domingo, 25 de agosto de 2019

Ateliê de Dramaturgia - Núcleo de Dramaturgia do Sesi - Curitiba


Parte do grupo e da equipe do Núcleo de Dramaturgia do SESI - Curitiba
(Foto: Lucca)


Há algum tempo adoto nos Ateliês que conduzo a ideia de Dramaturgia não apenas como produção de texto enunciado, mas como produção de cena. São experiências que visam à quebra de paradigmas, principalmente para o/a próprio/a dramaturgo/a. Alargar os limites de nossa atuação, ainda que seja para continuarmos a assumir a escrita de textos a serem enunciados.

No Ateliê de Dramaturgia do SESC no Recife, há dois anos, por exemplo, foram criados três projetos de Dramaturgia e Memória. Cada grupo fez um pitch* do que pretendia e foi questionado pelos demais, a fim de aprimorar a ideia. O tema foi o Mercado de São José, mas o exercício poderia ser aplicado ao desenvolvimento de quaisquer projetos de dramaturgia. Confiram na postagem Mercado de São José - disputa simbólica no velho Recife.

Nos dias 23 e 24 de agosto estive em Curitiba junto ao Núcleo de Dramaturgia do SESI, coordenado por Lígia Souza Oliveira e Greice Barros. O grupo tem 12 participantes e as atividades já estão em andamento – palestras, oficinas, vivências e acompanhamento de projetos. Tive total liberdade de ação e apenas dois delimitadores: carga horária de nove horas e a América Latina como norteador. Segue uma brevíssima descrição do processo.

Tecelagem andina
 processos de decolonialidade, pertecimento e geração de renda
na região de Cusco - Peru

Os Ateliês que proponho nasceram da conjunção entre Artes Plásticas e Dramaturgia, por isso decidi pelo diálogo com artistas latino-americanos, especialmente por aqueles que estivessem à margem das galerias e museus, fora do mercado. Dentre tantas possibilidades, a escolha recaiu sobre o Centro de Textiles Tradicionales del Cusco, no Peru. É evidente a analogia entre a tecelagem e a tessitura de ações que, no dizer de Eugenio Barba, define dramaturgia.

Do ponto de vista técnico, da tecelagem interessava-nos a compreensão de urdidura e de trama e sua relação com a escrita. Do ponto de vista político, o movimento realizado por um grupo de tecelãs e tecelãos peruanes em busca da recuperação de suas tradições e, consequentemente, de sua identidade. “Quem somos nós?” teria sido a pergunta geradora daquele movimento e também do nosso, agora, na construção de uma cena. 

Por que a tecelagem cusquenha e não outra? Por um dado peculiar à sua herança cultural: moças e moços em idade de noivar, encarregam-se de tecer algumas peças a fim de exibi-las e conquistar um/a parceire. Em festas comunitárias, “performam” suas habilidades técnicas e estéticas garantindo, assim, a perpetuação da atividade têxtil e da própria coletividade. Seduzir não seria também o nosso objetivo quando tecemos e performamos nossas escritas em cena?



Grupo pesquisa ações físicas



















A ideia de buscar “quem somos nós” começou com a pesquisa de ações físicas – o primeiro fio da tessitura cênica. Nela, cada participante foi convidade a identificar seus verbos cotidianos e estabelecer uma trajetória física com eles. Na sequência,  elementos relativos a pensar, sentir e querer foram levantados, de modo a constituir uma série de fios a serem tramados na urdidura da escrita. A eles foram acrescidos outros mais, da esfera da própria linguagem.


Janaína a tramar os fios do texto



Beatriz, Val e Gessé a tecer seus textos




Izabela em escrita
















Sandoval em escrita


A partir desse levantamento e de discussões a respeito, um pequeno texto foi escrito e submetido a um/a colega com vistas à reescrita. 



Alan e Carlos em audição


Duplas em audição - à frente, Janaína e Juliana


Duplas em audição


Outro fio - o do texto enunciado - foi criado: na grande urdidura da cena, tramamos também o fio da voz, na medida em que leram cada um/a o texto de outrem, depois de analisado e ensaiado. Dramaturgxs intérpretes. Restava-nos compor a rapsódia.


Fernando ensaia texto
de Val
Val ensaia texto de Sandoval
Gessé ensaia texto de Alan

À dramaturgia foram acrescidos um figurino e a trilha sonora. Ao final da experiência de escrita/tessitura cênica, corpo, texto enunciado, voz, figurino, sonoridade e espaço constituíram “Quem somos nós”. Em menos de nove horas formatamos  um espetáculo ou performance de 45 minutos num processo prazeroso e carregado de afeto, com a participação de vários não-atores a se aventurarem na cena. Com apenas alguns ensaios mais, teríamos um trabalho digno de exibição ao público e ele seria seduzido pelo que nos dedicamos a tecer.

Predisposição ao risco é essencial à Arte e não faltou ao grupo. Trouxe para casa a alegria de mais um Encontro memorável propiciado pelo Teatro. Só quem já fez é que sabe! Teatro faz bem à alma! 

Lígia, Karina e Lucca - equipe do Núcleo De Dramaturgia do SESI

Agradeço Lígia e Greice pelo convite e recepção, Karina e Lucca pelo suporte e presença. Um abraço apertado em cada participante. Aquelas vozes que ressoaram no palco às escuras moveram mundos.

Até a próxima.

Adélia Nicolete


* Pitch, um termo inglês, é a apresentação de uma ideia ou projeto a fim de convencer o público de suas qualidades.

2 comentários:

  1. A professora dramaturga globetrotter, vai semeando e provocando propostas de arte que salvam. Adoro acompanhar essas viagens (terrestres e espaciais). Viva!

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    1. Dalila, caríssima, muito obrigada pela visita e por deixar o registro da amizade de tantos anos. Viva!

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