quarta-feira, 30 de maio de 2018

Ateliê de Transcriação Teatral



Palestrantes e parte do público presente na abertura do Fórum
(Foto: acervo do Grupo Teatral Pontos de Fiandeiras)


No dia 6 de abril de 2016, o Grupo Teatral Pontos de Fiandeiras promoveu um encontro de abertura do I Fórum de Coletivos Teatrais do ABC Paulista. Reuniram-se no Museu de Santo André Dr. Octaviano Armando Gaiarsa representantes de coletivos e público em geral para a discussão de um tema que congregasse a todos: a dramaturgia e a cidade. Para a mesa de abertura foram convidados artistas de três gerações, que tomaram as cidades da região como referência e território para seus trabalhos: José Armando Pereira da Silva, Luís Alberto de Abreu e Solange Dias. O objetivo foi apresentar um panorama histórico das ações e inspirar novos movimentos. Reuniões aconteceram nas três semanas seguintes e, dentre tantas sugestões de fortalecimento da rede, uma foi o compartilhamento de saberes entre os coletivos.

Entre 24 de abril e 29 de maio desse ano, sempre às terças-feiras, ocupamos a Cia do Nó de Teatro (http://ciadono.com.br), em Santo André, com o Ateliê de Transcriação Teatral – um compartilhamento de saberes a partir de minhas pesquisas e experiência e de exercícios práticos. A transcriação, no caso, refere-se à transposição de um ou vários textos literários para a cena, respeitando ao máximo as características do primeiro, mas adequando-o aos elementos da nova linguagem. Diferente da adaptação, a transcriação solicita o conhecimento do “projeto do autor”, como aponta a pesquisadora Linei Hirsch, ou seja, um estudo de vida e obra, a fim de tornar a proposta resultante o mais próxima possível do autor original.



Parte do material de referência para a transcriação
foi encontrado nesse volume

Plínio Marcos foi o escolhido para as nossas incursões. O autor santista ficou mais conhecido pela sua dramaturgia, no entanto foi ator, jornalista e cronista de larga produção. “Repórter de um tempo mau”, como ele mesmo se classificava, deixou textos publicados em jornais e revistas que fazem paralelo com as peças teatrais, além de comprar brigas, provocar polêmicas e explorar com largueza o tom poético. Considerei que seria um bom desafio trazer algumas crônicas à cena a fim de dialogar com o tempo mau presente.

Começamos por um apanhado biográfico e um estudo de parte da dramaturgia de Plínio, em especial as peças de forma dramática mais acentuada tais como “O abajur lilás”, “Navalha na carne” e “Homens de papel”. As peças foram analisadas e um primeiro exercício de transcriação pictórica, proposto. Em seguida, lemos e estudamos o conto “O terror de Roma”, do italiano Alberto Moravia e a peça “Dois perdidos numa noite suja”, nele inspirado. Plínio Marcos não chegou a fazer uma transcriação, ao contrário, tomou como base alguns tantos elementos fundamentais e ambientou a trama num tempo-lugar outros, alcançando, com isso, uma criação até certo ponto descolada do original. Não importa, o fato de nos determos no raciocínio criativo do autor nos aproximou um pouco mais de seu “projeto” e dos modos de se levar literatura à cena.


Primeiro encontro do grupo
(Foto: Elaine Perli Bombicini)


Chegou a hora da leitura e da análise de algumas crônicas a fim de escolhermos pelo menos uma para o desenvolvimento da transcriação - um momento para nos determos nos elementos capazes de suscitar o interesse cênico, além de examinarmos as relações com a produção dramatúrgica de Plínio Marcos. A crônica escolhida para o exercício foi “Coisas da vida”, de tom poético acentuado a contrastar com a dureza dos personagens e da situação. 

Próximo passo: desenvolvimento de um cannovaccio (roteiro de ações) em grupo, que levasse em conta não só a crônica escolhida, mas todo o material estudado e demais hipertextos possíveis. O processo foi norteado pela pesquisa de Linei Hirsch* e diversas atualizações possíveis com relação às novas confirgurações para além da forma dramática.

Juliano, Carina, Otávio e Vítor
(Foto: Elaine Perli Bombicini)
















Rodrigo, Elaine e Esdras














Carolina, Sila, Lucas e Celina

O último encontro foi dedicado à apresentação do conceito e dos roteiros, discussão geral dos projetos e, para minha satisfação, ao desejo de continuidade do exercício: aperfeiçoamento do cannovaccio e, com sorte, dos textos transcriados.

Lucas, Sila, Celina e Carolina
apresentam seu projeto
(Foto: Elaine Perli Bombicini)

É surpreendente verificar as diferentes abordagens possíveis de um mesmo material. Cada um dos três grupos aprofundou leituras específicas, mas complementares, perfeitamente conjugáveis entre si. O desejo de dar prosseguimento às criações atende a um de meus principais objetivos: o de apresentar a transcriação como um procedimento original de trabalho em dramaturgia.

Os outros objetivos creio que também foram alcançados. Reunimos durante cinco encontros artistas de diversos grupos e áreas, compartilhamos saberes e materiais, habitamos uma das sedes de grupo do ABC e planejamos a próxima ação: um ciclo de estudos sobre dramaturgismo, tema inédito na região.

Plínio Marcos

Agradeço ao Esdras Domingos e à Cia do Nó de Teatro pela acolhida, aos participantes pela troca intensiva e pela alegria reinante, prova dos nove, seja em que tempo for.

Obrigada, Plínio Marcos, pelas reportagens à sua maneira polêmica, contundente, por vezes contraditória, mas que ainda falam tão de perto ao nosso tempo e nos encorajam a também falar.



Adélia Nicolete

* HIRSCH, Linei.  Transcriação teatral: da narrativa literária para o palco. In: Percevejo, nº9, ano 8, 2000, p. 150-154















quinta-feira, 12 de abril de 2018

Rinocerantas


Cenário do espetáculo "Rinocerantas"
criadora: Denise Guilherme



A postagem a seguir é uma apreciação crítica do espetáculo Rinocerantas, da Cia Lona de Retalhos, escrita a convite da organização do projeto “Teatro político no ABC: identidade e resistência”, promovido pelo SESC Santo André de 14 de março a 15 de abril de 2018.


A mais recente edição do Festival de Teatro de Curitiba registrou um episódio emblemático do momento em que vivemos nesse país. Logo no início de um dos espetáculos da mostra oficial, uma espectadora levantou-se e, indignada, vociferou “paguei ingresso para ver teatro e não ouvir sobre política”.  Sua voz é representativa de um grande número de cidadãos que sofreu algumas das consequências mais nefastas do golpe civil-militar de 1964, reforçadas pelo golpe televisionado de 2016: a obsolescência programada da educação (lembremo-nos de Darcy Ribeiro ao denunciar que a crise da educação no Brasil era um projeto), o desábito paulatino do livre pensar e a despolitização generalizada, ainda que sob o disfarce de grandes movimentos sociais, manipulados em sua maioria.

Para ela e para tantos outros “cidadãos de bem”, teatro é lugar de entretenimento, de preferência inócuo, uma extensão de certos conteúdos televisivos. A convivialidade teatral – pressuposto de uma assembleia reunida em torno de um debate comum a todos – passa-lhes despercebida. Em sua opinião, o que une os espectadores e lhes dá a totalidade de um público, é o riso ou o choro atávicos, desprovidos de maiores reflexões. Ao final do espetáculo, retorna cada um à sua mônada e segue-se vivendo, à espera de novos surtos coletivos. Uma plateia de rinocerontes a considerar os artistas meros bobos da corte, sem qualquer “utilidade” ou função que não a de entreter a quem “pagou ingresso” para “se divertir e se emocionar”.

A eficiente metáfora animal quem sugere é o dramaturgo romeno Eugéne Ionesco (1909-1994), consagrado autor de uma linhagem de textos enfeixados na estética do Absurdo. Sua peça “O rinoceronte”, publicada em 1959, ganhou mundo e a ela se recorre sempre que se quer falar do totalitarismo, da intolerância, do desrespeito às diferenças. Nela, “Cidadãos de bem” de uma cidadezinha pacata transformam-se pouco a pouco em feras capazes de grandes destruições. Ao final, resta apenas Bérenger, triste por haver perdido seu amigo Jean, sua amada Dayse, seus colegas de escritório, todos metamorfoseados. Bérenger, uma espécie de Pierrô – melancólico, romântico, sensível, ponderado – estranho às normas férreas, criticado justamente por não se enquadrar, é o único ser humano que sobrevive, não sem antes se questionar sobre as vantagens que teria em ser como todos os demais. Ainda que sozinho, não se renderá.

*

Dado o nosso contexto, a Cia Lona de Retalhos foi buscar, sabiamente, na obra de Ionesco, o material para seu espetáculo "Rinocerantas". Haveria de ser uma releitura contemporânea suficientemente oportuna, não fosse sua adaptação dirigida ao público infantil. A decisão por retomar “O rinoceronte” pela estética clownesca radicalizou a metáfora, aprofundando-a, tornando-a ainda mais potente e alcançando os pequenos na esperança de uma pedagogia da alteridade.

Em sua busca pelo essencial, o grupo reduziu a trama à convivência, ora harmoniosa ora não, de duas figuras que vivem sob o mesmo teto: Berinjela e Joanete. O próprio espaço trata de caracterizá-los: uma casa estilizada, dividida em dois ambientes contrastantes. O da esquerda é organizado, minimalista e quase monocromático, o da direita revela uma certa desordem, a presença de cores e paredes desenhadas. Um armário, um rádio e um cronograma de atividades decoram o primeiro, o segundo é despojado. O comportamento dos personagens desdobra-se na relação com o espaço: hábitos rígidos ou flexíveis; trajetos e trejeitos retilíneos ou desformes; obediência ou descaso para com as regras; sisudez ou airosidade; destreza ou inabilidade e assim por diante. Joanete, como aquela protuberância dolorosa no pé, é sistemática, incomoda-se com os desvios de Berinjela que, como o fruto sugere, é “macia”, curvilínea e presta-se a múltiplas finalidades.

A estética do cartoon é boa aliada na medida em que acentua o tom crítico da abordagem, de modo que a fábula consegue a empatia do público não só com relação ao discurso verbal. Para isso contribuem também o figurino, o teatro de objetos e a trilha sonora, permeada de música erudita, a tecerem uma camada delicada em que situações por vezes conflituosas se desenrolam. É delicioso presenciar a reação das crianças a determinadas cenas e perceber o quanto é possível comunicar de forma lúdica conteúdo tão marcadamente político.

Apresentadas as personagens e as diferenças entre elas, fica-se sabendo da presença dos rinocerontes alhures. Em pouco tempo, acompanhamos a transformação de Joanete e vemos sua intolerância exacerbada. Em suas falas, o grupo evoca muito do que se diz nas ruas e nas redes sociais – o preconceito, o moralismo, o modismo, a segregação, a violência e tudo mais. A figura do animal cinza, gigantesco, com seu chifre e sua rígida carapaça é perfeita para simbolizar certos grupos e seu comportamento. Joanete chega até a se comover com o balé sugerido pela amiga, mas a recordação não é suficientemente forte para retirá-la do transe e ela retoma o peso e a gravidade da fera.

Assim, em pouco tempo, “a peste” cerca Berinjela e transforma o médico, o locutor de futebol e até a dupla sertaneja (aquela que recentemente não se comoveu com o assassinato de uma vereadora carioca) em bestas. Parece restar apenas um espécime ainda original, que se debate em vão na tentativa de se igualar aos demais: Berinjela, que tenta ainda repetir palavras de ordem, mas conclui que não precisa seguir a manada. Ao contrário, pode ser rinoceronte, gato, cachorro, galinha, gente e o que mais quiser. Pode se vestir como quiser, viver como quiser, enfim.

Em menos de 60 minutos, Carina Prestupa e Thaís Póvoa revisitam o clássico de Ionesco, conjugam-no a dois contos infantis e promovem um diálogo muito próximo com o momento presente. O distanciamento e a leveza propostos pela metáfora sugerem reflexões pra lá de políticas, maiores até que muitos espetáculos ditos engajados.

Nesse sentido, a Cia Lona de Retalhos assume o fazer teatral como espaço de entretenimento sem abrir mão de seu propósito de reunir pessoas em torno de uma ideia, sem abrir mão de seu potencial transformador para todos os envolvidos.

*

No mesmo Festival de Curitiba, quatro artistas vilipendiados em 2017 uniram-se para um espetáculo que trata justamente do julgamento público a seus trabalhos e/ou à sua atitude: dois performers, uma atriz e a mãe de uma criança que interagiu em uma performance. Plateia lotada, o público acompanhou os depoimentos e solidarizou-se aos artistas. Nenhum rinoceronte se manifestou, sinal de que ainda há um grande espaço para a discussão coletiva de temas urgentes, em sua maioria políticos.

Daí a importância de projetos como esse “Teatro político no ABC: identidade e resistência”, ora levado pela equipe do SESC Santo André. Catorze espetáculos nas mais diversas abordagens temáticas e estéticas, não por acaso a retomar a vocação teatral do ABC nos anos 1970. Que esta tenha sido apenas a primeira edição e que possamos, juntos, interromper a proliferação de bestas-fera.

Espetáculo assistido em 8 de abril de 2018.

Adélia Nicolete

sexta-feira, 30 de março de 2018

Dramaturgia impressa e expressa



Publicação independente das peças do
Grupo Teatral Pontos de Fiandeiras
(Foto: Dino Santos)

A publicação de dramaturgia brasileira ganhou impulso em décadas recentes. Graças à conjunção de diversos fatores, é possível ler algumas peças enquanto estão em cartaz, por exemplo, coisa inimaginável até há pouco tempo.

Os recursos tecnológicos talvez sejam o principal motivo desse crescimento. Ficou muito mais fácil escrever, formatar, editar, enviar e imprimir os textos. Computadores, internet, impressoras modernas e simples de operar, câmeras digitais, vendas online, etc permitiram diminuir o tempo e facilitar a mão de obra, o que fez aumentar vertiginosamente o número de editoras, muitas delas especializadas em nichos como arte, poesia, novos autores e assim por diante. Sem escritores famosos que garantam as vendas, mas por outro lado, sem o peso das grandes estruturas, tais editoras têm mais liberdade com relação a temas e formatos e chegam a fazer diferença justamente por se colocarem fora do padrão. A maioria delas subsiste com o investimento dos próprios autores, que pagam para ter seus livros publicados. E esse é mais um fator a condicionar o aumento de peças em circulação.

As leis de incentivo à cultura em níveis federal, estadual e municipal, além de fomentarem a criação de espetáculos e de textos, responderam até o momento por grande parte da verba para a publicação de dramaturgia. Quando não, autores e grupos partem em busca de patrocinadores e apoiadores, sejam eles empresas ou pessoas físicas. Nesse último caso, o surgimento de mecanismos de cotização via internet – as famosas vaquinhas virtuais – permite a colaboração com quantias variáveis e garante “recompensas” aos apoiadores, muitas vezes na forma do próprio livro.

É importante lembrar que todo esse movimento começou a ganhar força por aqui nos anos 1990 com os coletivos de criação como uma das reações ao neoliberalismo. Em linhas gerais, para se escapar à ditadura das gravadoras, editoras, emissoras, rádios, galerias, dos produtores e marchands que dominavam o chamado “mercado da arte” e ditavam o que merecia ou não ser veiculado, formaram-se os coletivos de artistas nas mais diversas áreas. Responsáveis por criar, produzir, comercializar e comunicar seus trabalhos, inúmeros artistas assumiram o processo como um todo e garantiram a veiculação de suas obras e independência tanto conceitual quanto formal e comercial. Daí o aumento das editoras e gravadoras em diversos estados brasileiros, sempre à margem do mainstream, a tornar possível o acesso de um maior número de iniciantes na literatura e na música, por exemplo.

Sabemos que antes disso também se publicava dramaturgia. Nos anos 1970, para não ir muito longe, ao ver seus textos censurados pela ditadura, Plínio Marcos decidiu que a partir dali eles seriam conhecidos pelo público e para isso recorreu a impressões convencionais ou artesanais, vendidas por ele mesmo em bares, restaurantes, portas de teatro, feiras literárias e onde mais encontrasse oportunidade. 


Plínio Marcos vende suas peças
na 8ª Bienal do Livro de São Paulo (1984)
(Foto: Eliana Assumpção - FSP) 

Se à época de Plínio Marcos o público de teatro era potencialmente menor e ele contava com seu carisma a garantir as vendas também a quem não frequentava as salas de espetáculo, hoje os leitores de dramaturgia são em maior número. O volume de produções aumentou, mas não só. Nas últimas décadas cresceu vertiginosamente a oferta de cursos de teatro em todos os níveis, ou seja, o fazer teatral tornou-se acessível a grande parte da população, o que aponta mais um fator de interesse pela leitura e o estudo de peças teatrais. **

O teatro é linguagem essencialmente coletiva e, por isso, efêmera. A publicação das peças garante não só uma relativa “fixação” e consequente retomada de parte da experiência de fruição, como também a possibilidade de criar novas encenações ou "encenações subjetivas", via leitura. Se a dramaturgia só se realiza enquanto teatro ao ser colocada em cena e ganhar uma audiência, tem seu lugar na literatura enquanto registro verbal de um tempo, de um pensamento, de uma criação individual ou de grupo, a ser conjugado à imaginação do leitor.


Lançamento do livro com a dramaturgia do
Grupo Teatral Pontos de Fiandeiras, sob minha responsabilidade autoral.
Na foto de Cecília Camargo, as atrizes do grupo e um dos diretores.
Camila Shunyata, Roberta Marcolin Garcia,  Vivian Darini,
Fernanda Henrique, Sérgio Pires e Adélia Nicolete

A publicação de dramaturgia e a apresentação de espetáculos no momento em que vive o país, constituem vitória contra as trevas e a ignorância. No meu caso e do Grupo Teatral Pontos de Fiandeiras ao qual pertenço, representa fixar em livro a existência de mulheres que sempre estiveram à margem, sem direito a figurar nos livros de História. Nossas personagens são mulheres como nós: donas de casa, mães, filhas, estudantes, professoras, operárias, atrizes, líderes comunitárias, mulheres do subúrbio, enfim, como é o caso do nosso ABC paulista. O teatro reconhece sua importância nas transformações sociais e dá a elas lugar de destaque. Que o digam Tchekov, Brecht, Jorge Andrade, Plínio Marcos e outros mais.

Adélia Nicolete e Dalila Teles Veras, poeta, editora e livreira
durante o lançamento de Ponto Segredo e Ponto Corrente
no Sindicato dos Bancários do ABC
(Foto: Cecília Camargo)

Daí festejarmos o lançamento de Ponto Segredo e Ponto Corrente - presença feminina na dramaturgia do ABC paulista, no último dia 18 de março, enquanto mantemos os dois espetáculos em circulação - dramaturgia expressa, no calor da cena. A publicação de dois mil exemplares em forma de folheto foi patrocinada pelo Sindicato dos Bancários do ABC e pela APCEF e atende ao nosso desejo de uma estética próxima à da contracultura, bem como de acessibilidade do texto via preços populares - o valor arrecadado financiará uma nova publicação e a apresentação gratuita de um dos espetáculos em escola pública.

Por ocasião do lançamento, pudemos fazer a retrospectiva das ações e realizações do Grupo e homenagear a militância feminina na pessoa da vereadora carioca Marielle Franco, há pouco eliminada da frente de batalha.

Marielle Franco
(Foto: internet)

Que por meio de nossa arte, possamos travar as lutas necessárias e estimular o nascimento de muitas, muitas, muitas militantes mais.


Adélia Nicolete 



** Infelizmente, tem-se notado desde o impeachment da presidente Dilma Roussef em 2017 um desmonte gradativo da cultura em nosso país. Artistas e produtores culturais foram os que mais acentuadamente se colocaram contra o chamado “golpe da direita”, de modo que as retaliações se fizeram sentir sob a forma de cancelamento de editais e programas, fechamento de teatros e casas de cultura, sucateamento de escolas, cortes de verbas e muito mais. Tais medidas representam um retrocesso incomensurável no que se refere às práticas artísticas e à própria cidadania.









quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Adolf Wölfli


Adolf Wölfli e sua trombeta de papel - 1926
Fotógrafo não identificado


Para Carlos Vinícius
por sua pesquisa sobre artistas visionários

Meu primeiro contato com a obra de Adolf Wölfli foi em 2015 em uma exposição no American Folk Art Museum de Nova York: "When the curtain never comes down". Suas obras  dividiam espaço com trabalhos de outros artistas diagnosticados com algum tipo de distúrbio psíquico. Como o título da exposição anunciava, eram artistas em tempo integral, vários deles internos em manicômio, para quem a composição estética constituía o motivo da existência.

Adolf Wölfli

Adolf Wölfli


Wölfli nasceu em Berna, Suíça, em 1864. Caçula de sete irmãos, teve uma infância marcada pelo abandono e pela violência. Seu pai, alcoólatra e delinquente, foi preso várias vezes até que deixou a família quando Adolf tinha cinco anos. Sozinha para manter a casa, a mãe trabalhou como lavadeira e mais tarde tomou o rumo do interior levando apenas o menino mais novo consigo. Ambos atuaram como mão-de-obra nas fazendas em troca de comida e abrigo, muitas vezes separados um do outro.

Adolf Wölfli - "The St. Adolf Cathedral in Band-Wand"
1910

Aos dez anos Adolf viu-se órfão de mãe e não teve outra saída que não continuar na lavoura e em outros pequenos trabalhos. Sofreu maus tratos, foi abusado sexualmente e cresceu em abrigos estatais. Mesmo com tantas dificuldades, conseguiu completar a educação báscica em 1879.

Adolf Wölfli - "General View of the Island of Neveranger"
1911

Aos dezoito anos Wölfli apaixonou-se pela filha de um rico fazendeiro, mas sua condição social impediu que o relacionamento fosse aprovado pelos pais da moça. Desiludido, o jovem retomou o rumo de Berna.

Adolf Wölfli
Adolf Wölfli


Na capital, juntou-se brevemente ao exército, quando uma sequência de tentativas de abuso sexual de garotas enviou-o à prisão por dois anos. Ao ser libertado e com dificuldade de encontrar um trabalho formal, ocupou-se como jardineiro e coveiro.

Com o passar do tempo seu comportamento tornou-se cada vez mais estranho e agressivo até que em 1895, depois de nova tentativa de estupro, foi enviado ao Manicômio de Waldau, onde permaneceu por 35 anos, até sua morte.

Adolf Wölfli

Nos primeiros anos de internação, Wölfli mostrava-se às vezes violento e incontrolável, ocasiões em que era levado à solitária. Certa vez, em 1899, chegou a usar a mesa de cabeceira para derrubar a porta da cela, tal a sua fúria, e com a madeira da porta quebrou a janela do corredor que o levaria à liberdade. No entanto, foi encontrado na manhã seguinte, imóvel diante da possibilidade de fuga. Nesse ano começou a desenhar. 


Adolf Wölfli

Adolf Wölfli


Primeiro recebia apenas um lápis preto por semana, esgotando-o rapidamente. Ao perceber que o desenho e a escrita acalmavam-no, passaram a aumentar seu suprimento de materiais. No Natal, por exemplo, recebia uma caixa de lápis de cor, esgotada em duas ou três semanas. Contentava-se, então, em trabalhar com tocos de poucos milímetros e até com as pontas que sobravam, habilmente presas entre as unhas.

Seus suportes eram papel jornal, usado em toda sua extensão, e até mesmo papeis de embrulho ou qualquer outro papel de embalagem, solicitados aos guardas e aos companheiros de manicômio. 

Trabalhos da fase inicial não foram preservados. Os desenhos mais antigos datam de 1904 e foram feitos em lápis preto. A cor só veio a aparecer em suas criações em 1907.

Adolf Wölfli - "The Assizes of the Middle-Land,
The Shah of Canton Anger-Valley-Hall, Negre"
1904-1914
Adolf Wölfli


O ano de 1907 foi decisivo para Wölfli, pois marcou a chegada do doutor Walter Morgenthaler a Waldau. Jovem psiquiatra residente, logo notou o talento do interno e não poupou esforços em estimulá-lo, estudá-lo e divulgar seu trabalho fora da instituição. Em 1921, por exemplo, Morgenthaler apresentou um estudo da obra de Wölfli e expôs alguns de seus desenhos em livrarias de Berna, Basileia e Zurique. 

Há notícias de que o caso atraiu o interesse de Gustav Jung e outros psiquiatras, bem como de artistas como André Breton, M. Oppenheim e Jean Dubuffet. 


Adolf Wölfli - "Gramophon"

Prolífico, Wölfli trabalhou continuamente até sua morte, chegando a criar uma autobiografia fictícia tecida pela conjugação de textos, desenhos, colagens e composições musicais sui generis e que, quando empilhada, mediu quase seis metros de altura. Nela o artista recriou a infância e vislumbrou um futuro glorioso a partir de uma mitologia pessoal. Tal foi a impressão causada pela obra que o surrealista Breton a descreveu como “uma das três ou quatro obras mais importantes do século XX”. 



Adolf Wölfli - "Irren-Anstalt
Band-Hain" - 1910
Adolf Wölfli


Adolf Wölfli



Adolf Wölfli


"Do berço ao túmulo", sua autobiografia, começou a ser escrita em 1908. Desenhada folha por folha, num total de 2.970 páginas, resultou em nove volumes onde o artista figura como Santo Adolfo II, aquele se aventurou por várias terras. Há, por sinal, diversos mapas a descrever detalhadamente os lugares visitados.


Adolf Wölfli
Adolf Wölfli
















Adolf Wölfli


Em seus escritos, Wölfli usava vocábulos estrangeiros e chegou a recriar o alfabeto para formar novas palavras, o que veio a formar uma espécie de linguagem secreta que só ele compreendia e dominava. Tal linguagem contou igualmente com os números, usados para expressar ideias e registrar suas músicas. Segundo ele, "Oberon" seria o número insuperável a não ser por "Zorn" (raiva), maior que tudo.

Adolf Wölfli



Adolf Wölfli


Entre 1912 e 1916 Wölfli criou "Livros geográficos e algébricos", uma coleção de mais de 3 mil páginas desenhadas e escritas com números e notas musicais - uma espécie de testamento para seu sobrinho Rudolf Wölfli.

A seguir, deu início à série denominada "Arte-Pão" - desenhos em uma única folha destinados à venda e à consequente compra de mais materiais artísticos. Embora preferisse os trabalhos maiores, recorreu a esse expediente até o final da vida, servindo-se dele também para presentear amigos e admiradores.

Adolf Wölfli - "Packard" - 1927
Um exemplar de Arte-Pão

Foram essas obras que Morgenthaler publicou em sua monografia em 1921 e que propiciaram o interesse de Hans Prinzhorn - um psiquiatra e historiador da arte. Entusiasmado com os trabalhos de Wölfli, Prinzhorn apresentou-os a Jean Dubuffet, que não só adquiriu algumas criações em sua viagem à Suíça como associou-as à Art-Brut. Não bastasse, exemplares da Arte-Pão foram expostos na Documenta 5, de Kassel, em 1972.


Adolf Wölfli - "Hautania and Haaverianna"
1916
Exemplo de Arte-Pão



Atuante na clínica até 1919, Morgenthaler estimulou Wölfli a trabalhar em paineis e decorações e, em 1922 foi a vez de atrair a atenção do professor Hermine Marti, que a veio a se tornar admirador, colecionador e mecenas do artista. 

Adolf Wölfli



No que se refere à música, ela é conteúdo de muitos dos desenhos de Adolf Wölfli, que chegou a assinar como "Compositor" e não como pintor. São trabalhos que se distanciam da notação musical conhecida no que se refere às notas e, no que tange ao ritmo, à duração ou aos instrumentos, as indicações estão escritas à parte no desenho. O fato é que essas "composições sonoras" são, na verdade, composições visuais.

Na velhice, Wölfli executava suas composições numa trombeta de papel. Adaptações de suas músicas podem ser ouvidas na trilha sonora do documentário abaixo, que retrata parte de seu trabalho.






No vídeo a seguir, com trilha de Gregorio Allegri, temos outra seleção de obras de Adolf Wölfli: 


E, finalmente, o livro "Creator of the universe", apresentado em vídeo:



Após a morte de Wölfli, em 1930, suas obras foram conservadas no Museu da Clínica Waldau. Mais tarde, criou-se a Fundação Adolf Wölfli com a finalidade de preservar sua arte para as futuras gerações. Atualmente a coleção está sob a guarda do Museu de Belas Artes de Berna.

Adolf Wölfli

Adolf Wölfli

A quem se interessar, há muito mais que se descobrir a respeito de Adolf Wölfli. Uma infinidade de obras estão na internet, a grande maioria sem os devidos títulos e datas, bem como vídeos, composições e materiais a respeito do artista. Todos em idioma estrangeiro.

Até onde pude verificar, ainda que de modo sucinto, nosso blog talvez seja o primeiro a divulgar esse talentoso artista em língua portuguesa. Uma honra para mim.

Adélia Nicolete


Mais informações acerca de Adolf Wölfli, sua biografia e sua obra (fontes dessa postagem), podem ser acessadas no


ROUSSEAU, Valérie. Adolf Wölfli In: When the curtain never comes down: performance art and the alter ego.  New York: American Folk Art Museum, 2015. p. 128-131