousada e aprecia o trabalho delicado das artistas-anfitriãs. Essas, por sua vez, encontram sentido em suas criações por meio do olhar da viajante e de seu testemunho. Encontros fortuitos, porém notáveis. Clara vive uma situação parecida com a dessas artistas quando traz uma menina para casa depois de um acidente automobilístico. A pequena admira as caixas encapadas com esmero – por um momento o acidente e a separação da mãe ficam em suspenso em seu coração. Fica fascinada por uma delas em especial e Clara identifica naquele olhar uma valorização inigualável de seu trabalho, tanto que presenteia a menina com a caixinha quando ela parte com o pai.

Nesses quatro exemplos, é pelo olhar do Outro que se atribui um sentido e um valor ao próprio fazer artístico. Um valor incomensurável de reconhecimento do talento e do esforço empreendidos.

As leitoras e os leitores, por sua vez, ao encontrarem o livro de Karla e suas narrativas, poderão, quem sabe, deparar-se consigo mesmos ao rememorarem a própria trajetória. Podem, além disso, sentir-se estimulados a partir pelo mundo em busca de encontros notáveis. Um dia, certamente, toparão consigo mesmos e toda a experiência vivida nos Encontros constituirá o abrigo da alma.


Adélia Nicolete
Janeiro de 2017



SANTORI, Karla. Artes-manuais e seus encontros. Org. de Ana Lygia Vieira Schil da Veiga. São Paulo: Círculo das Artes, 2018. (Coleção ARTES-MANUAIS PARA A EDUCAÇÃO: aprendizagem e processos de singularização; vol. 1)


sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

III Ciclo de Estudos de Dramaturgia Contemporânea: Solos Brasileiros - projeto



Breve histórico

Em 2010, por ocasião de meu processo de doutoramento, surgiu a necessidade de um mergulho na dramaturgia contemporânea. Um estudo aprofundado que, se feito de modo solitário, seria enfadonho e  resultaria limitado. Por que não formar um grupo e compartilhar saberes e descobertas? Assim foi proposto o I Ciclo de Estudos de Dramaturgia Contemporânea, realizado em espaço cedido pela FAINC (Faculdades Integradas Teresa D'Ávila, de Santo Andrá), com amigues e ex-alunes do curso superior e de oficinas de teatro. Durante dez encontros, abordamos o período entre o Teatro do Absurdo e os anos 1990, com foco na dramaturgia internacional - tinha-se como ponto pacífico a inexistência de uma dramaturgia nacional para além da forma dramática... Analisamos peças teatrais, comparamos autores e suas biobibliografias, debatemos e fizemos exercícios criativos em escrita. Boa parte do trabalho (que deixou saudade, mas não deixou fotos) está registrado no blog papelferepedra.

Tese defendida, sete anos depois o panorama era bem outro: tínhamos efetivado uma dramaturgia contemporânea em terra brasilis, ponto pacífico! Chegara o momento do II Ciclo de Estudos, realizado em espaço cedido pela ELT (Escola Livre de Teatro de Santo André): seis peças analisadas, processos criativos e espetáculos estudados, bem como textos paralelos - e nenhuma foto! O chamado feito pelas redes sociais atraiu interessades em sua maioria desconhecides entre si, todes ex-alunes, porém.

Em 2018 fui convidada a conduzir um Ateliê de Dramaturgia em São José dos Campos e o formato escolhido para os exercícios criativos foi o solo teatral. Do processo, finalizado com a leitura cênica de um texto solo, brotou o desejo de aprofundar a pesquisa de modo compartilhado, ou seja, por meio de um III Ciclo de Estudos de Dramaturgia Contemporânea. Mas dessa vez, os planos seriam um pouco diferentes.



Nova edição

O formato solo tem se mostrado cada vez mais presente na cena brasileira. Longe de ser uma simples tendência, o volume de produções é decorrente de um conjunto de fatores, sejam eles econômicos, estéticos, históricos, técnicos e/ou políticos. Trabalhos autorais em sua maioria, partem muitas vezes dos desejos pessoais de seus criadores e criadoras – pulsões autobiográficas, interesses de pesquisa, questões éticas, revisões históricas e assim por diante – e podem ser desenvolvidos de modo radicalmente solitário ou contar com o apoio de outres artífices. Seja como for, revelam-se uma oportunidade para o exercício de múltiplas funções e para o domínio do fazer teatral como um todo, prestando-se à comunicação direta com o público e, em certos casos, ao atendimento de urgências, desassistidas pelas grandes produções.

Com a finalidade de estudar alguns solos teatrais nacionais, seus processos criativos, os espetáculos resultantes, materiais de apoio e, para além disso, com o objetivo de fomentar a criação de trabalhos nesse formato, contamos esse ano com a parceria do NED-ABC (Núcleo de Experimentos em Dramaturgia) e da Cia do Nó de Teatro, de Santo André. Núcleo de Experimentos em Dramaturgia. Tal associação visa a ampliar o público participante, ocupar a sede da companhia e dar-lhe visibilidade, bem como ao Núcleo de Experimentos. Dessa forma, uma iniciativa antes individual e isolada, ganha contornos de ação coletiva e perspectivas de continuidade.

A dinâmica dos encontros será colaborativa e para que os estudos se efetivem com excelência, cada participante compromete-se com a análise dos textos e vídeos propostos, com a discussão em sala, bem como com a exposição de temas que tomar sob sua responsabilidade.
Ao final, pretende-se que o grupo possa estabelecer um pacto de continuidade do processo a fim de constituir um coletivo que acompanhe as criações de solos decorrentes do Ciclo.


Programa

Longe de esgotar o tema e abarcar um grande número de produções, decidimos delimitar os trabalhos por áreas. Centralizaremos a discussão em um projeto e tomaremos os demais de cada área como referência para a discussão. Pretende-se que os materiais disponibilizados e as reflexões promovidas em sala poderão, de acordo com cada participante, basear o estudo de outros casos e a criação de novos projetos.

Encontro 1: Apresentação do projeto, da condutora e des participantes. Levantamento de referências pessoais com relação ao tema e de desejos criativos com relação ao formato. 
Sistemática de trabalho. Atribuição de pesquisas. Distribuição de material. Cronograma. 
Introdução ao tema. Primeiras reflexões.

Encontro 2: Biografia, autobiografia, subjetividades – solos e autoescrita performativa

Encontro 3: Solos e literatura – obras literárias, escritoras e escritores como base de criação

Encontro 4: Solos e pesquisa – motivações estéticas, sociais, históricas, entre outros disparadores de pesquisa e de criação

Encontro 5: Solos e performance – o corpo, a voz, o espaço, a relação com o público, a performatividade como um dos elementos criativos fundamentais. Conclusão do Ciclo e perspectivas futuras.



Serviço

Público alvo: atuantes ou interessades em dramaturgia, direção, interpretação, crítica e pesquisa teatral. As participantes que tiverem filhos e precisarem trazê-los, poderão se inscrever e estabelecer redes de cuidados durante os encontros

Dias: segundas-feiras 18 e 25 de fevereiro, 11, 18 e 25 de março

Horário: das 14h às 17h

Prazo de inscrição: até 11 de fevereiro

Local: Cia do Nó de Teatro - Rua Regente Feijó, 359a - Vila Assunção - Santo André - tel.: 4436-7789

Inscrições: consulte este link.

Outras informações e inscrições: nedramaturgia@gmail.com


Adélia Nicolete




  


quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

"Peixes" de Ana Régis - Leitura Cênica


Conheci Ana Régis tem cerca de 20 anos no projeto Oficinão do Galpão Cine Horto, lá em Belo Horizonte. Estávamos em 1999, às vésperas de “comemorar” os 500 anos de “descobrimento” do Brasil e o diretor e ator Julio Maciel propôs ao núcleo de aprendizes a criação de um espetáculo sobre o tema, que resultou em "Caixa Postal 1500". Ana, que era do elenco, passou, projetos depois, à equipe de dramaturgia. Bacharel em Letras e professora do ensino formal, percorreu e ainda percorre a cena, a direção, a dramaturgia e a produção – desempenhos fundamentais ao desenvolvimento de “Peixes”, seu solo teatral.

Divulgação do espetáculo quando de sua exibição na Sala Solo
Galpão Cine Horto - Belo Horizonte



Em meados daquela década trabalhamos juntas em “Rubros: vestido-bandeira-batom”, ideia sua em que trabalhei na dramaturgia - algo tão marcante para nós, capaz de render teatro, um projeto de cinema e muitos sonhos mais. O fato é que não nos desgrudamos, mesmo morando em estados diferentes. Daí que em 2015, Ana Régis comunica-me uma pesquisa em curso e o desejo de construir com ela uma peça teatral. A primeira versão já estava pronta e gostaria de partilhá-la com amigues a fim de escutar opiniões. Leio “Peixes” – nome então provisório – e fico encantada com o trabalho da amiga, mas ao mesmo tempo impactada por tratar-se de texto baseado em entrevistas e consultas a noticiário: a pedofilia, a violência doméstica, o assédio moral e psicológico.

Eu e Aninha, quase 20 anos depois do primeiro encontro
(Foto: Chico Pelúcio)


Faço algumas observações e travamos um diálogo sobre o processo de escrita e sua estrutura. A dramaturga ainda resistia ao material, por tratar-se de um tema doloroso. Os intervalos entre as versões, porém, mostraram-se produtivos na medida em que a autora (pesquisadora, atriz, diretora, produtora) lidava com os conteúdos, “cozinhava” em fogo brando personagens, situações, tempos narrativos, técnicas e recursos. Alquimia que deu origem a uma terceira versão a ser levada à cena. Dava-se às luzes "Claudia", a narradora, porta-voz de tantas meninas e mulheres mundo afora.

Ana operou com seus próprios recursos financeiros. Ensaiou em casa nas horas vagas, sozinha ou diante de convidades. Testou a presença de um representante da plateia em cena, avaliou, tomou decisões, até que o processo iniciado em 2015 tomou forma e estreou em dezembro de 2017 no Teatro de Bolso do Teatro Cine Brasil Valourec, em BH.

Ana conta com a participação de um educador como parceiro de cena
Centro Sócioeducativo São Jerônimo - BH
(Foto: Arquivo pessoal da atriz)

Desde então, “Peixes” tem sido apresentado para os mais diversos públicos, seguido sempre de alguma forma de debate. Ana vai aonde a solicitam. A narrativa de sua personagem tem o dom de suscitar lembranças pessoais, provocar revolta, ativar o desejo de denúncia. Há em todas as sessões depoimentos do público a gerar cumplicidade e solidariedade. Brota a indignação genuína frente a um estado permanente de violência contra a mulher e contra a infância, o que torna impossível sair de uma sessão do espetáculo sem refletir sobre estratégias de defesa e de proteção às vítimas. Nesse sentido, o solo teatral de Ana Régis cumpre a importante missão de abordar um tema urgente, bem como de nos tirar da apatia com relação a ele.

Apresentação de "Peixes" na Paróquia Olhos d'Agua - Pilar
(Foto: Arquivo pessoal da autora)
Apresentação na Escola Estadual Mario Elias - Contagem - BH(Foto: Arquivo pessoal da autora)
Quando fui convidada a apresentar um texto para leitura dramática durante a 8ª edição do evento Noites em Processo, na Fundação Cultural Cassiano Ricardo em São José dos Campos, decidi-me por sugerir “Peixes”, de Ana Régis. A leitura haveria de ser a culminância do Ateliê de Dramaturgia Solo, cujo disparador foram as urgências pessoais de cada participante. Dessa forma, a urgência da artista mineira bem poderia ser uma referência para todes nós e para o público.

Leitura cênica de "Peixes"
Fundação Cultural Cassiano Ricardo
16 de dezembro de 2018
(Foto: Paulo Amaral / FCCR)




A artista plástica Dani Akemi aceita o convite para ser a "terapeuta"
(Foto: Paulo Amaral / FCCR)


Parte do público presente à leitura
(Foto: Paulo Amaral / FCCR)















Antes da leitura, compartilhei com os espectadores parte do processo criativo e da circulação do espetáculo e após sua realização, a palavra foi aberta a todes. Confirmou-se o impacto da dramaturgia, mesmo que apenas em leitura. O texto de Ana Régis mostra-se de uma urgência cada dia maior e entre seus méritos está o de tratar com delicadeza situações de brutalidade extrema. Micropolítica ativa, que seja apresentado cada dia mais.

A atriz Lucilene Dias lê uma carta denúncia
compartilhada com a dramaturga depois de assistida uma sessão
de "Peixes" em Belo Horizonte.
A carta fora enviada a dois abusadores e a seus familiares,
motivada pelo espetáculo.



Agradeço à autora pela cessão do texto e de materiais referentes às apresentações. Muito obrigada a Wangy Alves e a Atul Trivedi pelo convite, à Dani Akemi pela cumplicidade na leitura, à Lucilene Dias e à equipe de produção. Obrigada, Rodrigo Morais Leite pela análise crítica e ao público presente agradeço pela atenção e pelo debate, gravado e posteriormente enviado a Ana Régis.

Adélia Nicolete



sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Ateliê de Dramaturgia Solo - São José dos Campos




“Uma micropolítica é ativa quando o desejo se deixa guiar por aquilo que lhe indicam os embriões de futuros; neste caso, a germinação vai se completando num processo de criação até encontrar palavras, imagens, gestos etc, que lhes permitam deixar o ninho e voar para o mundo. O que resulta disto é uma diferença, um devir de nós mesmos e de nosso campo relacional, com potência de proliferação por toda trama social. Este é o destino ético da pulsão, aquele em que a vida se afirma em sua força de transfiguração. Poderíamos dizer que o inconsciente é esta fábrica de mundos. Estar à altura desse tempo e desse cuidado para dizer o mais precisamente possível o que sufoca e produz um nó na garganta e, sobretudo, o que está aflorando diante disso para que a vida recobre um equilíbrio – esta é, precisamente, a tarefa de uma micropolítica ativa.”
Suely Rolnik
Entrevista ao Suplemento Cultural do Diário Oficial de Pernambuco



O convite partiu de Atul Trivedi, um dos curadores do evento “Noites em Processo”, idealizado e coordenado por Wangy Alves ao longo desses oito anos. Mostra a cada edição mais intensa, congrega durante dez noites oficinas, partilha de processos criativos seguidos de reflexão, palestras, mesas temáticas, espetáculos itinerantes e leituras dramáticas, tanto na Fundação Cultural Cassiano Ricardo, em São José dos Campos, como nos bairros e distritos vizinhos. Intercâmbio entre artistas, formação de público, debates - política cultural da melhor qualidade.

Chegou-me a proposta logo após o impacto do segundo turno das eleições e com carta branca para que eu desenvolvesse um Ateliê de Dramaturgia em oito encontros. Mais do que nunca, pareceu-me impossível desvincular o exercício dramatúrgico das atuais circunstâncias, o que inspirou um projeto que tomasse como disparador as urgências de cada participante rumo às urgências coletivas. Micropolítica ativa. Projeto-projétil: prático, portátil, direto, viável, adaptável, possível num contexto de investimentos baixos em educação, arte e cultura em geral. Num contexto de censura e preconceito rumo à consagração da ignorância.

Daí que decidi propor um Ateliê rente à minha pesquisa dos chamados “solos teatrais” contemporâneos: trabalhos em sua maioria idealizados e realizados por um/a artista, a partir de seu desejo de pesquisa – pulsões internas, subjetivas ou sociais, coletivas – e que chega ao público, muitas vezes, sem o destaque das grandes produções, até porque trafegam na contramão dos padrões estabelecidos e estabelecem novos modos de criar e fruir a cena.  Trabalhos que podem até contar com a participação, voluntária ou não, de outros/as profissionais, mas que solicitam fundamentalmente o empenho – e muitas vezes o investimento financeiro – do indivíduo que os propôs. 


Quatro particpantes que chegaram ao fim da jornada
Willyam, Guilherme, Claudio e Vitor
(Foto: Atul Triveli)

A partir das urgências de cada participante, foram trabalhados conteúdos relativos à forma dramática e suas subversões, bem como aos diversos sentidos da dramaturgia e à sua função, exercida por todas e todos componentes da equipe. Fizemos um apanhado histórico do formato no Brasil, com destaque para Denise Stoklos, e analisamos trechos de espetáculos e de textos a fim de refletir a respeito das proposições, dos processos e das soluções estéticas encontradas. Exercícios de escrita e de cena foram apresentados e discutidos a fim de promoverem o desenvolvimento dos projetos pessoais que, espero, encontrem em breve as urgências comuns e promovam, com isso, as transformações tão necessárias.

Ao fim da jornada, realizamos a leitura cênica de “Peixes”, peça resultante do solo criado por Ana Régis, atriz, professora e dramaturga mineira, em circuito na periferia de Belo Horizonte. A ela será dedicada nossa próxima postagem.

Muito obrigada a Ana Régis, Janaína Leite, Grace Passô, Sara Antunes, Eduardo Okamoto, Silvero Pereira, Assis Benevenuto, Paulo Azevedo e Raysner de Paula por suas criações, por disponibilizarem textos, vídeos e relatos de processo. 

Agradeço a todas e todos que passaram pelo Ateliê, à organização e à equipe técnica e de produção: obrigada pelas trocas! Incríveis! Foi também revigorante acompanhar as mesas de debate e assistir às cenas em processo durante o evento - tantas reflexões, tantas promessas! 

Encerro 2018 com o coração arejado pelos encontros artísticos e afetivos - que eles se repitam e se fortaleçam no ano que em breve chegará!

Adélia Nicolete








terça-feira, 30 de outubro de 2018

"O jogo do amor e do acaso" - Pierre de Marivaux




Durante muitos anos atuei como professora de Iniciação Teatral, História do Teatro e Dramaturgia nas Faculdades Integradas Teresa D’Ávila, mais tarde Coração de Jesus, em Santo André. Era a única instituição de ensino superior no ABC Paulista a oferecer cursos na área de Artes – Licenciatura e Bacharelado em Música, Artes Plásticas, Desenho e Artes Cênicas. Se uso o verbo no passado é com imensa tristeza: a FATEA ou FAINC já não existe e, portanto, uma das regiões mais adensadas do estado de São Paulo deixou de contar com uma faculdade voltada para a formação de artistas e professores. Fechou as portas sem qualquer comunicação oficial à comunidade, como se fosse quitanda, boteco ou loja de R$ 1,99. Como se não fizesse diferença.

Provável é que a justificativa seja econômica, pois há um bom tempo temos acompanhado a investida furiosa de grandes investimentos no ramo. A educação de qualidade é, a cada dia, substituída por um tipo de negócio que lucra, no mínimo, a partir de quatro fatores: baixo salário dos professores e funcionários, mensalidades a preço promocional, cursos de duração reduzida e grande número de alunos em sala de aula. A qualidade do ensino não entra em questão, tanto que muitos dos estabelecimentos em questão ficaram conhecidos por “vender diplomas” a prazo e não pela excelência. Diante desse massacre, é difícil a uma instituição séria resistir.

É de se lamentar a desativação de uma vasta biblioteca temática, das salas de aula adaptadas, dos laboratórios e ateliês. Com o fechamento da FATEA/FAINC e o descaso com relação à Escola Livre de Teatro, ambas em Santo André, o futuro da Arte e da Cultura na região está visivelmente comprometido.



Vista aérea do prédio da FATEA/FAINC
(foto: internet)


Dentre os trabalhos que realizei na FAINC, um deles foi a tradução e adaptação de um texto de Pierre de Marivaux (França 1688-1763) – O jogo do amor e do acaso, escrito em 1730. Autor de peças para a Commédie Française e para a Commédie Italienne, Marivaux foi um dos maiores autores de seu tempo. A decisão pelo texto surgiu do trabalho interdisciplinar que realizávamos à época, em 2007: estudávamos o Renascimento no teatro durante as aulas de História, a professora Solange Dias abordava os fundamentos da Commedia Dell’Arte em suas aulas de Encenação, Daniele Pimenta coordenava os estudos de corpo e voz, enquanto Celso Motta encarregava-se da pesquisa e elaboração de cenografia e figurinos. 



Grupo de alunos sob a direção de Solange Dias
Ao centro, a diretora à época - Ir. Theresinha Carvalho Castro
(Foto: Cassia Regina / Kiah Kilk)

A trama

Orgon deseja casar Silvia, sua filha, com o jovem Dorante, filho de um velho amigo. A moça resiste a desposar alguém que não conhece, por isso propõe ao pai trocar de lugar com sua criada Lisette a fim de observar melhor o pretendente. Orgon está de acordo e confidencia a seu filho Mario que Dorante teve a mesma ideia: virá visitá-los disfarçado como seu criado Arlequim.

Em pouco tempo, Silvia percebe qualidades significativas no suposto criado e, da mesma forma, Dorante encanta-se pela jovem que supõe a serviçal de sua pretendente. Não é preciso dizer que a dupla cômica Lisette e Arlequim, travestidos de patrões, enamora-se sem grandes dificuldades.


Seria um simples jogo se Marivaux não abordasse os conflitos internos de Silvia e Dorante ao verem-se apaixonados por quem julgam ser a criadagem. No entanto, a crise é superada de forma a unir os enamorados e a provar que o amor e o acaso são parceiros no jogo da vida.


2016 - Produção televisiva francesa de
O jogo do amor e do acaso


A adaptação


O jogo do amor e do acaso é uma das peças mais conhecidas do autor, mas não bastaria traduzi-la, teria de adaptá-la ao grande número de alunos, pois não queríamos revezá-los nos papeis. A solução encontrada foi criar e modificar alguns personagens e integrá-los à trama. Assim, ao núcleo original proposto por Marivaux acrescentei Ragonda, uma cozinheira, as criadas Beliza e Coralina, dei um pai e uma irmã a Dorante, Senhor Remy e Isabella, respectivamente, e troquei Mario por Flaminia, uma governanta. Tais acréscimos geraram uma abertura e alguns intervalos cômicos, além de duas novas relações amorosas, tão ao gosto dos jogos de amor de Marivaux.


Tradução e adaptação estão disponíveis neste link e poderão ser utilizadas gratuitamente para fins acadêmicos, desde que comunicada a tradutora.


Adélia Nicolete